4 - GRANDES PERSONALIDADES:
Pintores Músicos Escritores e Místicos!!!
Grandes personalidades conviveram
com a epilepsia
A estatística para o número de
pessoas com epilepsia é alta, calcula-se que de cada 100 pessoas, uma tem a
doença. Através da história, anônimos e famosos tiveram epilepsia. É grande a
lista de figuras ilustres da história, com gênios como o pintor holandês Van
Gogh, até roqueiros como o inglês Ian Curtis da banda Joy Division que chegou a
ter ataques epilépticos no palco.
Ian Curtis, vocalista da banda Joy
Division, às vezes tinha crises no palco
Na maioria dos casos a pessoa
tenta esconder a doença, que sempre foi envolvida em uma áurea de mistério e
superstições. Até hoje em dia, muitos epilépticos ainda evitam assumir a doença
em público, porque ainda existe o preconceito causado pela ignorância sobre a
causa dos ataques e o medo de contágio. No Brasil há várias associações que se
organizam para lutar contra o preconceito e auxiliar o tratamento e o controle
dos casos.
No passado era mais difícil
esconder os ataques, mas hoje pessoas públicas e pessoas comuns mantém a doença
sob controle através de tratamento com medicamentos e cirurgias. Os portadores
de epilepsia enfrentam a insegurança profissional, com medo de perder o emprego
pelo estigma que a doença ainda provoca e com o preconceito gerando dúvidas
sobre a capacitação intelectual e profissional. Mas a história mostra, apesar
das dificuldades enfrentadas, grandes personalidades que se destacaram em suas
áreas de atuação tiveram a doença.
Atualmente é difícil comprovar
cientificamente que pessoas no passado tiveram epilepsia, mas há relatos sobre
os sintomas. Líderes, místicos artistas e escritores sofreram ataques
epilépticos. O desafio da difícil convivência com a epilepsia foi enfrentado e
superado por escritores como Gustave Flaubert e Dostoiévski, que produziram
clássicos da literatura universal. Dostoiévski, autor do livro Os Irmãos
Karamázovi, escreveu pouco antes de sua morte: "sim, eu tenho a doença das
quedas, a qual não é vergonha para ninguém. E a doença das quedas não impede a
vida".
É uma vida difícil, esta de
conviver com ataques convulsivos inesperados. A presidente da Associação dos
Portadores de Epilepsia do Distrito Federal, Alaíde Ferreira da Silva, 36 anos,
diz que chegou a ter 18 ataques epilépticos em um dia. Ela teve a primeira
crise aos 5 anos de idade e passou a ter sempre, quase diariamente. No caso
dela, os medicamentos não conseguiram controlar totalmente os ataques, apesar
de tomar três remédios diferentes e cerca de 20 comprimidos por dia.
Há dois anos Alaíde foi operada
com recursos próprios através de seu plano de saúde no Hospital Santa Luzia,
pela equipe do médico Wagner Afonso Teixeira, que fez a primeira cirurgia de
epilepsia em Brasília. Depois da operação, Alaíde nunca mais teve ataques e
hoje toma três comprimidos diários e tem a possibilidade de se ver livre dos
medicamentos em quatro anos.
Em maio de 1999, Alaíde criou uma
associação para ajudar os portadores em Brasília. "É muito difícil
conviver. Eu graças a Deus consegui estudar, mas a maioria não consegue. São
muitas as dificuldades, as pessoas têm vergonha". As principais lutas da
associação são contra o preconceito e o ignorância. Muita gente faz
brincadeiras de mau gosto com os portadores e colocam apelidos pejorativos.
Uma outra forma de preconceito é
decorrente da falta de informação sobre as causas da doença e do medo do
contágio. "É uma crise feia, eles caem, batem a cabeça, babam e as pessoas
não socorrem", diz a presidente da associação que reúne cerca de 200
portadores em Brasília, onde o número de doentes é calculado em 20 mil pessoas.
O lema da associação é: "Contagioso é o Preconceito" e o objetivo é
orientar a sociedade sobre a doença e reunir os portadores e familiares em
discussões e palestras.
Outra batalha da associação é
conseguir que o estado realize as operações pela rede pública de saúde, que
ainda não são feitas por falta de verbas. O médico neurologista, Ricardo
Teixeira, diz que a grande luta é dar o acesso à cirurgia para todos que podem
ter esse recurso. "Hoje existem em Brasília 120 pacientes prontos para a
operação, com todos os exames feitos, só aguardando a criação de um espaço e os
aparelhos para a cirurgia". Ele diz que apesar de ser uma técnica do
século 19, a operação passou a ser bastante aplicada a partir da década de
1950. "Mas no Brasil ela ainda é vista por alguns planos de saúde com um
conceito como se fosse "experimental", mas é muito consagrada e 90%
dos pacientes têm chances de operação", diz o neurologista.
