OBSERVAÇÃO ENTREM NO LINK E OBSERVEM A POLITICA DE PRIVACIDADE NO ENTANTO O CONTEÚDO LIDO ATRAVÉZ DO BLOG ESTA TOTALMENTE MAIS COMPLETO, PORQUE FIZ DUAS NOTAS NO MEIO DO ARTIGO QUE SÃO DE SUMA IMPORTANCIA POIS ASSIM PEÇO QUE OS INTERESSADOS LEIAM ATRAVÉZ DO BLOG E NÃO DO LINK...
AVISO IMPORTANTE: NÃO PRATIQUEM XAMANISMO SEM A AUTORIZAÇÃO PRÉVIA DE SEUS PSIQUIÁTRAS POIS NA MAIORIA DAS VEZES AS SUBSTÂNCIAS UTILIZADAS NO XAMANISMO NÃO COMBINAM COM OS REMÉDIOS PSIQUIÁTRICOS É AUTO O RISCO ATÉ DE MORTE EM ALGUNS CASOS!!!
Os primeiros curadores da humanidade: abordagens
psicológicas e psiquiátricas sobre os xamãs e o xamanismo
https://www.scielo.br/j/rpc/a/STfDM8qzr5dm3bG5YTWfMhb/?lang=pt
Resumos
CONTEXTO: o autor descreve os xamãs como curadores que
deliberadamente modificam seu padrão fenomenológico de atenção, percepção,
cognição e consciência para obter informações não disponíveis ordinariamente
aos membros do grupo social que lhes concedeu status privilegiado. OBJETIVOS:
descrever como estas alterações fenomenológicas foram alcançadas e utilizadas.
MÉTODOS: foram utilizados estudos da literatura xamânica em arquivo e pesquisas
de campo em comunidades onde xamãs estão atuando ativamente. RESULTADOS: a
fonte das informações obtidas pelos xamãs é atribuída a forças e entidades
desencarnadas, como espíritos, ancestrais, guias animais e campos energéticos.
Essas fontes foram contatadas através de toques ritualizados de tambores,
danças, sonhos lúcidos, uso de plantas psicotrópicas, atenção focalizada e
outros recursos. Este estudo foi importante, pois mostrou que os xamãs utilizam
as informações obtidas para atender às necessidades sociais, psicológicas e
médicas de suas comunidades. CONCLUSÕES: o disseminado aparecimento dos xamãs,
especialmente em tribos caçadoras e coletoras, indica que suas presenças
possuem funções adaptativas em um grupo social. Além disso, estes dados podem
trazer importantes contribuições para a neurociência cognitiva, psicologia
social, psicoterapia e psicologia ecológica.
Xamãs; xamanismo; atenção à saúde; fenomenologia;
psicologia
BACKGROUND: the author describes shamans as
practitioners who deliberately shift their phenomenological pattern of
attention, perception, cognition, and awareness in order to obtain information
not ordinarily available to members of the social group that granted them
privileged status. OBJECTIVES: to describe how these phenomenological shifts
were accomplished and used. METHODS: archival studies of shamanic literature as
well as field research in communities where shamans are actively functioning.
RESULTS: the source of shaman-derived information is attributed to such
discarnate entities and forces as spirits, ancestors, animal guides, and
energetic fields. These agencies were contacted through ritualized drumming,
dancing, lucid dreaming, the use of psychotropic plants, focused attention, and
other technologies. This study was important because it determined that shamans
utilize the obtained information to attend to their community’s social,
psychological, and medical needs. CONCLUSIONS: the ubiquitous appearance of
shamans, especially in hunting and gathering tribes, indicates that their
presence in a social group served adaptive functions. Further, these data can
make important contributions to cognitive neuroscience, social psychology,
psychotherapy, and ecological psychology.
Shamans; shamanism; health care; phenomenology;
psychology
ARTIGO ORIGINAL
Os primeiros curadores da humanidade: abordagens
psicológicas e psiquiátricas sobre os xamãs e o xamanismo
Stanley Krippner
Professor of Psychology at Saybrook Graduate School,
Chair for the Study of Consciousness, San Francisco, California, EUA
Endereço para correspondência
RESUMO
CONTEXTO: o autor descreve os xamãs como curadores que
deliberadamente modificam seu padrão fenomenológico de atenção, percepção,
cognição e consciência para obter informações não disponíveis ordinariamente
aos membros do grupo social que lhes concedeu status privilegiado.
OBJETIVOS: descrever como estas alterações
fenomenológicas foram alcançadas e utilizadas.
MÉTODOS: foram utilizados estudos da literatura
xamânica em arquivo e pesquisas de campo em comunidades onde xamãs estão
atuando ativamente.
RESULTADOS: a fonte das informações obtidas pelos xamãs
é atribuída a forças e entidades desencarnadas, como espíritos, ancestrais,
guias animais e campos energéticos. Essas fontes foram contatadas através de
toques ritualizados de tambores, danças, sonhos lúcidos, uso de plantas
psicotrópicas, atenção focalizada e outros recursos. Este estudo foi
importante, pois mostrou que os xamãs utilizam as informações obtidas para
atender às necessidades sociais, psicológicas e médicas de suas comunidades.
CONCLUSÕES: o disseminado aparecimento dos xamãs,
especialmente em tribos caçadoras e coletoras, indica que suas presenças
possuem funções adaptativas em um grupo social. Além disso, estes dados podem
trazer importantes contribuições para a neurociência cognitiva, psicologia social,
psicoterapia e psicologia ecológica.
Palavras-chaves: Xamãs, xamanismo, atenção à saúde,
fenomenologia, psicologia.
O termo "xamã" é um construto social que
descreve uma pessoa que atende às necessidades psicológicas e espirituais de
uma comunidade. As técnicas que capacitam xamãs de ambos os sexos a terem
acesso a informações não ordinariamente acessíveis são conhecidas como
"xamanismo" (Krippner, 2000). Desenvolvimentos recentes em pesquisa
qualitativa, assim como o uso inovador dos métodos investigativos
convencionais, têm fornecido as ferramentas necessárias para trazer rigor e
criatividade na investigação dos xamãs, de seus comportamentos e experiências.
