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Sunday, March 19, 2023

5 - Epilepsia e religiosidade

 


5 - Epilepsia e religiosidade

Glória Maria de Almeida Souza tedrus:  Pontíficia Universidade Católica de Campinas, centro de ciências da vida, Faculdade de Medicina. Av Jonh Boyd Dunlop, s/n, Prédio Administrativo, Jd. Ipaussurama, 3090-950 Campinas, SP, Brazil Correspondência para/ correspondence to G. M. A. S. TEDRUS. e-mail: gmtedrus@uol.com.br

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Resumo: As implicações da espiritualidade/religiosidade na saúde vêm sendo estudadas e documentadas cientificamente. A relação entre a epilepsia e espiritualidade/religiosidade esta presente na história da humanidade e também têm sido alvo de investigação em décadas rescentes. Este estudo utilizou base de dados e Lilacs e MedLine, a partir da busca com os descritores spirituality AND epilepsy, e com religious AND epilepsy, nos idiomas inglês espanhol e português em artigos publicados no periodo de 1.997 a 2.009. São apresentados nesta revisão, de forma sistemática, os achados dos estudos, distribuídos em 5 tópicos: aspáctos históricos da relação entre epilepsia e espiritualidade?religiosidade. Históricamente a epilepsia têm sido ligada a preconceitos relacionados a interpretações religiosas a cerca da gênese das crises epiléticas. Experiências religiosas ou hiper-Religiosidade têm sido descritas em cerca de 10¢ dos pacientes com epilepsia do lobo temporal. A base neural dessas experiências religiosas não está bem definida, mas estruturas dos lobos temporais parecem ter uma participação importante. Esta revisão mostra, na avaliação de pessoas com epilepsia, a importancia de uma perspectiva integrada, de cunho biopsicosocial, na qual aspectos religiosos podem ser relevantes.

Termos de indexação: Epilepsia. Espiritualidade. Religião.

INTRODUÇÃO:

       A epilepsia é uma condição neurológica crônica caracterisada por crises epiléticas ( CE ) recorrentes, causadas pela atividade neuronal excessiva no cérebro, usualmente autolimitada.

      Ela é a doença neurológica mais comum, acometendo aproximadamente 1% da população mundial. Têm diversas etiologias e prognósticos. Em países em desenvolvimento, pacientes com epilepsia encontram significativas barreiras étnicas, culturais, religiosas, educacionais e econômicas, para o seu adequado tratamento.

      Pacientes com epilepsia associam-se mais frequentemente do que o restante da população a comorbidades como perda da memória, depressão, disttúrbios psiquiátricos, ou ainda, desempenho psicosocial prejudicado e risco aumentado de morte.

       A semiologia da CE pode diferir dependendo do ocal, da extenção e da propagação da descarga epiletica no sistema nervoso central. 

      Na epilepsia do lobo temporal ( ELT ) a mais frequente forma focal do adulto, ocorrem manifestações psíquicas clínicas na CE em aproximadamente 25% dos casos podem ocorrer como manifestação ictal, medo, déjà vu, jamais vu, alucinação visual ou auditiva, despersonalização de realização, esdtado de sonho, sensação de prazer e felicidade, assim como experiências cognitivas e espirituais.

       Como a CV são eventos paroxísticos muitas vezes inexplicáveis para os pascientes e como, na ELT,  são caracterizadas por súbita intrusão de experiências extraordinárias, elas tendem a ser interpretadas culturalmente como "possessão" ou "ter-se tomado por espírito", com significado religioso.

ESPIRITUALIDADE/RELIGIOSIDADE E SAÚDE

      As implicações da espiritualidade na saúde na saúde vêm sendo estudadas e documentadas cientificamente Nas últimas décadas, cada vez mais, há estudos mostrando uma associação significativa entre a espiritualidade/religiosidade ( E/R ) e a saúde apontando que haveria um fator religioso na saúde e na doença POr outro lado, o conceito de saúde tem-se tornado mais complexo e, recentemente foi alterado a ser acrescentada a dimensão espiritual, em interação com fatores físicos, mentais e sociais

      A espiritualidade pode ser definida como um sistema de crenças que enfoca elementos intangíveis, que transmite vitalidade e significado aos eventos da vida.

