A esquizofrenia na perpectiva da analítica existencial
A Esquizofrenia na Perspectiva da Analítica Existencial
O filósofo alemão Martin Heidegger em raríssimas ocasiões tratou diretamente de questões psicológicas. Entretanto, seu pensamento, extremamente versátil e amplo , produziu certo impacto no campo psicológico, seja pela absorção direta de sua obra, seja pela influência indireta do existencialismo. Nos interessa especificamente a apropriação de seu pensamento realizada por Medard Boss, e a conseqüente concepção psicopatológica que daí se formou.
Sua obra mais importante, que gravou seu nome na história do pensamento humano, é denominada Ser e o Tempo. Embora tenha sempre a questão do ser como sua meta ou horizonte, a obra heideggeriana enverada por uma investigação antropológica, ainda que ontologicamente orientada. O filósofo julga que para enfrentarmos esse desafio filosófico máximo, a questão clássica do “ser enquanto ser “, devemos começar investigando aquele ente que questiona , e que deve possuir, assim, alguma pré-compreensão deste, ainda que não-articulada e confusa. A compreenssão deste entendimento tácito, articulado e explicado pelo referencial metodológico, é uma das virtudes do trabalho Heideggeriano, que permite caracterizar sua obra como um tratato de ontologia fenomenológica. Desta feita, a investigação heideggeriana, mesmo que dominada por interessantes ontológicos, proporciona ricas análises àqueles que se ocupam do entendimento da vida humana. É desta maneira que o pensamento heideggeriano torna-se ferramenta útil para os psicólogos e para as ciências humanas. Faremos uma exposição, tão sintética quanto for possível, de algumas análises heideggerianas da condição humana, e da sua utilização na psicopatologia de Medard Boss, objeto do presente estudo. Como fica evidente numa leitura, mesmo que ligeira, dos seus escritos, Heidegger se apropria dos termos tradicionais da filosofia ou da linguagem corrente, infundindo-lhes um significado original e por isso mesmo de difícil compreensão. Isto se aplica , aliás com bastante propriedade, às suas reflexões sobre o homem . O termo que Heidegger utiliza para designar o ser humano é Dasein, o qual é muitas vezes traduzido por ser-aí , ou ser-no-mundo, mas que optamos por manter no original. Dasein é um composto de da( aí) e sein (ser), e na linguagem corrente significa existência ou presença. A utilização do termo Dasein para designar o ser humano é resultado de vários motivos. Um deles , salientado diversas vezes, é de que o ser do homem não reside em um “ o quê” ou propriedade substancial , mas no seu próprio existir e estar-no-mundo. Heidegger quer assinalar que o fato mais primário e imediato do Dasein é o ocupar-se com coisas no mundo - importar-se com elas e estar “ aberto” a elas- e não o pensamento, a alma ou a consciência, tal como tradicionalmente pensados . Por “mundo” não entende simplesmente a totalidade do que existe ou mesmo o universo físico como um todo, mas alguma coisa mais primitiva, e por isso mesmo mais despercebida e velada. O mundo é a totalidade do que o homem encontra . Engloba tanto o universo físico como as pessoas e seu comportamento; inclui tanto seu próprio corpo , como os valores, idéias e possibilidades que encontra materializadas em seu ambiente. O Dasein é ser-no-mundo; todavia , o Dasein não está no mundo como um objeto contido em outro, por exemplo, uma moeda dentro do meu bolso. Ele é " para " um mundo, como projeto ou totalidade com que ele se relaciona, ocupa e encontra. O homem está ,por assim dizer, sempre direcionado para o mundo ou ocupado com alguma coisa nele. Este lidar com algo pode ser alguma uma atividade dita “ externa”, como falar com alguém ou procurar comida ; pode ser fazer arte ou ciência, ou “simplesmente “ pensar e sentir. A idéia é, em todo caso, de que o pensar, raciocinar e o perceber, que eram tomados como os fatos primários da vida humana , são secundários e derivativos. Quando encontramos alguma coisa qualquer em nosso ambiente, por exemplo, um martelo, uma pessoa ou uma árvore, para não falar em alguma coisa intangível como uma "idéia" ou pensamento, raramente encontramos imediatamente “ objetos” para uma consciência ou sujeito. A noção mesmo de objeto para uma consciência é uma construção artificial , ou seja, uma falsificação da nossa experiência imediata. O fato fundamental e primário é o encontrar-se desde sempre junto a um mundo dado ( o ser-no-mundo), e o ter de lidar ou ocupar-se com aquilo que se encontra. Esta segunda característica Heiddeger denomina cuidado ou engajamento ( sorge). [ continua ]
Lucas Roisenberg Rodrigues
Robert Laing: abordagem fenomenológica da Esquizofrenia
Biografia Breve:
Ronald David Laing, renomado e controvertido psiquiatra, rebelou-se contra a psiquiatria ortodoxa e buscou um novo método de tratamento da loucura. Nasceu em Glasgow, Escócia, em 7 de outubro de 1927, e faleceu em 1989. Laing empreendeu inúmeras experiências com uma nova abordagem da doença mental: a do existencialismo.