Roger Walsh analisou a fenomenologia xamânica, concluindo que ela é distinta
dos estados esquizofrênicos ( NOTA DE POMPEO M. B.... O ATIGO SE CONTRADIZ NESSE PONTO POIS DIZ QUE EXISTE UMA XAMÃ QUE RECEBEU UM QUADRO DE ESQUIZOFRENICA PELA PSIQUIATRIA, É AÍ QUE EU VOU PARA O CAPÍTULO 10 DESTE BLOG INTITULADO "LOUCURA BY MACKENA" QUE DIZ QUE OS ESQUIZOFRÊNICOS SÃO XAMÃS. ), budistas e iogues, em dimensões tão importantes
quanto como a consciência do meio ambiente, a concentração, o controle, o senso
de identidade, o estado de alerta, o afeto e as imagens mentais (Walsh, 2001).
Os xamãs foram os primeiros psicoterapeutas, primeiros médicos, primeiros
mágicos, primeiros artistas performáticos, primeiros contadores de histórias e
até mesmo os primeiros previsores do tempo da humanidade (Ryan, 1999). Eles têm
sido ativos, por um longo tempo, em tribos caçadoras-coletoras e pescadoras,
mas também são encontrados em sociedades nômades-pastoris, agrícolas e urbanas.
Papéis xamânicos
Qualquer sociedade pode ter um ou mais tipos de
praticantes xamânicos. O papel das mulheres, tão comumente negligenciado, como
xamãs no mundo todo, tem sido abordado em profundidade por Bárbara Tedlock
(Tedlock, 2005). Entre os Kung do sudoeste da África, a maioria dos homens e
uma minoria considerável de mulheres são praticantes mágico-religiosas (Katz,
1981). Um recente estudo transcultural do xamanismo focou praticantes
mágico-religiosos, indivíduos que ocupam uma função socialmente reconhecida, a
qual tem como base a interação com dimensões de existência não-ordinárias,
não-consensuais. Essa interação envolve o conhecimento especial de entidades
espirituais e como se relacionar com elas, assim como poderes especiais que
permitem, a estes praticantes, influenciar o curso da natureza ou questões
humanas de modos não ordinariamente possíveis. O antropólogo Michael Winkelman
codificou cada tipo de praticante separadamente em características, tais como
os tipos de atividades mágicas ou religiosas desempenhadas, as técnicas
empregadas, os procedimentos usados para alterar a consciência, as visões
mitológicas de mundo dos praticantes e suas características psicológicas, o
poder recebido, o status socioeconômico e o papel político. Suas análises
estatísticas forneceram uma divisão em quatro grupos: (1) "complexo
xamã", consistindo de xamãs, xamãs-curadores e curadores; (2) sacerdotes e
sacerdotisas; (3) adivinhos, videntes e médiuns; (4) praticantes malévolos,
incluindo bruxas e feiticeiros (Winkelman, 1992).
Os xamãs-curadores são especializados em práticas de
cura, enquanto os curadores tipicamente trabalham sem as dramáticas alterações
de consciência que caracterizam xamãs e xamãs-curadores. Adivinhos, assim como
videntes e médiuns, atuam na solicitação de um cliente para a cura ou para
fazer profecias depois de incorporar espíritos. Estes praticantes tipicamente
relatam que são canais para o poder dos espíritos e afirmam atuar
involuntariamente quando "possuídos" pelos espíritos. Por outro lado,
os xamãs freqüentemente interagem com os espíritos e algumas vezes os
"incorporam", mas permanecem no controle do processo, apenas
suspendendo temporariamente o controle voluntário das ações. Por exemplo, o
controle voluntário é abdicado durante algumas danças rituais de americanos
nativos, quando há intenso "transbordamento" psíquico. No entanto,
xamãs sabem como entrar nesse tipo de experiência intensa e sair dela.
Praticantes malévolos são vistos como tendo o controle sobre alguns
"espíritos inferiores", bem como tendo acesso ao poder através de
rituais. Tipicamente, eles não vêem sua missão como a melhora de toda uma
comunidade. Em vez disso, eles são empregados por indivíduos para prejudicar
seus inimigos (dentro ou fora da comunidade) ou para pedir favores dos
espíritos para indivíduos específicos, por meio de feitiçarias, bruxaria,
mágicas e sortilégios.
Os praticantes xamânicos contemporâneos existem em
diversos níveis de sociedade, tais como bandos, comunidades nômades-pastoris,
agrícolas e mesmo em sociedades com Estado constituído. Quanto mais complexa
uma sociedade, mais provável é a existência de representantes de todos os tipos
de praticantes xamânicos. Naturalmente, deve-se ter em mente que categorias
nunca são absolutas, que alguns praticantes são difíceis de se classificar e
que outros trocam de papéis de acordo com a ocasião (Heinze, 1988). Muitos
autores reservam o termo "xamânico" para se referir a praticantes e
atividades que claramente estão no domínio do xamã ou do xamã-curador. Os
mesmos escritores usam o termo "xamanístico" para se referir a
praticantes e práticas que estão relacionadas com o plano xamânico, mas que
são, basicamente, adaptações deste porque um ou mais critérios importantes que
o definem
aprovação da comunidade ou
controle voluntário
de alterações de atenção
estão ausentes.
Seleção e treinamento de xamãs
Xamãs são iniciados em sua profissão de vários modos:
alguns herdam o papel enquanto outros podem exibir sinais corporais, tais como
um dedo extranumerário, albinismo ou uma marca de nascimento incomum; ações
incomuns, como convulsões ou outros padrões de comportamento culturalmente
associados com o sexo oposto ou experiências estranhas, como sensações de estar
"fora do corpo" e sonhos vívidos e lúcidos. Dependendo da cultura,
quaisquer dessas experiências podem constituir um chamado ao xamanismo
(Krippner e Villoldo, 1986). Além disso, os futuros xamãs podem sobreviver a
uma doença quase fatal e interpretar esse fenômeno como um chamado. Os
espíritos podem avisá-los em seus sonhos ou em devaneios diurnos (Heinze,
1991). Esses "chamados" podem vir em qualquer idade, dependendo da
tradição da sociedade; em alguns casos tais chamados ocorrem tarde na vida,
oferecendo oportunidades aos indivíduos que possuem méritos para continuar seu
serviço à comunidade utilizando suas experiências de vida. Por outro lado,
comportamentos estranhos podem ser interpretados pela comunidade como um
chamado, canalizando, desse modo, ações potencialmente perturbadoras em
comportamentos padrões que são percebidos como benéficos.