      A espiritualidade e a religiosidade estão relacionadas, mas não são sinônimos Religiosidade envolve um sistema de culto e doutrina, que é compartilhado por um grupo, e portanto, tem características comportamentais sociais, doutrinárias e valores específicos A religião é definida como a crença na existência de um poder sobrenatural, criador e controlador do universo, e assim, atribui ao homem a natureza espiritual, que persiste após a morte do corpo Já a espiritualidade aborda questões à respeito do significado e do propósito da vida, e não se limita a alguns tipos de crenças ou práticas

      Alguns autores apontam o potencial benéfico da religião, na medida em que esta atuaria como um mediador de comportamentos, seja pelo incentivo e promoção de hábitos de vida mais saudáveis e menos expostos a riscos, seja pelo apoio social oferecido pelos grupos religiosos, seja ainda pela disponibilidade de um sistema de crenças que propicia sentido à vida e ao sofrimento, dentre outros fatores.

      Entretanto ainda estão sendo pesquizados os mecanismos biológicos específicos envolvidos na relação entre religião e saúde, assim como os efeitos positivos da espiritualidade/religiosidade sobre a saúde.

      O reconhecimento da relevância da discussão científica e da dimenção E/R, no comportamento e nas condições de saúde do ser humano, levou a associação psiquiátrica americana a realizar mudanças em sua apresentação da religião, incluindo no último Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders - DSM-IV uma nova categoria diagnóstica "problemas espirituais e religiosos" , no eixo 1, no item " Outras condições que podem ser um foco de atenção clínica" .

      Há um aumento crescente do interesse na neurologia, entretanto, a base biológica, particularmente a área cerebral específica responsável pela percepção religiosa, é ainda pouco conhecida.

      Todas as experiências humanas são mediadas no cérebro, incluindo a razão científica, a dedução matemática, o julgamento moral, a experiência e o comportamento religiosos, a emoção e o pensamento É inequívoco também cponsiderar a religião como parte do comportamento humano, com representação cerebral

      Neste sentido, alguns estudos questionam se as áreas cerebrais da cognição extariam envolvidas com a experiência religiosa e sugerem que algumas delas estariam envolvidas com a E/R e seriam responsáveis pela "percepção do divino" É sabido que o envolvimento em práticas ou experiências religiosas ou mesmo hiper-religiosidade são relativamente comuns em indivíduos com doenças que envolvem a região pré-frontal e dos lobos temporais, como a esquizofrenia, as desordens bipolares e algumas epilepsias do lobo temporal.

      Entretanto, são poucos pesquizadores que se dedicam a esse estudo O aprofundamento dos conhecimentos de neurociência na relação entre E/R e os aspectos clinicos das epilepsias, pode abrir caminhos e trazer novos subsídios ao estudo dos aspectos neurais da E/R Faz-se necessário que investigadores, de forma sistemática e ética, com metodologia epistemológica ampla o sulficiente para englobar todos os aspectos que o assunto requer, se envolvam na produção de conhecimento na interface E/R e epilepsia.

      Assim, este estudo realiza uma revisão de artigos sobre a relação entre E/R e epilepsia, publicados no periodo de 1997 a 2010.

MÉTODOS

      A revisão sistemática foi feita no banco bibliográfico MedLine, a partir da busca com os descritores spirituality AND epilepsy e religious AND epilepsy, nos idiomas inglês, espanhol e português, em estudos publicados no periodo de 1997 a 2010.

      Foram encontrados 55 artigos e, então excluidas as publicações não pertinentes ao foco do estudo, como as que abordam a relação entre espiritualidade e medicina alternativa/terapia complementar, e os estudos antropológicos acerca do tema. Complementarmente, foi feita uma revisão no sistema Lilacs, usando os mesmos termos, não sendo recuperados artigos a partir destes.

      Para contextualizar o tema do ponto de vista conceitual e de diagnóstico, foram também incluídos outros textos relacionados ao tema, mas que não apareceram na busca pelos descritores.

RESULTADOS

      Após a revisão da literatura e a seleção dos artigos, foram incluidas neste trabalho 26 publicações ( 9 trabalhos de revisão, comentário ou carta ao editor, e 15 trabalhos originais de aspectos clinicos e/ou neurofisiológicos, ou ainda históricos, sobre a relação entre epilepsia e E/R )

      De forma sistemática, os achados destes estudos foram subdivididos nos seguintes tópicos: 1) aspestos históricos da relação entre epilepsia e E/R,. 2) experiência religiosa ictal e pós-ictal na ELT, 3) hiper-religiosidade e ELT; 4) hiper-religiosidade, experiência religiosa, crise epilética e correlação anatomofisiopatológica; 5) qualidade de vida e E/R. 

Aspectos históricos da relação entre epilepsia e E/R

      A relação entre epilepsie e E/R esta presente na história da humanidade.

      A primeira descrição de CE aparece em um texto de 2000 anos a. C., sendo encontradas descrições posteriores em textos medievais, egípcios e balilônicos. Os antigos gregos descreveram a epilepsia como doença sagrada, cercada de supertição e misticismo, como uma visitação de Deus.