Dirigiu a Langham Clinic, em Londres e começou também experimentos com drogas estimulantes do pensamento como meio de acelerar viagens transcendentais ao Eu interior. Ele e outros fundaram uma comunidade terapêutica em Kingsley Hall, Londres, em 1965; a utópica clínica faliu cinco anos depois, mas centros semelhantes apareceram em vários pontos dentro e fora de Londres.
No início da década de 70 estudou com mestres budistas e hindus em Ceilão, Índia e Japão, e fez conferências nos Estados Unidos. Faleceu em 23 de agosto de 1989 quando em férias em St. Tropez, França.
Principais Influências Filosóficas:
- Kiergaard - Sartre - Wittgenstein
O Eu Dividido e a Condição Esquizofrênica:
Laing formulou o conceito do Sistema do Falso Self: O indivíduo possui o seu verdadeiro self, que fica, até certo ponto, resguardado e interiorizado – diz respeito ao “Eu Interior”; Externamente, carrega-se o falso self, sendo este mutável e adaptável a situações do mundo exterior. Indivíduos em condição Esquizóide tendem a direcionarem-se interiormente, como estratégia que busca resguardar o seu self interior de pressões sociais externas que lhe causaram experiências de dor. Essa interiorização culmina em crescente ansiedade e desvinculação da realidade, podendo progredir a uma condição psicótica de fato: o Self afasta-se tanto da realidade externa que acaba submerso pela fantasia, no mundo das “coisas mentais”. Há um entorpecimento do mundo partilhado como um todo. O Eu, isolado e exilado, como um navio que perde-se em tempestade ao tentar cruzar um oceano, torna-se irreal ou fantástico, incapaz de manter o senso da própria identidade, pois não mais reconhece-se naquilo que está exterior a si. A dissociação do Self e de seu corpo com o estreito entre o corpo e os outros presta-se à posição psicótica, onde o corpo é concebido não como agindo de acordo e apaziguando os outros, como na posição neurótica, mas como se estivesse deles possuído. O corpo é sentido mais como um objeto entre outros objetos no mundo do que como cerne do indivíduo. Este Self desencarnado torna-se hiperconsciente na tentiva de situar seus próprios imagos, desenvolvendo um relacionamento consigo mesmo e com o corpo que pode tornar-se bastante complexo.
“Considerar a atitude de uma pessoa em condição Esquizofrênica como devidas primordialmente a alguma deficiência psicológica é como supor que um homem, apoiado numa só mão, sobre uma bicicleta, numa corda bamba, a trinta metros de altura, sem rede de segurança, esteja sofrendo de incapacidade de firmar-se sobre os próprios pés. É de se indagar por que tais pessoas têm que ser, às vezes brilhantemente, tão esquivas, indefiníveis, incansavelmente propensas a se mostrarem incompreensíveis” (1 - pg. 77).
Laing, como psiquiatra, afirmou que os “médicos da loucura” prestam pouca atenção à experiência do paciente. A única inferência que o psiquiatra tem, segundo ele, é baseada na experiência de si mesmo experienciando o paciente, desconsiderando-se totalmente o ponto de vista do outro, supondo sempre que as experiências do esquizofrênico sejam, de certo modo, irreais e inválidas. Sem uma interpretação que atribua veracidade ao que o paciente experiencía - pois realidade e fantasia sobrepõe-se, perde-se a tênue linha que as diferencia. Contudo, para a abordagem fenomenológica experiência, e toda experiência é dotada de caráter “ilusório”, vista que jamais é real de fato, e o real de fato não existe. A realidade essencial não existe: o que há é o compartilhamento de significados para o mundo que é percebido por cada um.