Em algumas sociedades, não há um programa de
treinamento formal, enquanto noutras o processo de treinamento pode durar
muitos anos. Os mentores podem ser xamãs mais velhos, ou mesmo, entidades
espirituais, incluindo seus ancestrais, espíritos da natureza e animais de
poder, os quais podem dar instruções nos sonhos do neófito. As habilidades a
serem aprendidas variam de sociedade para sociedade, mas geralmente incluem
diagnóstico e tratamento de doenças, contatos com espíritos, coordenação de rituais,
interpretação de sonhos, previsão do tempo, trabalhos com ervas, profecia e
domínio da auto-regulação das funções corporais e dos estados de atenção. Desde
que o xamanismo é baseado numa ética de compaixão e serviço, o treinamento
ético é um elemento-chave na educação de um xamã.
Freqüentemente, o xamã precisa contatar espíritos para
vários propósitos. Se eles estão insatisfeitos, precisam ser acalmados. Se uma
pessoa morre sem deixar um testamento, o espírito da pessoa precisa ser
contatado para determinar a divisão de bens. Se um espírito ancestral está
causando problema, ele precisa ser apaziguado. Performance mágica de um tipo ou
de outro é aprendida, incluindo prestidigitação, se aproveitar de eventos
sincrônicos ou da utilização do que os ocidentais chamam de "fenômenos
parapsicológicos", incluindo percepção extra-sensorial e psicocinese. Na
maioria das sociedades xamânicas, uma variedade de símbolos, cantos, danças,
canções, poemas épicos e histórias deve ser aprendida e utilizada quando apropriado.
Algumas tribos organizam uma comemoração especial, quando o iniciante ou a
iniciante ultrapassa a principal fase de seu treinamento.
Em muitos casos, uma sociedade reconhece diversos tipos
de xamãs. Entre os esquimós-ouros, apenas o xamã siurku sabe curar, o xamã
nyemanti faz rituais especiais para a alma de uma pessoa falecida e o xamã
kasati ajuda os xamãs-curadores a conduzir a alma do falecido ao mundo
espiritual (Kalweit, 1988). Entre os cuna do Panamá, o xamã abisua cura por
intermédio do canto, o inaduledi especializa-se em curas com ervas e o nele
concentra-se no diagnóstico (Krippner, 1993). Seria errôneo pensar que os xamãs
representam um único conjunto de traços ou que há uma única "personalidade
xamânica". Xamãs são homens e mulheres de grande talento, que dominam um
complexo vocabulário e um tesouro de sabedoria a respeito de ervas, rituais,
procedimentos de cura e o mundo dos espíritos de suas culturas.
Estados alterados de consciência
Os primeiros exploradores e etnógrafos russos sugeriram
que os primeiros xamãs eram simples curadores da natureza. Porém, durante a
última fase feudal da evolução social, eles teriam inventado os espíritos e,
com isso, necessitaram desenvolver os estados alterados de consciência (EAC) a
fim de contatar e se comunicar com esses espíritos (Hoppál, 1984). Mais
recentemente, Érika Bourguignon pesquisou 488 sociedades e descobriu que 89%
delas tinham um ou mais EACs culturalmente adaptados. Ela concluiu que a
capacidade de experienciar EACs era uma capacidade psicobiológica básica de
todos os seres humanos (Bourguignon, 1974). Recentemente tem sido sugerido que
a "consciência ampliada" pode ser, na realidade, uma descrição mais
acurada do que um "estado alterado" porque as intensas experiências
xamânicas do mundo natural são descritas com frases como "muitas vezes as
coisas parecem resplandecer" (Berman, 2000). A maioria dos estudiosos,
contudo, ainda favorece a idéia de que EACs são básicos para o xamanismo,
especialmente a "incorporação espiritual" e a "viagem
astral". Essa conclusão foi recentemente reforçada pelo arqueólogo
britânico Stephen Mithen, que sugeriu que a fluidez cognitiva que criou a
explosão cultural das eras Paleolítica Média e Superior também trouxe o
desenvolvimento de EACs (Mithen, 1996). Winkelman concorda, sugerindo que os
dados psiconeurológicos indicam que as tradições xamânicas institucionalizaram
procedimentos para superar a fragmentação natural da consciência ao sincronizar
a cognição humana pela indução de processos cerebrais integrativos (Winkelman,
2000a).
Com o objetivo de determinar os pontos em comum entre
os vários EACs xamânicos, Larry Peters e Douglas Price-Williams compararam 42
sociedades de quatro áreas culturais diferentes. Eles identificaram três
elementos comuns: controle voluntário do início e da duração dos EACs; memória
da experiência depois do EAC; e a habilidade de se comunicar com os outros
durante o EAC (Peters e Price-Williams, 1980). Ruth-Inge Heinze assinalou que a
diferença básica entre xamãs e médiuns parece ser que "os xamãs são
capazes de embarcar em um vôo mágico e se manterem os atores durante suas
performances. Por outro lado, os médiuns são possuídos pelos espíritos que
utilizam os corpos humanos através dos quais eles são capazes de atuar" (Heinze,
1982). Além disso, os xamãs, tipicamente, viajam no mundo espiritual com mais
freqüência que os outros praticantes. Eles podem viajar da "terra
média" para o "mundo superior" para visitar espíritos
ancestrais, para o "mundo inferior" para visitar animais de poder e
viajar ao passado, ao futuro e a áreas remotas do globo. Os espíritos
encontrados em cada um desses planos diferem de sociedade para sociedade, mas a
jornada xamânica é tipicamente ligada à habilidade de entrar em EACs.
O termo mais freqüentemente utilizado para denotar a
natureza voluntária da personificação do espírito é "incorporação".
Essa pode ou não estar acompanhada por amnésia para a experiência, dependendo
do praticante e do treinamento cultural dele ou dela. Na "possessão",
no entanto, o indivíduo geralmente incorpora o espírito de uma maneira
involuntária ou imprevisível e, normalmente, há amnésia para a experiência. A
noção de possessão espiritual representa um problema para os psicólogos porque
é uma explicação implícita, bem como uma descrição. Vincent Crapanzano a define
como "qualquer estado alterado de consciência que seja interpretado pelos
nativos em termos da influência de um espírito externo" (Crapanzano,
1977). T. K. Oesterreich define possessão de maneira mais comportamental,
observando que a pessoa possuída parece estar invadida por uma personalidade
diferente que se manifesta por meio de mudanças na fisionomia, personalidade,
voz ou funções motoras. Ele diferencia formas xamânicas de "possessão
voluntária" ou incorporação e a "possessão involuntária" de
vítimas de bruxarias ou de espíritos malévolos (Oesterreich, 1966). Ecos dessas
práticas podem ser encontrados em igrejas pentecostais onde membros da
congregação "falam em línguas", nas igrejas evangélicas e
carismáticas, cujos membros afirmam estarem "cheios do Espírito
Santo" e em algumas igrejas protestantes nos Estados Unidos, com
predominância de membros afro-americanos quando estes, espontaneamente, gritam,
recitam cânticos e dançam durante uma roda na qual hinos são cantados.