Genialidade e Criatividade
Ao lado dos problemas enfrentados
pelos portadores da epilepsia, existem casos de pessoas que superaram as
dificuldades cotidianas e se dedicam à produção de obras geniais, desenvolvendo
habilidades fora do comum. Os maiores exemplos acontecem nas áreas das artes e
de atividades ligadas à criatividade, como a literatura.
O biólogo Norberto
Garcia-Cairasco, do Laboratório de Neurofisiologia e Neuroetologia Experimental
da USP em Ribeirão Preto, diz que há uma grande pergunta que a ciência ainda
não tem como responder: se alguns indivíduos eram gênios por causa de
epilepsia? Em certas doenças cerebrais e neurológicas, os pacientes desenvolvem
capacidades incríveis em certas áreas, apesar da falta de coordenação motora.
"Este é um tema interessante,
porque indivíduos com casos neurológicos conhecidos como idiotas-sábios tem
desempenho acima da média em certas habilidades, apesar dos problemas motores.
Alguns autistas, totalmente desconectados do meio externo, são capazes de ouvir
uma música e reproduzi-la perfeitamente em um instrumento. Como se explica
isso? Não se explica.", diz Cairasco.
Se a ciência ainda não explica
esses fenômenos, por outro lado, há a constatação de que os problemas causados
pela epilepsia não comprometem o desempenho artístico e criativo dos
portadores. "Apesar da epilepsia, eram gênios. Hoje não se distingue uma
pessoa com casos de epilepsia mais leve, embora haja os estigmas. Mas pessoas
que não se tratam ou não respondem ao tratamento se afastam do convívio social
e podem sofrer de ansiedade e problemas psicológicos", diz Cairasco. Para
ele, estas alterações de humor coincidem com períodos de grande produção,
principalmente na literatura, no caso por exemplo de Dostoiévski e Tennessee
Williams, indicando uma relação entre o emocional e a produtividade.
É difícil afirmar a epilepsia de
grandes nomes da história universal, mas são muitos os famosos com indícios da
doença. A médica Elza Márcia Targas Yacubian (leia artigo de Elza Márcia nesta
edição) do Departamento de Neurologia e Neurocirurgia da Unifesp escreveu o
livro Epilepsia: da Antigüidade ao Segundo Milênio - Saindo das Sombras, onde
reúne vários casos históricos. Entre os vários nomes citados por neurologistas
estão: Sócrates, Júlio César, Alexandre o Grande, Buda, Maomé, Napoleão,
Pascal, Isaac Newton e Lênin. No Brasil estão o escritor Machado de Assis e o
Imperador Dom Pedro I.
Pintores e Músicos
O pintor holandês Van Gogh é o
maior exemplo da genialidade artística em um caso considerado como epilepsia,
como foi diagnosticado pelo Dr. Peyron no asilo Saint-Paul de Mausole em
Saint-Remy de Provence. Apesar de que Van Gogh é um caso atípico, com vários
fatores que podem ter influído para a sua doença mental que até hoje ainda não
foi bem explicada. As causas de suas crises podem ter origem na intoxicação por
várias substâncias, como o álcool, o absinto, as próprias tintas e a
terebintina, usada como solvente e para secar os pigmentos e que Van Gogh
ingeria. Van Gogh tinha também o hábito de comer as suas pinturas, que seria uma
conseqüência de seu vício em substâncias com terpenos, presente no absinto, na
cânfora e na terebintina.
O pintor sofria de mania aguda e
alucinações visuais e auditivas, que o levaram a cortar a própria orelha. Nas
cartas enviadas ao irmão Theo, Van Gogh descrevia vários sintomas e as crises
que passou a ter após os 35 anos de idade e que continuaram até a sua morte,
dois anos depois. Em uma dessas cartas, quando estava internado em Sait-Remy,
ele escreveu: "as alucinações insuportáveis desapareceram, estando agora
reduzidas a um pesadelo simples, eu penso que em conseqüência do uso que venho
fazendo do brometo de potássio", o primeiro medicamento usado para
combater crises epilépticas.
Depois dessa internação, Van Gogh
procurou o médico homeopata Dr. Paul Gachet que diagnosticou intoxicação aguda
por terebintina e lesão cerebral causada pelo sol. O Dr. Gachet foi retratado
em dois quadros famosos de Van Gogh, com ramos da planta dedaleira, também
conhecida como digital (Digitalis purpurea). No século 18 a dedaleira chegou a
ser usada no tratamento da epilepsia, mas não há registro de que ela tenha sido
receitada e usada por Van Gogh.