      A noção de gênese divina na CE somente foi descartada por Hipócrates, em torno de 400 a.C., no tratado intitulado The Sacred Disease que contribuiu para o esclarescimento e distinção entre religião, magia e ciência. Entretanto, o conceito de associação causal entre epilepsia e E/R persistiu nos dois milênios seguintes.

      No periodo medieval e na renascença, dominou a visão bíblica de que a CE estaria associada a situações místicas ou espirituais, como manifestação de uma condição sagrada ou demoníaca, punição divina ou ainda intervenção de forças sobrenaturais - morbus sacer. Em muitas culturas, alguns desses aspectos ainda persistem até hoje, dificultando o diagnóstico e o tratamento adequado à epilepsias.

      É sabido que, ao longo da história, apresentaram epilepsia muitos profetas e líderes religiosos, assim como grandes nomes das artes, da política e da ciência.

      É importante salientar que a epilepsia não é necessariamente um fator limitante para o indivíduo, podendo, ao contrário, ser uma fonte de inspiração de ações humanas, tanto que teve forte influência na história da cultura e da religião ocidentais.

      Cientificamente, a relação entre a epilepsia ( particularmente a ELT ) e religiosidade é reconhecida desde o início do século XIX, embora sejam poucas as informações disponíveis dessa época. O aumento da sensibilidade religiosa ( hiper-religiosidade ) a desabilidade, o isolamento social e a grande necessidade de consolo religioso de indivíduos com epilepsias internados em asilos, foram descritos por Esquirol e por Morel respectivamente em 1838 e em 1860.

      Já no início do século XX, alguns estudos sugeriram que os indivíduos com epilepsia desenvolviam o "fervor religioso" com característica interictal.

      Na década de 1970, houve um incremento das pesquizas científicas sobre relação entre religiosidade e ELT. Reconheceu-se ainda o papel do lobo temporal como responsável pelas experiências cognitivas/emocionais da religião, a partir do clássico trabalho de Dewhust & Beard sobre 6 pacientes com ELT.

      Hiper religiosidade hiposexualidade e hipergrafia foram características clínicas descritas na sindrome de Geschwind em 1975, e confirmadas em estudos posteriores. Entretanto alguns estudos sugerem que a hiper-religiosidade e a conversão religiosa podem ocorrer também em outros tipos de epilepsias.

      S base biológica da religiosidade ainda não está totalmente definida. O estudo das áreas responsáveis pela emoção, as áreas corticais límbicas ( o lobo límbico, o hipocampo e a amigdala ) trouxe contribuições para a interpretação de comportamentos ligados à E/R, presentes em pacientes com epilepsia particularmente na ELT.


Experiência religiosa ICTAL ou P´´OS-ICTAL  na ELT

      A investigação de experiencias religiosas relacionadas à epilepsia é marcada históricamente por contradições e conflitos.

      Recentemente em estudos funcionais de neuroimagem morfológica e funcional do sistema límbico, do hipocampo e da amigdala, foi possivem imputar à estas estruturas comportamentos emocionais, anteriormete descritos como sociais e psicológicos.

      O estudo da relação entre experiência religiosa e epilepsia, particularmete a ELT, tem contribuído para o esclarescimento de mecanismos neurobiológicos associados à alterações anatômicas e funcionais de estruturas límbicas.

      A experiência religiosa relacionada à epilepsia pode ser ictal aguda ou ainda interictal, e envolve mecanismos neurofisiológicos distintos. Entretanto, parece consenso que a maior parte das experiências religiosas ocorre no periodo pós-ictal imediato.

Experiência religiosa ictal

      Manifestação c´ritica e êxtase pode ser caracterizada pela presença de episódios paroxísticos e recorrentes de alteração da esfera afetiva, que pode ser sentimentos positivos de intenso prazer, alegria e contentamento e, por vezes de experiências cognitivas espirituais. Esse tipo de CE, classificada como focal psíquica, é raro e pode ser de difícil diagnóstico.

      A primeira descrição de crise caracterizada por experiência religiosa, "como aura religiosa ou sintomas premonitórios", foi de spratling ( 1904 ) que relatou em 3,9% dos pacientes com epilepsias.

      A descrição mais precisa e eloquente de experiência ictal religiosa foi a de Fyodor Dostoyevsky, em suas próprias CE, na obra literária the idiot, publicada em 1868. Essas manifestações ictais foram reconhecidas posteriormente como "epilepsia de Dostoyevsky"

      Aproximedamente 0,4% a 3,1% dos individuos religiosos que apresentam epilepsias focais, durante descarga neural, têm experiência ictal religiosa. A experiência religiosa ictal pode ser caracterizada por sensed presence, a percepção de uma extraordinária força, acompanhada de sensação religiosa ou mística, automatismo motor ( sinal de cruz ), repetição de frases religiosas e alucinação auditiva ou visual de conteúdo religioso.