Peter e Price-Williams descobriram que xamãs em 18 de
42 sociedades pesquisadas por eles estavam envolvidos com incorporação
espiritual, 10 em experiências fora do corpo, 11 em ambos e três em diferentes
formas de EACs (Peters e Price-Williams, 1980). Num estudo posterior, eles
compararam EACs com um rito de passagem no qual um episódio de pânico ou medo
transformou-se em insights, resultando em uma nova integração de vários
elementos da personalidade da pessoa (Peters e Price-Williams, 1983). A
pesquisa transcultural de Winkelman de 47 sociedades colheu dados demonstrando
que ao menos um praticante em cada população apresentou indução a um EAC
associado com o treino de papéis. Os procedimentos específicos de indução
incluíam substâncias que alteram a mente, como álcool, opiáceos, psicodélicos,
estimulantes e tabaco, estimulação auditiva mediante o bater de tambores ou de
matracas; exposição a temperaturas extremas; abstinência sexual; isolamento
social; indução ou privação do sono; restrições alimentares; convulsões
induzidas ( NOTA DE POMPEO M. B. DESTE MODO LEITORES ACABAMOS DE COMPROVAR QUE EXISTE CONVULSÃO INDUZIDA E ESQUIZOFRENIA NO XAMANISMO ENTÃO É POR ESTES DOIS FATOS QUE EU DECIDI COMOCAR ESTE TRABALHO CIENTIFICO NO BLOG, NO ENTANTO EU FALO NO XAMÃN NATURAL NÓS QUE TOMAMOS REMÉDIOS PSIQUIÁTRICOS E NÃO TEMOS NECESSIDADE DE TOMAR SUBSTÃNCIAS ENTEÓGENAS COMO AYAHUASCA OU SIMILARES OU ATÉ RAPÉ DA JUREMA ETC... PORQUE JÁ TOMAMOS NOSSOS REMÉDIOS PSIQUIÁTRICOS ); comportamento motor excessivo e relaxamento extremo. Enquanto a sua
análise indica alguns padrões distintos de incorporação e vôos mágicos, ele
encontrou casos de profundos EACs que não envolviam nenhuma dessas
características. A sua apresentação do modelo psicofisiológico unificado de EAC
é que este é "um estado parassimpático dominante, caracterizado pela
dominância do córtex frontal por descargas de ondas lentas originadas do
sistema límbico" (Winkelman, 1992), interagindo com diversas variáveis
sociais.
Há formas adicionais nas quais os xamãs são capazes de
alterar suas consciências: pelo entoar de encantamentos dos xamãs de Taiwan;
pulando, como nas 16 a 24 horas de cerimônia kut dos xamãs coreanos; por
imagens mentais, tais como as práticas de visualização dos xamãs tamang no
Nepal que vêem seus espíritos mentores antes de incorporá-los. Freqüentemente,
xamãs utilizam dois ou mais procedimentos simultaneamente para alterar a
consciência. Os xamãs coreanos combinam bater de tambores com pulos; os xamãs
Arapaho fumam um cachimbo cerimonial e esfregam seus corpos com salvia, em
combinação com os tambores. Foi demonstrado que o bater de tambores pode
produzir ativação cerebral por coincidir com a freqüência theta EEG, ou seja,
em torno de quatro a oito ciclos por segundo, através de indução auditiva
(Neher, 1961). Pesquisas mais recentes têm relatado que as ondas cerebrais
theta são sincronizadas com batidas monótonas de tambor de três a seis ciclos
por segundo, um ritmo associado com muitos temas de rituais xamânicos
(Maxfield, 1994). Melhora em estados de humor positivos e aumento da resposta
imune positiva, como a medida pela concentração de imunoglobulina salivar A
(IgA-S), também têm sido relatados durante o tocar de tambores xamânicos
(Harner e Tyron, 1996). A batida de tambor rítmica também tem um efeito salutar
sobre o sistema imune dos membros de grupos, como foi mensurado pelo aumento da
atividade das células natural killer (Pappas e Ninehouser, 2001).
Curas xamânicas
As funções curadoras dos xamãs são o foco primário de
seu repertório. Mente e corpo são vistos como uma unidade e por isso não há
divisão rígida entre doenças físicas ou mentais. Dor e outros sintomas são
vistos como fontes de informação que podem ser utilizadas no diagnóstico, da
mesma forma que os sonhos do cliente, sua aura, campos de energia e eventos
incomuns da vida. A manipulação simbólica desempenha um papel fundamental,
junto com o tambor que serve de veículo com o qual o xamã se dirige ao mundo
dos espíritos. O soprar de fumaça nas quatro direções representa um apelo aos
guardiões dos quatro cantos do universo. Para o xamã e suas comunidades, já que
qualquer produto da imaginação humana representa uma forma de realidade, a imagem
mental e a imaginação desempenham papel importante na cura (Achtenberg, 1985).
Procedimentos específicos de cura variam amplamente, mas freqüentemente incluem
dietas, exercício, ervas, relaxamento, imaginação mental, orações, purificações
e rituais diversos (Krippner e Villoldo, 1986). Os tratamentos dependem dos
diagnósticos e das tradições culturais. Se um membro da comunidade parece estar
sofrendo de "perda da alma", um xamã vai procurar pela alma do
cliente, restituindo-a antes que a pessoa sucumba a uma condição terminal. O
diagnóstico determina se a alma foi roubada ou extraviada do corpo. O
tratamento é dirigido para a recuperação da alma por intermédio do
"apanha-almas" (soul-catching) ou de um procedimento semelhante.