Grandes gênios da música
apresentaram quadros de epilepsia. Há suspeitas de que o compositor alemão
Ludwig van Beethoven tenha tido a doença. Beethoven tinha uma personalidade
marcante e no final da vida sofreu com vários problemas de saúde. A partir do
30 anos, ele começou a ter perda progressiva da audição e aos 50 anos estava
praticamente surdo.
O compositor também sofria de
cirrose hepática. As análises feitas no cabelo de Beethoven indicaram altos
níveis de chumbo, provavelmente ingerido através de peixes contaminados. Isto
pode ter provocado uma doença conhecida como saturnismo, causada pela
intoxicação pelo metal pesado e que provoca transtornos mentais e neurológicos.
Outros nomes de músicos
tradicionais são citados na literatura como portadores de epilepsia, como o
compositor barroco Handel, autor de O Messias, o italiano Niccolo Paganini, um
violinista virtuoso, o compositor francês Berlioz e o russo Tchaikowsky, autor
das obras O Lago dos Cisnes e O Quebra-Nozes. Do século 20, há o caso do
americano George Gershwin, compositor de canções populares e do roqueiro inglês
Ian Curtis.
A história de Curtis é curiosa e
trágica. Ele era vocalista da banda Joy Division que foi criada em 1977, numa
época seguinte ao estouro do movimento punk. A banda foi a precursora do som
soturno e melancólico, que caracterizou o estilo conhecido no Brasil como
"dark" ou "gótico". A primeira crise convulsiva do
vocalista aconteceu logo após a estréia em Londres. O show foi decepcionante e
a crise abalou Curtis. Depois disso, a excitação dos shows levava o vocalista a
ter ataques epilépticos em pleno palco.
Quando Ian Curtis tinha convulsões
durante as apresentações ao vivo, o público adorava e achava que fazia parte da
performance. Até o jeito de dançar de Ian tinha alguns gestos que chegaram a
ser comparados aos movimentos das convulsões, mas este estilo já existia antes
dele ter a primeira crise. A mulher do vocalista, Deborah Curtis, escreveu o
livro Carícias Distantes, onde relata os bastidores da banda. Ela escreveu:
"as pessoas o admiravam por aquilo que o estava matando". O estilo
mórbido e as letras melancólicas ficaram marcados já nas músicas do primeiro
álbum da banda, Uknown Pleasures.
Com os sintomas da doença, Ian
Curtis desenvolveu problemas emocionais. Quando ficava eufórico durante os
shows e a crise não acontecia nos palcos, ele só conseguia dormir depois de
esperar o ataque. Segundo Deborah, ele tinha medo do sono. Curtis chegou a se
separar da mulher e os problemas o levaram a ser internado por ingerir uma alta
dose de remédios. Pouco tempo depois, ele se suicidou, enforcando-se em sua
casa. Os outros integrantes da banda, Bernard Summer e Peter Hook, formaram em
seguida a banda New Order, que fez bastante sucesso nos anos 80 com seu som
eletrônico para as pistas de dança.
Alguns atores famosos de Hollywood
também sofreram de epilepsia, como Richard Burton, Michel Wilding e Margaux
Hemingway. No Brasil, o Imperador Dom Pedro I era considerado um gênio, segundo
alguns historiadores, incluindo Pedro Calmon. Apesar de ter recebido pouca
instrução, o Imperador se destacava em certas habilidades artísticas e tinha um
gênio impetuoso. Dom Pedro I foi o autor da música do Hino da Independência.
Segundo os historiadores, ele sofria de epilepsia herdada do lado materno de
sua família e antes dos 18 anos já tinha sofrido seis crises.
Escritores e Místicos
A área literária é a que reúne
maior número de autores que tiveram epilepsia comprovada é mais fácil por
registros escritos. Entre os escritores, o russo Dostoiévski foi o que mais
descreveu os estados da epilepsia, antes mesmo da medicina. Ele começou a ter
as crises aos 25 anos de idade. Os ataques se prolongaram até a sua morte aos 60
anos. Nestes 35 anos, o escritor teve cerca de 400 crises convulsivas, que eram
seguidas de confusão mental, depressão e distúrbios temporários de fala e
memória.
Em suas cartas, diários e obras
literárias, Dostoiévski relatou as suas sensações características da epilepsia,
como os estados de sonhos, pensamentos meditativos, sentimento de culpa,
tremor, fuga de idéias, entre outras. Mas a doença para Dostoiévski foi mais um
estímulo para ativar a sua genialidade. Ao usar a epilepsia como fonte de
inspiração, o escritor venceu o desafio de conviver com ela e, sem tratamento
em sua época, comprovou que os ataques não afetam o potencial intelectual e
profissional.
