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Wednesday, May 10, 2023

34 - Bruno de Melo Silva Borges

 


Visionários possuem ideias, não são por elas possuídos

 

A história de um rapaz desaparecido no Acre lembra muito um conto de Machado de Assis.

Por Daniel Martins de Barros

05/04/2017 | 00h48

Os transtornos mentais sempre foram um tema caro para Machado de Assis. Como outros artistas geniais, ele usava os distúrbios psiquiátricos como uma lupa: os exageros e as deficiências nada mais eram do que maneiras de melhor entender a natureza humana, objeto final de sua investigação.

No pouco conhecido conto A ideia do Ezequiel Maia, publicado em 1883, Machado descreve um homem que, apesar de muito inteligente, aos poucos é tomado por uma espécie de obsessão que acaba dominando sua vida. "Era inteligente e lido; formara-se em matemáticas, e os professores desta ciência diziam que ele a conhecia como gente". No entanto, sempre fora dado a devaneios, fantasias, que lentamente foram ganhando força. Não houve um surto repentino, mas uma progressão contínua: "parece também que ele não tocou de um salto o fundo do abismo, mas escorregando, indo de uma restauração da cabala para outra da astrologia, da astrologia à quiromancia, da quiromancia à charada, da charada ao espiritismo, do espiritismo ao niilismo idealista", completa o autor.

 

Ciente disso ou não, Machado descreve um quadro clínico que só muito tempo depois seria formalizado como diagnóstico, o transtorno de personalidade esquizotípica. Tal transtorno na maioria das vezes começa no início da vida adulta, mas pode já dar sintomas na adolescência. Estes se dividem em três grandes grupos: 1) cognição-percepção - marcado por distorções cognitivas ou perceptivas, ilusões, crenças excêntricas e pensamento mágico; 2) interpessoais - ausência de amigos próximos, ansiedade social; 3) desorganização-excentricidade - pensamento estranho, fala peculiar, comportamentos excêntricos. Simplificadamente, trata-se de uma forma branda de esquizofrenia, em que o contato com a realidade fica frouxo, mas não se perde totalmente. Machado é tão preciso em sua descrição que inclui detalhes sutis do diagnóstico, como os grandes tratados elaborados por esses pacientes. Suas ideias mirabolantes não raras vezes os motivam a escrever longos textos, que para eles irão mudar o mundo. "Escreveu sobre este assunto uma extensa memória, em que provou a todas as luzes que a primeira ideia do homem foi o círculo(...)".

 

Lembrei desse conto ao ler a notícia sobre um rapaz desaparecido em Rio Branco, no Acre. Segundo os pais ele sempre fora diferente, tinha como amigos apenas os mendigos e outros excluídos. Na adolescência passou a achar que tinha estudado pouco, e começou a ler de forma exagerada. Então, com cerca de 20 anos, começou um grande projeto, que mantinha em segredo, mas que iria "mudar a humanidade de uma forma boa", segundo disse para a mãe. Começou a escrever livros, tentando patentear uma teoria que tinha criado. Até que há cerca de um mês os pais viajaram e ele se trancou no quarto durante três semanas, desaparecendo em seguida. Quando o cômodo foi aberto, continha 14 livros em código, as paredes cobertas de textos enigmáticos, além de um quadro retratando o rapaz sendo tocado por um alienígena e uma estátua do filósofo Giordano Bruno.

Claro que não se pode dar um diagnóstico à distância, ainda mais com informações tão incompletas. Talvez o rapaz seja mesmo um visionário - de acordo com seu pai, o psicólogo que o acompanhava disse que ele era "uma pessoa normal com uma grande ideia". Mas fico receoso, pois é a grandeza que muitas vezes atrapalha. Como no caso de Ezequiel Maia, o problema não está em ter ideias grandiosas. A doença surge quando, de tão grandes que são, as pessoas perdem o controle sobre as ideias e passam a ser por eles controladas.