Cada sociedade xamânica tem sua própria nosologia
diagnóstica. Alguns agentes causais que resultam adoecimentos são a quebra de
tabu, carma de ações passadas, a intrusão de um objeto estranho no corpo e o
mal-olhado. Nos últimos anos, muitos xamãs têm adicionado, ao seu esquema etiológico,
a teoria do germe na doença, referindo alguns de seus clientes a médicos
alopatas. A cura xamânica, geralmente, envolve a família do cliente e a
comunidade. Rituais de transformação são os elos essenciais na introdução de
uma comunidade de cura sinérgica. Por propiciarem experiências de cunho
transpessoal, esses rituais capacitam os indivíduos a realizarem suas
responsabilidades comunitárias e a sentirem suas profundas interconectividades.
Mesmo quando um cliente precisa ser isolado como parte do processo de cura,
esse procedimento drástico impressiona a comunidade com a gravidade da doença.
Em relação às práticas de cura, xamãs, psicólogos e
psiquiatras demonstram mais similaridades do que diferenças. Há métodos
xamânicos que se assemelham muito às contemporâneas terapia comportamental,
hipnoterapia, terapias familiar e comunitária, farmacoterapia, psicodrama e
interpretação dos sonhos. Como resultado dessas similaridades, o estudo
psicológico do xamanismo tem algo importante para oferecer à neurociência
cognitiva, à psicologia social, à psicoterapia e à psicologia ecológica.
Neurociência cognitiva
Os psicólogos têm proposto que a atenção, a memória e a
consciência são os três maiores componentes do construto consciencial. Como a
atenção envolve, ao mesmo tempo, os processos neurais e as operações mentais,
as práticas xamânicas proporcionam aos neurocientistas cognitivos uma
oportunidade excepcional de estudar os fundamentos neurológicos de uma
tecnologia que mantém a consciência, amplia a percepção e facilita a lembrança,
enquanto a atenção do adepto se move entre os focos interno e externo
(Farthing, 1992).
O campo da neurociência cognitiva estuda os processos
neurais que subjazem os mecanismos, potenciais e limitações das operações
mentais. Pesquisadores têm utilizado a estimulação elétrica para produzir
experiências unitivas em voluntários e têm desenvolvido a hipótese de que o
tálamo e o lobo temporal sejam as estruturas-chaves associadas a esses efeitos
(Persinger, 1993). Pesquisadores em neuroteologia têm usado as técnicas de
imagem cerebral para estudar a contemplação espiritual, observando que a oração
e a meditação desencadeiam uma mudança na atividade cerebral que está associada
com as tais experiências unitivas como a sensação da "presença de
Deus" e "sentir-se um com o Universo" (Newberget al., 2001).
As redes neurais podem ter um papel importante no
estabelecimento de conexões entre os processos cognitivos do organismo e seu
entendimento do mundo natural (Hardy, 1998). Algumas tarefas, tais como a caça
e a navegação, são uma única atividade cognitiva que é distribuída entre vários
indivíduos (Hutchins, 1995). Tais perspectivas teóricas se assemelham aos
pressupostos dos americanos nativos de que todos os seres vivos são
relacionados, um conceito que é dividido pelos xamãs de todo o mundo. Essa
noção pode proporcionar à psicologia cognitiva modelos apropriados de teia e
rede para a arquitetura do sistema nervoso, já que ela se baseia menos em
inteligência artificial e em metáforas sobre computadores (Hubbard, 2002). As
metáforas de teia e rede não apenas são ressonantes com as visões xamânicas de
mundo, mas também refletem a natureza multidimensional da cognição humana.
Esses insights, por sua vez, poderiam ser aplicados ao estudo neurocientífico
cognitivo da natureza onipresente dos construtos xamânicos. Pesquisas
neurológicas em combinação com as investigações dos relatos verbais xamânicos
podem trazer pistas, tais como se as bases para esses construtos seriam inatas
(hardwired) e podem também contribuir para um entendimento mais profundo da
evolução humana, cultural e pessoal (Winkelman, 2000b).
Psicologia social
O estudo das atitudes e comportamentos individuais em
locais onde outras pessoas estejam presentes (ou sejam imaginadas) é chamado de
psicologia social. Esse campo examina indivíduos inseridos no contexto das
estruturas sociais. A visão xamânica de mundo tradicional define os indivíduos
em termos de seus clãs e sistemas de parentesco e oferece um esquema que é bem
apropriado para o estudo dos psicólogos sociais. O ser humano é um animal
incrivelmente social. Ao contrário de outros animais, os humanos não são nem
fortes, nem rápidos. Sua sobrevivência, assim, depende de uma abstrata solução
de problemas e da formação de grupos. Há, provavelmente, uma base genética para
a formação grupal, já que ela tem sido altamente adaptativa na evolução humana;
mesmo assim, o mundo social modula a expressão do gene. O xamanismo é uma
adaptação cultural a potenciais adaptativos de base biológica, especialmente
aqueles que fomentam hipnotizabilidade que coincide com as experiências
anômalas e espirituais. Com base nessas experiências, os xamãs desenvolveram
rituais que promovem coesão intragrupal, fertilidade e resultados terapêuticos
(McClenon, 1997).
A modelação social envolve a apresentação clara dos
comportamentos a serem aprendidos em um programa de treinamento, como aqueles
oferecidos pelos praticantes mágico-religiosos (Sprafkin, 1994). Um interesse
na função da modelação social em dissociação não-patológica recentemente
motivou pesquisadores brasileiros a testarem médiuns em São Paulo. Eles
relataram que a atividade mediúnica, bem como "o controle das experiências
dissociativas relacionadas à religião", estava associada com altos escores
em testes de dissociação, apesar dos escores positivos nos testes de
socialização e de adaptação. Eles também "encontraram evidências de
modelação social de experiências dissociativas religiosas não-patológicas para
uma população com extenso treinamento mediúnico formal", mas não
"para modelação social como uma causa para a dissociação patológica"
(Negro et al., 2002).