A Política da Experiência
Laing afirmava que as circunstâncias sociais em torno da pessoa Esquizofrênica, são, em si, esquizofrenizantes. A Esquizofrenia passa a ser uma estratégia particular, adotada em algum momento, para viver uma situação insustentável, onde pessoa sente se encontrar em uma posição impossível: vê-se dominada por exigências e pressões ao mesmo tempo radicais e paradoxais, somadas a coerções internas (internalizadas). “Há algo de errado em algum ponto, mas não pode ser visto exclusivamente, ou mesmo primordialmente, ‘no’ paciente esquizofrênico” ( 1 - pg. 86).
Laing trouxe propostas antimanicomiais opondo-se veementemente à rotulação e aprisionamento do diferente, daquilo que de alguma forma não atende mais propósitos de demandas externas criadas para o seguimento da ordem. “Em voz do manicômio, uma espécie de fábrica para o conserto de panes humanas, precisamos de um local onde as pessoas que viajaram mais longe e, por conseguinte, talvez estejam mais perdidas que os psiquiatras e outras pessoas sadias, encontrem seu caminho mais profundamente no espaço e no tempo interiores e possam regressar.” Propõe que para os perdidos, seja proporcionado acompanhamento não de pessoas ditas sadias e “inelouquecíveis”, mas sim de ex-pacientes que os ajudem a enlouquecer. “O que ocorre, então, é uma viagem: 1 – De fora para dentro, 2 – da vida para uma espécie de morte, 3 – do progresso para um regresso, 4 – do movimento temporal para a imobilidade temporal, 5 – do tempo mundano para o tempo eônico, 6 – do ego para o self, 7 – do lado de fora (pós-nascimento) de voltado ao seio de todas as coisas (pré-nascimento).
E, então, subsequentemente, uma viagem de regresso: 1 – do interior para o exterior, 2 – da morte para a vida, 3 – do movimento retroativo para o movimento novamente progressivo, 4 – da imortalidade de volta à mortalidade, 5 – da eternidade de volta ao tempo, 6 – do self para um novo ego, 7 – de uma fetalização cóscima para um renascimento existencial” ( 1 - pg. 95 e 96)
Por Daniel Mossi
Referências:
1 - Laing, Robert D.: A Política da Experiência e A Ave-Do-Paraíso. 2ª ed. Petrópolis, Editora Vozes 1978
2 - Laing, Robert D.: O Eu Dividido: estudo existêncial da sanidade e da loucura. 3ª ed. Petrópolis, Editora Vozes, 1978
O Entendimento da Esquizofrenia pela Daseinsanalyse de Medard Boss
1. Psiquiatria e Filosofia: o surgimento da Psicologia Existencial
A chamada Psicologia Existencial , vertente psicológica do Existencialismo , é representada, especialmente, pelo trabalho de Ludwig Binswanger (1881-1966) e Medard Boss (1903-1990). Certamente, foram diversos os estudiosos que se utilizaram do pensamento filosófico para pensar as patologias, como Karl Jaspers, Viktor E. Von Gebsattel, Eugène Minkowski e Erwin Straus (1). Contudo, tais autores, embora buscassem outra compreensão das doenças, esclarecendo sua dimensão humana e experiencial, utilizaram, principalmente, a fenomenologia husserliana. Binswanger, por outro lado, foi o primeiro a utilizar o pensamento heideggeriano para entender os pacientes psiquiátricos, enquanto Boss foi o único cuja obra foi acompanhada de perto pelo próprio Heidegger, com o qual manteve amizade por duas décadas (2).