 

***

 

Leitura da mente

Sobre essa relação entre literatura e psiquiatria, peço licença para indicar hoje um livro em que sou co-autor com o Professor Táki Cordás. Fico à vontade para elogiar porque os textos não são todos meus, mas de vários profissionais da saúde mental que aceitaram o desafio de analisar clássicos da literatura universal à luz da psiquiatria, psicologia, psicanálise e até das neurociências. Com isso vemos como arte e ciência podem se unir para o melhor entendimento da natureza humana. Embora não seja um lançamento, Personagens ou Pacientes ( título do livro ) - Clássicos da Literatura Mundial para Refletir sobre a Natureza Humana (editora Artmed,2014), deve se manter atual enquanto os clássicos também forem.

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O quarto está intacto: as mensagens criptografadas no chão, nas paredes e no teto, a estátua em tamanho real do filósofo italiano Giordano Bruno (1548-1600), todas as imagens que viralizaram em 2017. Dois anos depois do desfecho da estranha história ocorrida, a casa de Bruno de Melo Silva Borges, que ficou conhecido como Menino do Acre, está aberta para visitação pública. E ele mesmo ciceroneia os interessados em conhecer sua obra.

 

"(Meu quarto) é uma obra de arte. Eu trabalhei durante anos dentro daquele quarto, várias vezes me isolei ali para criar. Fiz muitos jejuns e retiros ali dentro", afirma ele à BBC News Brasil. "É difícil não sentir uma energia ao entrar dentro dele."

 

Estudante de psicologia da instituição privada Centro Universitário Uninorte, Borges deve se formar no fim de 2019. Ele tem 27 anos.

 

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Desde então, o quarto não é mais utilizado como dormitório. "Atualmente é restrito à obra de arte", enfatiza, negando-se a responder se continua morando na mesma residência, com os pais, ou se mudou de casa depois do episódio. "O quarto dele continua como está, aberto a visitação, e afirmo que é incrível, com toda a paz de espírito que se encontra naquele local", completa o pai do estudante, Athos Borges, empresário do ramo de eventos em Rio Branco. "Uma verdadeira obra-prima."

 O sumiço

De 27 de março a 11 de agosto de 2017, Bruno de Melo Silva Borges ficou desaparecido. Seu quarto com mensagens cifradas ganhou o noticiário nacional e nem investigadores policiais descobriram seu paradeiro. Um inquérito chegou a ser aberto pela Polícia Civil do Acre mas, com o reaparecimento do estudante, o delegado que cuidava do caso decidiu encerrá-lo – alegando que houve "comprovação de ausência voluntária".

Quarto com mensagens cifradas ganhou o noticiário nacional e nem investigadores policiais descobriram onde estava Bruno Borges

 Até hoje Borges se nega a contar onde esteve e o que fez no período. Ele conta que ficou completamente "isolado da sociedade, sem contato com quaisquer outras pessoas" – e que se preparou durante cinco anos para a experiência. "Levei alguns suprimentos para garantir minha sobrevivência", comenta. Também diz ter carregado "alguns livros de filosofia e cabala". "Ao longo dos dias eu lia, refletia e meditava o tempo todo a respeito da vida, do universo, da psiquê e dos seus mistérios. Meu objetivo era apenas um: autoconhecimento", explica.

O ex-ermitão conta que passou "muito frio" e ficou "muito fraco fisicamente" no período. "Porém, a maior dificuldade que encontrei foi em encarar meus medos, angústias, dúvidas e uma série de coisas que passei a vida escondendo de mim mesmo", relata. "Acredito que a busca pela verdade sobre a vida é algo extremamente raro entre os indivíduos justamente porque ninguém quer lidar com o fato de que sua vida inteira foi uma grande ilusão correndo atrás do vento. Acreditem nisso: nós não nos conhecemos, não sabemos nada a respeito de nós mesmos, e esta é uma cruz que só carrega quem se permite enxergá-la."