Desde que Aristóteles registrou suas impressões de
argumentação em retórica, os humanos têm tentado refinar os princípios da
influência social, o estudo da persuasão, influência e obediência. Em qualquer
grupo social, as pessoas gastam uma quantidade considerável de tempo
convencendo, exortando e até manipulando uns aos outros para atingir suas
metas. Credibilidade é essencial para a persuasão e praticantes dignos de
crédito exibem um grau de competência em suas áreas, sendo comumente vistos
como sábios (Winkler e Krippner, 1994). Após estudar profissionais de saúde,
tanto ocidentais quanto indígenas, E. Fuller Torrey concluiu que a natureza de
um tratamento efetivo reflete um ou mais de quatro princípios fundamentais: uma
visão de mundo compartilhada entre o profissional e o cliente, qualidades
pessoais do profissional, expectativas positivas do cliente e procedimentos que
promovam um senso de controle da parte do cliente. Influência social e
persuasão transparecem de cada um desses princípios. Muito da efetividade dos
xamãs se apóia no fato de que seus conceitos de doença são os mesmos dos de
seus clientes. Além do mais, os xamãs promovem uma imagem positiva de si mesmos
e de seus poderes, a fim de impressionar seus clientes. O apelo emocional e a
evocação da fé, esperança e confiança aumentam as expectativas dos clientes.
Processos grupais podem implementar um senso de controle; xamãs do oeste da
África podem convidar meia dúzia de clientes para irem às suas casas, gastando
tempo considerável com cada um deles, a cada dia. A rede de efeito desses e de
outros procedimentos sociais serve para munir o cliente com estratégias de
enfrentamento de problemas na vida.
O antropólogo Marvin Opler descreveu a forma pela qual
xamãs Apaches, estudados por ele, maximizaram suas reputações como praticantes
eficazes por meio da seleção de clientes receptivos e da rejeição dos céticos,
bem como daqueles em condições aparentemente incuráveis. Eles exigiram
pagamentos adiantados, trazendo pressão adicional para seus clientes ficarem
bons e, para assegurarem também o suporte familiar ao tratamento, explicaram às
famílias como eles alcançaram o status xamânico. Os xamãs recrutaram a ajuda da
comunidade no ritual de cura, o que mais tarde motivou o cliente a se recuperar
(Opler, 1936). Esse apelo à comunidade do cliente granjeia suporte social ou
recursos do ambiente social que podem ser benéficos para a saúde psicológica e
física do cliente. Pesquisas em psicologia indicaram que as pessoas que recebem
apoio social de sua rede comunitária, particularmente se ela vem de pessoas
significativas, tendem a ter menos problemas psicológicos do que aquelas que
não recebem apoio, mas há menos evidência no que diz respeito à saúde física
(Lepore, 1994). Comunidades indígenas são um excelente campo de pesquisa nesse
tópico porque o apoio social é um esteio da intervenção xamânica.
Terapias psicológicas e psiquiátricas
As terapias psicológicas e psiquiátricas são tentativas
deliberadas de modificar atitudes, comportamentos e experiências que clientes e
seus grupos sociais julgam serem disfuncionais, que inibem os relacionamentos
interpessoais, causam prejuízos funcionais ou bloqueiam a concretização dos
talentos e das capacidades dos clientes. Práticas de cura xamânicas tentam
modificar atitudes, comportamentos e experiências disfuncionais por intermédio
de uma série estruturada de contatos entre um praticante sancionado socialmente
e clientes em sofrimento, mas que reconhecem o status do praticante.
Relacionamentos falidos, atuações imperfeitas e desenvolvimentos pessoais
defeituosos são problemas comuns à condição humana. Quando indivíduos em
sofrimento decidem que nem seus próprios recursos nem o de seus familiares e
amigos são suficientes para aliviar suas aflições, geralmente eles buscam a
assistência dos praticantes culturalmente aceitos, tais como xamãs. Contudo, o
que é considerado disfuncional em uma cultura por exemplo, ver fantasmas, ouvir vozes quando ninguém
está presente, envolver-se em comportamento competitivo pode não ser considerado problemático em uma outra cultura. Problemas
que são disseminados em uma parte do mundo como possessão demoníaca, sofrer de mal-olhado e anorexia nervosa podem ser virtualmente
desconhecidos em outros locais. Mitos culturais que uma sociedade classifica
como válidos adoecimentos como resultado de quebra de tabus, espíritos malévolos como o fator principal na causa
de acidentes, práticas
imperfeitas na criação dos filhos como um dado que contribui para o
desenvolvimento de problemas emocionais
podem ser considerados pensamento mágico
ou superstição
em uma outra.
Como nações desenvolvidas têm se tornado
multiculturais, os psicólogos e psiquiatras ocidentais precisam estar mais bem
informados no que diz respeito aos sistemas de crenças que podem acompanhar
seus clientes na sessão de aconselhamento. A "competência cultural" é
um conceito relativamente novo para muitos profissionais de saúde. Ela se desenvolveu
a partir de uma longa tradição do oferecimento de serviços a pessoas de uma
ampla variedade de contextos étnicos e culturais (Torrey, 1986). A quarta
edição do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais da Associação
Psiquiátrica Americana (DSM-IV) buscou aprimorar sua validade universal, não
apenas com uma breve menção dos "transtornos de transe dissociativo",
mas também com uma categoria suplementar de "problemas religiosos ou
espirituais" e um glossário de "síndromes relacionadas à
cultura" (American Psychiatric Association, 1994). Esse aspecto do DSM-IV
é "o principal desenvolvimento clínico na atual cultura da psiquiatria na
América do Norte", mesmo que alguns tenham julgado a tentativa global como
não tendo sido bem-sucedida (Lewis-Fernandez e Kleinman, 1995). Por exemplo,
xamãs Hopi identificam cinco categorias indígenas diferentes relativas à
"depressão", e apenas uma delas divide parâmetros significativos com
as categorias de "transtornos depressivos" do DSM-IV. Além disso, as
categorias do DSM-IV raramente são contextualizadas. Em 1996, este autor ouviu
de uma mulher americana nativa de 70 anos que ela havia sido diagnosticada
esquizofrênica porque tinha respondido afirmativamente quando o psiquiatra
perguntou se ela ouvia vozes quando estava sozinha. O psiquiatra não havia
perguntado se isso era um aspecto de sua cultura, já que era uma curadora
americana nativa, cujo estilo de vida envolvia ouvir mensagens da terra ou por
meio de sinais enviados por um poder superior. Essa mulher foi hospitalizada
como resultado desse diagnóstico e permaneceu no hospital até que suas vozes
interiores lhe disseram o que ela deveria fazer para obter alta (Breasure,
1996). Não devemos nos surpreender que "médiuns" e "channelers"
profissionais nas sociedades ocidentais freqüentemente disfarcem ou ocultem
suas atividades por medo de que o grande público possa tachá-los como doentes
mentais.