2. A Daseinsanalyse de Medard Boss
Pode-se dizer que o trabalho de formulação de uma psicoterapia e psicopatologia centrada no entendimento do existir humano como Dasein foi um trabalho conjunto de Medard Boss e Heidegger, conforme indicam os Seminários de Zollikon (3). O ponto de partida de Boss foi a psicanálise freudiana, pois essa era sua formação. Contudo, ele entendeu que Freud (assim como a psiquiatria clássica) prendeu-se a horizontes muito estreitos na compreensão do ser humano, da seguinte forma:
“Freud considera como única ciência a ciência natural de base matemática e (...) estabelece que só uma disciplina assim pode criar verdadeiro conhecimento sobre o homem e as coisas” (4).
De acordo com Boss, o homem deve ser entendido conforme suas especificidades, e não como igual a um objeto da natureza ou a uma máquina.
3. A Psicopatologia Daseinsanalítica: um entendimento da esquizofrenia
Consoante sua crítica à aplicação do modelo proposto pelas Ciências Naturais ao entendimento do ser humano, Boss posicionou-se contrariamente à perspectiva causalista que desloca a compreensão do próprio fenômeno patológico para o estudo de suas causas. Nesse sentido, Boss estava afinado com a fenomenologia, pois não queria descobrir a etiologia das doenças e sim compreender o próprio fenômeno doença que se apresentava. Ele entendia as patologias como formas específicas do ser humano realizar seu próprio existir: para compreendê-las, era necessário focalizar a compreensão da vivência do paciente e considerar o que é especifico do existir humano.
No que tange à esquizofrenia, Boss a compreendia como uma restrição à abertura livre do existir, pois o doente se mostrava incapaz de corresponder adequadamente às coisas que se apresentavam no mundo (5). As manifestações esquizofrênicas, como delírio de perseguição, incapacidade de encontrar saídas para sua própria existência e formação de ideais extravagantes não eram vistas como um conjunto de sintomas determinados previamente, mas como um modo de existir no mundo. No caso da esquizofrenia, estas manifestações provocam uma privação das possibilidades efetivas de realização da própria existência, razão pela qual é considerada uma patologia. Boss atendeu, por dez anos, um paciente esquizofrênico, o qual, aos poucos, conseguiu afirmar sua maneira de ser e não obedecer mais cegamente às exigências circundantes (6).
Notas:
(1) CARDINALLI, I. E. (2004). Daseinsanalyse e esquizofrenia: um estudo da obra de Medard Boss. São Paulo: EDUC – FAPESP.
(2) HALL, C. S. & LINDZEY, G. (1984). Teorias da Personalidade. Capítulo IV – A Psicologia Existencial (pp. 81 a 106). Porto Alegre: ArtMed.
(3) A obra Seminários de Zollikon resultou de anotações realizadas por Boss a partir de seminários conduzidos por Heidegger para um grupo de psiquiatras e psicanalistas em Zollikon, na Suíça, entre 1959 e 1969, além de diálogos e de cartas trocadas entre Boss e Heiddeger. In: HEIDEGGER, M.; BOSS, M. (2001). Seminários de Zollikon. São Paulo: EDUC.
(4) BOSS, M. (1959). Psicoanalisis y analitica existencial. 2ª ed. Barcelona: Cientifico Medica. Tradução livre do espanhol.
(5) CARDINALLI, I. E. (2004). Daseinsanalyse e esquizofrenia: um estudo da obra de Medard Boss. São Paulo: EDUC – FAPESP.
(6) BOSS, M. (1977). O modo-de-ser-esquizofrênico à luz de uma fenomenologia daseinsanalítica. Revista da Associação Brasileira de Daseinsanalyse, São Paulo, n. 3. Trechos em: CARDINALLI, I. E. (2004). Daseinsanalyse e esquizofrenia: um estudo da obra de Medard Boss. São Paulo: EDUC – FAPESP.
Referências:
BOSS, M. (1959). Psicoanalisis y analitica existencial. 2ª ed. Barcelona: Cientifico Medica.
CARDINALLI, I. E. (2004). Daseinsanalyse e esquizofrenia: um estudo da obra de Medard Boss. São Paulo: EDUC – FAPESP.
HALL, C. S. & LINDZEY, G. (1984). Teorias da Personalidade. Capítulo IV – A Psicologia Existencial (pp. 81 a 106). Porto Alegre: ArtMed.
HEIDEGGER, M.; BOSS, M. (2001). Seminários de Zollikon. São Paulo: EDUC.
Lucia Cristina H. Navarro

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