O escritor Gustave Flaubert, autor
de Madame Bovary, também é um outro exemplo de luta contra os problemas
cotidianos da epilepsia. A doença se manifestou aos 22 anos de idade, com
crises parciais simples, (com sintomas visuais de curta duração) e depois com
crises complexas. Ele também apresentava os sintomas emocionais, como terror,
pânico, alucinações, pensamentos forçados e fuga de idéias. Em certo momento da
vida, Flaubert se isolou socialmente e foi morar em Croisset. Para enfrentar as
barreiras que a doença impunha, como a dificuldade na memória verbal, em
encontrar as palavras, ele chegava a trabalhar 14 horas por dia e se tornou um
dos grandes escritores franceses.
Vários outros escritores tiveram
epilepsia, como Lord Byron, Dante, Charles Dickens, Leon Tolstói, Edgar Allan
Poe, Agatha Christie, Truman Capote e Lewis Carrol. No Brasil o principal caso
foi de Machado de Assis, que evitava comentar sobre a doença, numa tentativa de
esconder a epilepsia por causa de seus estigmas. Mas os ataques eram freqüentes
e foram testemunhados por várias pessoas e inclusive um desses ataques foi
registrado pelo fotógrafo conhecido como velho Malta no centro do Rio de
Janeiro.
Durante a história, várias pessoas
que afirmavam ter revelações, ouvir vozes e ter visões, podem ter sofrido de
epilepsia. Esses casos estão presentes entre personalidades de várias religiões,
desde o início do catolicismo, do budismo, do islamismo e do protestantismo.
Entre os místicos, há vários relatos de visões que podem ser atribuídas aos
sintomas de epilepsia, como a luz brilhante que cegou São Paulo no deserto de
Damasco, descrita na Bíblia e que o deixou sem enxergar por três dias. Entre
outros dados históricos analisados por pesquisadores em neurologia estão as
revelações de Buda, obtidas pela meditação que lhe proporcionava as visões e
sensações do nirvana ou do paraíso, e de Maomé, que dizia receber os
ensinamentos do Anjo Gabriel para escrever o Corão, o livro sagrado do
islamismo.
Segundo o neurologista espanhol,
Esteban Garcia-Albea, Santa Tereza de Jesus sofria de um tipo diferente de
epilepsia parcial, provocada por uma pequena irritação no cérebro, que
provocava sintomas afetivos de prazer e felicidade. A santa, nascida em Ávila
no ano de 1515, tinha "crises de felicidade". Os sintomas eram;
primeiro a aparição de uma luz, depois a paralisia do corpo, as alucinações e
no final as sensações de prazer.
A causa dos problemas de Santa
Tereza teria sido um estado de coma em decorrência de uma encefalite que a
deixou desacordada por quatro dias. Quando já preparavam o funeral, seu pai se
negou a enterrá-la e ela despertou com delírios e uma paralisia que a impediu
de andar durante quatro anos. É possível que essa doença tenha deixado uma
pequena cicatriz no cérebro e tenha causado as "crises de
felicidade", que permaneceram por 12 anos.
Outros religiosos que podem ter
tido epilepsia são: Martin Lutero, o criador da reforma protestante, e a
francesa Joana D`Arc. Aos 43 anos Lutero começou a sentir crises de zumbido,
que soavam como uma catarata. Mas a sua doença pode ser explicada também como o
mal de Menieri, que causa problemas na região do labirinto e também pode
provocar vertigens. Já a heroína francesa, aos 13 anos viveu os primeiros
momentos de êxtase, vendo raios de luzes, ouvindo vozes de santos e visões de
anjos. Essas vozes incentivaram Joana D'Arc a guerrear contra a dominação
inglesa. As sensações aconteceram até a sua morte aos 19 anos, queimada por
heresia na fogueira da Inquisição.
Várias pesquisas são realizadas em
todo o mundo para encontrar uma explicação para os fenômenos religiosos
relacionados com o funcionamento do cérebro humano, com as suas redes neurais e
reações químicas. São experimentos que analisam o comportamento do cérebro
durante estados de meditação profunda, sob o efeito de substâncias psicoativas
e nas crises epilépticas. O cientista Andrew Newberg, da Universidade da
Pensilvânia, fez experimentos com budistas em meditação, aplicando contrastes
radioativos para analisar as imagens em um tomógrafo. Os resultados mostraram
uma redução na atividade da região do cérebro conhecida como lobo parietal, que
controla a orientação. Segundo o cientista, algumas experiências espirituais
podem ser explicadas, porque a pessoa perde ou diminui a fronteira entre ela
mesma e o mundo, entrando em comunhão com o Universo.

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