Finalmente, os procedimentos de cura xamânicos
proporcionam um desafio para os psicólogos na escolha dos resultados a serem
medidos em ensaios clínicos. Pode-se perguntar se os resultados devem ser
definidos em termos xamânicos (resgate bem-sucedido de uma alma ou a
recuperação do fluxo da energia chi de uma pessoa) ou em termos ocidentais
(cessação de sintomas ou a retomada do padrão de trabalho diário). Ou se os
resultados deveriam ser baseados no padrão de recuperação valorizado pelo
indivíduo, pela família ou pela comunidade inteira. Ou mais, deveriam os
aspectos ritualísticos do tratamento (entoação de cantos e pinturas de areia)
ser separados do possível impacto dos métodos interpretativos (compartilhar os
sonhos e a leitura de conchas)? Uma outra questão é se o uso de medicamentos à
base de ervas e drogas psicotrópicas (como ayuasca e peyote) deveria ser separado?
Arthur Kleinman deparou-se com essas questões enquanto conduzia um estudo para
avaliar os resultados obtidos por um curador xamã tang-ki de Taiwan (Kleinman,
1980). Charles Leon enfrentou questões similares ao longo de seus sete anos de
estudo sobre possessão espiritual na Colômbia (Leon, 1975). Um outro fator de
confusão é que, enquanto muitos sistemas de cura xamânicos não diferenciam
entre transtornos físicos e mentais, eles podem fazer essa diferenciação em
termos de idade, gênero ou posição social (Roszak, 1992).
Psicologia ecológica
A ecopsicologia ou psicologia ecológica busca
compreender os processos comportamentais e experienciais quando estes ocorrem
dentro dos limites de sistemas ambientais animais os sistemas do meio
ambiente. Ela tem foco na percepção, ação, cognição, aprendizagem,
desenvolvimento e evolução em todas as espécies. Ecopsicólogos se posicionam de
forma a ver o ser humano como uma parte integral de um sistema maior e que a
saúde deste sistema requer relacionamentos sustentáveis e mutuamente
apoiadores, não apenas entre suas partes, mas também entre as partes e o todo.
O funcionamento saudável precisa incluir a consciência de sua
interconectividade e interdependência, uma compreensão que tem sido uma parte
essencial das tradições xamânicas por, pelo menos, 30 mil anos. Existem muitas
variantes desse campo, mas todas elas criticam o que eles vêem como a tendência
da ênfase psicológica na separação do indivíduo de outras pessoas e do meio
ambiente natural. Para ser saudável psicologicamente, a pessoa deve reconhecer
que o planeta está em perigo e fazer esforços autênticos para salvá-lo.
Escrevendo com base em uma perspectiva ecopsicológica, Ralph Metzner propôs que
"curar o planeta" é basicamente uma jornada xamânica; sendo assim, o
estudo psicológico do xamanismo pode exercer uma função vital nessa empreitada
(Metzner, 1999). Talvez o protótipo do xamã poderia servir como o "modelo
de pessoa responsável" a exibir o "comportamento ambientalmente
responsável" (Kaplan, 2000).
Theodore Roszak tem postulado um inconsciente
ecológico, representando o "elemento selvagem" em seres humanos que
crescerá para encontrar as necessidades ambientais desses tempos. Ele diz que,
como nosso senso de "continuidade ética e psicológica com o mundo não
humano se aprofunda, temos a chance de recapturar (...) alguns traços de nossa
sensibilidade ancestral". Os modelos xamânicos têm um papel importante em
evocar essa sensibilidade e a cura xamânica "está envolta em um lugar e em
uma história, nos ritmos climáticos, nos contornos de uma paisagem onde os
pássaros e as bestas têm sido íntimos companheiros durante séculos"
(Roszak, 1992). Xamãs foram os primeiros grupo-terapeutas e seus grupos
incluíam espíritos de animais e de ancestrais.
Conclusão
Os pesquisadores concluíram que, mesmo após 500 anos de
relatos sobre xamanismo, sua essência permanece um mistério. "Uma coisa
que tem mudado (...), contudo, é o olhar atento dos observadores. Ele tem se
aberto. E o entendimento está começando a florescer" (Narby e Huxley,
2001). Enquanto o neoxamanismo está se tornando ainda mais popular no Ocidente,
o xamanismo tradicional indígena está cada vez mais ameaçado. É crucial
aprender o que o xamanismo tem a oferecer para as ciências sociais e
comportamentais antes que os arquivos de pesquisa em bibliotecas substituam a
pesquisa de campo como o melhor método disponível para investigar esses
psicólogos prototípicos.
Agradecimentos
Ao Saybrook Graduate School Chair for the Study of
Consciousness, São Francisco, Califórnia, EUA, que apoiou a preparação deste
artigo.
Endereço para correspondência:
Stanley Krippner
Saybrook Graduate School and Research Center
747 Front st., 3rd floor
San Francisco, California 94111, EUA
E-mail:
scott@ideapyramid.com
Tradução: Letícia Alminhana
American Psychiatric Association - Diagnostic and
statistical manual of mental disorders. Fourth edition. Washington, DC: Author,
1994.
Achtenberg, J. - Imagery in healing: Shamanism and
modern medicine Boston: Shambhala, 1985.
Bourguignon, E. - Culture and the varieties of
consciousness. Boston: Addison-Wesley, 1974.
Berman, M - Wandering god: A study in nomadic
spirituality Albany: State University of New York Press, p. 30, 2000.
Breasure, J. - The mind, body and soul connection.
Counseling Today, March, p. 5, 1996.
Crapanzano, V. - Introduction. In: Crapanzano V.,
Garrison V. (eds.). Case studies in spirit possession New York: John Wiley
& Sons, p. 7, 1977.
Farthing, G.W. - The psychology of consciousness
Englewood Cliffs, NJ: Prentice-Hall, 1992.
Hardy, C. - Networks of meaning Westport, CT: Praeger,
1998.
Harner, S.; Tyron W. - Psychological and immunological
responses to shamanic journeying with drumming. Shaman 4: 89-97, 1996.
Heinze, R.I. - Shamans or mediums: Toward a definition
of different states of consciousness. Phoenix: Journal of Transpersonal
Anthropology 6: 25-44, 1982.
Heinze, R.I. - Trance and healing in Southeast Asia
today Bangkok: White Lotus, 1988.
Heinze, R.I. - Shamans of the 20th century New York:
Irvington Publishers, pp. 146-156, 1991.