 O ex-ermitão conta que passou "muito frio" e ficou "muito fraco fisicamente" no período fora de casa

 O pai Athos Borges recorda-se que foram momentos difíceis para a família. "Só posso dizer que sofremos muito, não só pelo sumiço dele, mas também pela maldade do povo, que crucificou a nós e a ele sem saber o que de fato estava acontecendo... Muita maldade", diz. "Mas estamos fortes e de cabeça erguida hoje, pelas pessoas que entenderam e nos deram forças... Isso vindo de todos os cantos do mundo."

 

O empresário valoriza o trabalho realizado pelo estudante. "Interpreto a obra do meu filho como uma arte que deveria ser conhecida por todos, tamanho o volume de informação e da espiritualidade do Bruno", avalia. "Graças a Deus, [Deus] o colocou em nossas vidas."

 

Parede do quarto de Bruno, com desenho e mensagens cifradas

"Interpreto a obra do meu filho como uma arte que deveria ser conhecida por todos", diz pai de Bruno Borges

 Ao ser perguntado sobre o percurso realizado dois anos atrás, Bruno Borges entende que sair de casa foi como "sair da zona de conforto" e "abrir mão das regalias com as quais estamos acostumados". Ele compara seu feito às opções históricas de muitos "monges, profetas e sábios".

 "Isso é necessário, a meu ver, por vários motivos, como pelo fato do ego só sobreviver em convívio social: quando estamos isolados as máscaras que vestimos para cumprirmos este ou aquele papel na sociedade se tornam desnecessárias, e o que ocorre em seguida é um colapso do ego, seu 'eu', que foi construído durante anos de existência, deixa de ter uma sustentação e some aos poucos, e se antes você se enxergava com uma individualidade separada de tudo ao redor, você passa a se ver unido com toda a natureza", explica o estudante de psicologia. "Inclusive, o contato com a natureza ajuda a compreender suas leis, para assim se compreender o criador. Como eu queria ir a fundo nessa busca, conclui que a melhor decisão era sair do meu lar."

 Na época do desaparecimento, diversas hipóteses surgiram convergindo para o fato de que tudo não passaria de um golpe de marketing

 Na época do desaparecimento, diversas hipóteses surgiram convergindo para o fato de que tudo poderia ser um golpe de marketing – para o livro lançado por Borges na época. Ele diz que isso, para ele, foi um "efeito secundário", "mas primário para a sociedade": chamar a atenção de todos "para as obras escritas no meu quarto e, consequentemente para a mensagem delas".

 "Eu queria isso, porque pensar sobre o sentido da vida é algo positivo e essencial para o ser humano. E algumas obras que escrevi tratam exatamente disto", acredita. "Eu queria ser uma pessoa que incentiva todos a filosofarem – e também dar o exemplo, abandonando todos os meus valores e regalias em busca de sabedoria. Tentei quebrar um paradigma da sociedade, despertar as pessoas, pois estamos adormecidos."

 O livro

Publicado no fim de junho de 2017, portanto no meio do retiro voluntário de Borges, o livro TAC: Teoria da Absorção do Conhecimento saiu com tiragem de 20 mil exemplares e chegou a figurar entre os mais vendidos em um levantamento do site especializado PublishNews.

 

Mas foi um fracasso de crítica. Em seus escritos, o autor defendia a necessidade de dormir pouco, não comer carne e abster-se de relações sexuais – em um percurso necessário para se transformar em um gênio. Além das ideias esdrúxulas, o texto saiu repleto de erros gramaticais e interpretações heterodoxas de obras filosóficas do cânone ocidental.

 Parede do quarto de Bruno, com desenho e mensagens cifradas

Em seus escritos, o autor defendia a necessidade de dormir pouco, não comer carne e abster-se de relações sexuais

 "Acontece o seguinte: o livro foi publicado enquanto eu estava isolado. Todos sabemos que as obras estavam codificadas. Houve dificuldades na decodificação, o que fez com que o livro fosse publicado com imagens e palavras trocadas de lugar, sem sentido algum, e o português totalmente errado foi uma das consequências", justifica-se Borges.