      Entretanto é sabido que a interpretação do conteúdo como religioso depende de características culturais específicas do indivíduo e da localização/propagação da descarga ictal.

      Experiências místicas e religiosas podem ser evocadas por estimulação elétrica transitória ou microcrises epiléticas no córtex insular ou na região anteromesial do lobo temporal. Entretanto, ainda há controvérsia quanto a lateralidade hemisférica envolvida na atividade epileptogênica na CE com manifestação de experiência religiosa.

      Há também, descrição de manifestação ictal de conteúdo religioso/espiritual em pacientes sem interesse religioso específico.

      Em alguns pacientes com ELT, a experiência ictal religiosa esta associada con certa frequencia a uma tendencia a hiper-religiosidade interictal ou a conversão religiosa, ou ainda em aproximadamente 23% dos casos, a quadros de psicose pós ictal com sintomatologia de conteúdo religioso/espiritual.

EXPERIÊNCIA RELIGIOSA PÓS-ICTAL AGUDA OU INTERICTAL

      Do modo distinto da experiência religiosa que ocorre no periodo ictal e tem duração de segundos, aquela que ocorre no periodo pós ictal tende a ser prolongada, geralmente com duração de horas e dias e, assim, caracteriza-se como psicose pós ictal.

      Experiência religiosa intensa, súbita conversão ou ideação religiosa estão bem documentadas na literatura em pacientes com ELT, a maioria deles com hiper-religiosidade interictal.

      A psicose pós ictal, descrita por H. Jackson em 1931 como insanidade pós ictal, é causada por exaustão neuronal, provocada por aumento das descargas no subcórtex e sistema límbico do lobo temporal, e/ou mediada por neurotransmissores associados na maioria dos casos a foco ou disfunções nas regiões temporais de ambos os hemisférios. Entretanto, o mecanismo fisiopatológico e lateralidade hemisférica ainda não são discutidos.

      De modo distinto da experiência religiosa ictal e pós ictal, a religiosidade interictal é um status de convicção religiosa, um comportamento religioso. Embora a hiper-religiosidade não seja comun em pacientes com epilepsia, ela ocorre particularmente naqueles com ELT que referem experiencias religiosas no periodo interictal em 7,3% a 11,3% dos casos. Esse quadro acomente predominantemente os individuos com epilepsias de longa duração e dificil controle. Podendo compor a denominada psicose epilética.

      Para alguns individuos, por vezes, é difícil a distinção temporal precisa entre experiência religiosa premonitória, ictal, e pós ictal e interictal, o que sugere que possa haver entre essas situações clínicas uma mútua influência ou mecanismo fisiopatológico comun.

      Têm sido discutido a influência e o mecanismo da meditação trancendental na CE e na epilepsia. É sabido que, de modo complexo, a meditação pode exercer dois efeitos distintos no controle da CE. seja pela liberação de neurotransmissores e/ou diminuição do estresse, seja pelo efeito epileptogêncico ao desencadear um status epilepticus de novo.

      Durante meditação religiosa pode ser observado em estudos de neuroimagem funcional a ativação de regiões de lobos temporais.

HIPER-RELIGIOSIDADE E ELT

      A religiosidade de pacientes com epilepsia, pincipalmente com ELT, difere, no contexto da intensidade, daquela com individuos que frequentam regularmente igrejas. As características da hiper-religiosidade foram inicialmente descritas por W. James, em 1902, com a expressão acute fever, relativa ao seu caráter intenso agudo e envolvente.

      A hiper-religiosidade pode apresentar-se como um interesse aumentado, especial geralmente exagerado por assuntos religiosos, em que podem estar presentes misticismo, troca de religiões, experiências religiosas múltiplas, fanatismo religioso, idéias de paranormalidade ou ainda "interesses intelectuais novos", como preocupação com temas morais, filosóficos e cósmicos.

HIPER-RELIGIOSIDADE, EXPERIÊNCIA RELIGIOSA, CRISE EPILÉTICA E BASES NEURAIS.

      São raros os estudos de correlação anatomo-fisiológica do fenômeno espiritual. Com o avanço das neuro-ciências, foi possível a avaliação anatomica e funcional do tecido cerebral in vivo de regiões cerebrais, com exame de imagem neurofisiológicos, durante atividades cognitivas, dentre as quais a meditação, a leitura de textos religiosos e/ou bíblicos e outros eventos religiosos.