Hoppál, M. - Shamanism in Eurasia Göttingen, Germany:
Edition Herodot, 1984.
Hubbard, T. - Cognitive science and shamanism I: Webs
of life and neural nets. Shamanism 15: 4-10, 2002.
Hutchins, E. - Cognition in the wild Cambridge: MIT
Press, 1995.
Kalweit, H. - Dreamtime and inner space: The world of
the shaman Boston: Shambhala, p. 139, 1988.
Kaplan, S. - Human nature and environmentally
responsible behavior. Journal of Social Issues 58: 491-508, 2000.
Katz, R. - Education as transformation: Becoming a
healer among the Kung and Fijians. Harvard Educational Review 51: 57-78, 1981.
Kleinman, A. - Patients and healers in the context of
culture: An exploration of the borderland between anthropology, medicine, and
psychiatry. Berkeley: University of California Press, 1980.
Krippner, S. - Villoldo A. The realms of healing Third
edition. Berkeley: Celestial Arts, 1986.
Krippner, S. - Cross-cultural perspectives on
hypnotic-like procedures used by native healing practitioners. In Rhue JW. Lynn
SJ. Kirsch I. (eds.). Handbook of clinical hypnosis Washington, DC: American
Psychological Association, pp. 691-717, 1993.
Krippner, S. - The epistemology and technologies of
shamanic states of consciousness. Journal of Consciousness Studies 7: 93-118,
2000.
Leon, C.A. - El duende and other incubi. Archives of
General Psychiatry 3: 155-162, 1975.
Lepore, S.J. - Social support. In: Ramachandran VS.
Encyclopedia of human behavior San Diego: Academic Press, p. 251, 1994.
Lewis-Fernandez R.; Kleinman, N. - Cultural psychiatry:
Theoretical, clinical, and research issues. Cultural Psychiatry 18: 439, 1995.
Maxfield, M.C. The journey of the drum. ReVision 16:
148-156, 1994.
McClenon, J. - Shamanic healing, human evolution and the
origin of religion. Journal for the Scientific Study of Religion 36: 345-354,
1997.
Metzner, R. - Green psychology: Transforming our
relationship with the earth. Rochester, VT: Park Street Press, p. 165, 1999.
Mithen, S. - The prehistory of the mind: The cognitive
origins of art, religion and science London: Thames & Hudson, 1996.
Narby, J.; Huxley, F. - Shamans through time: 500 years
on the path to knowledge New York: Tarcher, p. 8, 2001.
Negro, P.J. Jr.; Palladino-Negro, P.; Louza, M.R. - Do
religious mediumship dissociative experiences conform to the sociocognitive
theory of dissociation? Journal of Trauma and Dissociation 3: 51-73, 2002.
Neher, A. - Auditory driving observed with scalp
electrodes in normal subjects. Electroencephalography and Neuropsychology 13:
449-451, 1961.
Newberg, A.; DAquili, E.; Rause, V. - Why God wont go
away: Brain science and the biology of belief New York: Ballantine, pp.
115-116, 2001.
Noll, R. - Mental imagery cultivation as a cultural
phenomenon: The role of visions in shamanism. Current Anthropology 26: 443-461,
1985.
Oesterreich, T.K. - Possession: Demonical and other
among primitive races, in antiquity, the middle ages, and modern times. New
York: University Books, 1966.
Opler, M.E. - Some points of comparison and contrast
between the treatment of functional disorders by Apache shamans and modern
psychiatric practice. American Journal of Psychiatry 92: 1371-1387, 1936
Pappas, J.; Ninehouser, M. - Composite effects on group
drumming music therapy on modulation of neuroendocrine-immune parameters in
normal subjects. Alternative Therapies 7: 38-47, 2001.
Persinger, M.A. - Vectorial cerebral hemisphericity as
differential sources for the sensed presence, mystical experiences and
religious conversions. Perceptual and Motor Skills 76: 915-930, 1993.
Peters, L.G.; Price-Williams, D. - Towards an
experiential analysis of shamanism. American Ethnologist 7: 397-415, 1980.
Peters, L.G.; Price-Williams, D. - A phenomenological
overview of trance. Transcultural Psychiatric Research Review 29: 5-39, 1983.
Roszak, T. - The voice of the earth. New York: Simon
& Schuster, 1992.
Ryan, R.E. - The strong eye of shamanism: A journey
into the caves of consciousness. Rochester, VT: Inner Traditions, p. 34, 1999.
Sprafkin, R.P. - Social skills training. In: Corsini
R.J. Encyclopedia of psychology. Second edition. New York: Wiley-Interscience,
pp. 442-444, 1994.
Tedlock, B. - The woman in the shamans body: Reclaiming
the feminine in religion and medicine. New York: Bantam, 2005.
Torrey, E.F. - Witchdoctors and psychiatrists: The
common roots of psychotherapy and its future. San Francisco: Harper Collins, p.
39, 1986.
Walsh, R. - Shamanic experiences: A developmental
analysis. Journal of Humanistic Psychology 41: 31-52, 2001.
Winkler, M.; Krippner, S. - Persuasion. In:
Ramachandran VS. Encyclopedia of human behavior San Diego, CA: Academic Press,
p. 482, 1994.
Winkelman, M. - Shamans, priests and witches: A
cross-cultural study of magico-religious practitioners. Tempe: University of
Arizona Press, p. 198, 1992.
Winkelman, M. - Shamanism: A neural ecology of
consciousness and healing London: Bergin & Garvey, pp. 102-107, 2000a.
Winkelman, M. - Shamanism: A neural ecology of
consciousness and healing London: Bergin & Garvey, pp. 5-27, 2000b.
Endereço para correspondência: Stanley Krippner
Saybrook Graduate School and Research Center 747 Front st., 3rd floor San
Francisco, California 94111, EUA E-mail: scott@ideapyramid.com
Datas de Publicação
Publicação nesta
coleção
16 Out 2007 Data
do Fascículo
2007
Creative Common - by-nc 4.0 This work is licensed under
a Creative Commons Attribution-NonCommercial 4.0 International License.
Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo
Rua Ovídio Pires de Campos, 785 , 05403-010 São Paulo
SP Brasil, Tel./Fax: +55 11 2661-8011 - São Paulo - SP - Brazil
E-mail: archives@usp.br Acompanhe os números deste
periódico no seu leitor de RSS

No comments:
Post a Comment