      É sabido que o hemisfério cerebral direito esta envolvido com aspectos da personalidade, sendo o lobo frontal primariamente responsável pelos valores religiosos, sociais e políticos dos individuoas.

      Entretanto tem sido discutido o papel de áreas frontais na E/R, pois há questionamento se o envolvimento desta região pode corresponder somente ao mecanismo de atenção ou a uma ativação simultânea de áreas cerebrais distintas, que pode ocorrer em processos cognitivos.

       O lobo temporal esquerdo ao contrário, parece ter papel importante na intensidade da experiência do fenômeno espiritual, pois alguns estudos descreveram o achado, no eletroencefalograma, de atividade epileptiforme nessa localização associado à experiência transcendental. No entanto outros estudos observaram a associação entre religiosidade e regiões temporais do hemisfério direito.

      Quanto a lateralidade hemisférica da E/R, os estudos não têm demonstrado claramente o envolvimento de um único hemisfério durante o comportamento religioso.

       Em pacientes com ELT refratária, foi descrita a associação entre menor volumetria do hipocampo do hemisfério cerebral direito e maior religiosidade, quando comparado grupo de pacientes não religiosos a outro com maior religiosidade.

       Alguns estudos com pacientes com ELT, que apresentam fenômenos religiosos ou experiências religiosas durante  a CE, sugerem o envolvimento do sistema limbico e foco do hemisfério cerebral direito. Em alguns pacientes com ELT podem ser observadas, com progressão da doença, alterações da personalidade caracterizada por aprofundamento da emotividade ou comportamento hiperético ( ou hiper-religioso ) voltado à questões espirituais. Tais alterações mostram-se associadas à mudanças neurofisiológicas de estruturas limbicas e a um aumento das conexões mesolímbicas e mesocorticais.

       O aumento da emotividade e o comportamento religioso exacerbado se devem ao acometimento do hemisfério esquerdo, ou ainda à assimetria inter-hemisférica das regiões temporais. De modo distinto, estudos mais recentes refutam os achados de relação entre aspectos psicopatológicos e lateralidade hemisférica ou diferenciação topográfica mesial ou não da lesão cerebral na ELT.

         São poucos os estudos de neurotransmissores na E/R. Em atividades religiosas como meditação, transe e experiência mística, há envolvimento da serotonina e da dopamina e evidência limitada de outros neurotransmissores. POr outro lado alguns estudos sugerem que individuos religiosos tendem a ter menor quantidade  de receptores de serotonina do que pessoas não religiosas.

       Entretanto, permanece indefinida a genese da intensa experiência religiosa associada a algumas doenças neurológicas, particularmente a  ELT, e a algumas doenças psiquiátricas. Alguns estudos sugerem que, nessas doenças, possa ocorrer aumento das sinapses excitatórias em detrimento das inibitórias, devido a potencialização ou ao rearranjo de conexões e descargas descargas neurais anômalas, o que poderia desencadear um incremento das significações afetivas, ou uma provável dissociação entre o estímulo e o valor afetivo da E/R.

QUALIDADE DE VIDA E E/R

       É sabido que aspectos clínicos da epilepsia como a frequência e o tipo da CE, têm grande impacto na qualidade de vida ( QV ) de pacientes com a doença. Por outro lado, ainda não esta totalmente esclarecido comoa complexa inter-relação de variaveis psicosociais e aspectos clinicos atuaria de modo negativo e com tão grande impacto na QV desses indivíduos.

      É sabido que pacientes com epilepsia podem apresentar prejuizo psíco-social. Assim como no diagnóstico e na atenção a esses pacientes deve ser enfatizado o controle efedivo das CE, mas também é fundamental uma abordagem multidisciplinar, que observe os aspectos psicosociais envolvidos. Alguns estudos sugerem que a E/R possa ser um elo entre saúde e doença, com substancial melhoria na QV desses pacientes.

CONCLUSÃO

      Apesar de a epilepsia ter tido alguma influencia na história da humanidade em aspectos culturaise religiosos, ainda persistem questionamentos acerca a interação entre epilepsia e religião, bem como acerca as evidências científicas que suportariam tal associação.

      Aspectos éticos e pessoais podem promover vieses na análise e interpretação de estudos envolvendo aspectos da E/R e saúde, e assim,  torna-se necessario que manis estudo na área da neurociência utilizem metodologias científicas na avaliação do tema. Em resumo, esta revisão enfatiza a importancia da visão integradas dos aspectos psicossociais associados aos biológicos quando se discute a relação entre epilepsia, sistema nervoso central e E/R.


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