 "As pessoas não entenderam o livro, assim como eu também não entendi, porque estava diferente do original. Ninguém tem culpa nisso, o livro chegou nas mãos da editora praticamente ilegível, ela fez o máximo para passar ao público a obra como deveria ser no original. Ainda assim, a intenção por trás do livro é clara: trata-se de um estudo para aprimorar a obtenção de conhecimentos e direcioná-los para algo produtivo, contribuindo para o coletivo."

 

O estudante afirma que da tiragem total foram vendidos cerca de 2 mil exemplares. Para o pai, Athos, tratava-se apenas "do primeiro projeto", "da ponta de uma grande obra que virá por aí", conforme disse à reportagem.

 

Em seguida, Borges decidiu disponibilizar todos os demais de forma on-line e gratuita, em seu site. Autodenominando-se "o alquimista do Acre", ele já disponibilizou para download sete dos 12 livros que afirma ter prontos.

 

Repercussão

O acreano acredita que as pessoas que não o interpretam corretamente não conhecem a sua história e não compreendem que ele passou "por uma experiência espiritual aos 20 anos de idade". "Depois dessa experiência de renascimento, eu recebi uma missão, e por ter fé nisso tive certeza de que teria uma grande repercussão. Eu prefiro trabalhar com certezas em meus projetos", argumenta ele. "Meu objetivo era espalhar uma mensagem para todos, e uma vez que fiquei cinco anos praticamente sem vida social, passando semanas dormindo muito pouco e produzindo bastante, tudo para despertar algo no coletivo. Eu tive certeza de que faria algo que quebraria um paradigma da sociedade. Orava todos os dias pedindo para Deus que me guiasse em minha missão, tive muita fé e aprendi muito com tudo isso."

 

Quando voltou de seu isolamento e tomou conhecimento de toda a repercussão, diz ele que avaliou tudo como "grande em quantidade, porém sem qualidade". "A mídia não se preocupou em averiguar a minha versão da história, e se precipitou considerando de imediato que eu era um interesseiro e farsante que queria apenas dinheiro, bem como as pessoas também me julgaram de forma totalmente equivocada", diz.

 

"Quando voltei de um isolamento de cinco meses, eu já estava sendo julgado por toda a sociedade. Como eu avalio isso? Bom, quando você quebra um paradigma na sociedade, a grande maioria das pessoas se sentem ameaçadas, afinal, todo o sistema de crenças que elas construíram desde tenra idade é questionado. Somado a isso, a mídia nunca deu prioridade para assuntos metafísicos, pois se a imprensa começar a tratar destes assuntos, ela vai à falência, visto que a grande maioria da população passa a vida fugindo do grande ponto de interrogação: 'quem eu sou?'."

 Borges insiste no discurso que fez todas as duas ações "por uma missão"

 Durante a conversa, Borges o tempo todo insiste que fez isso "por uma missão". "Deixei para trás uma vida de conforto, pessoas que amo, e todos os valores que construí, passei fome e frio, tive que lidar com os demônios de minha mente, com o medo da morte, tudo para ficar rico com livros de filosofia?", provoca o jovem. "A verdade é que neguei a fama e o dinheiro. Ao retornar para a cidade, recebi mais de 100 propostas para comparecer em redes televisionadas e canais do Youtube. Também me ofereceram muito dinheiro para fazer propagandas. Eu não preciso de nada disso, minha maior riqueza é ter saúde e Deus no coração, só preciso disso e de mais nada."

 Atualmente, ele concilia a faculdade com seus estudos interiores, meditação e reflexões. Também recebe aqueles que querem conhecer o seu quarto – ou melhor, a sua obra. "Para visitar, basta entrar em contato comigo e marcamos um dia que seja bom para ambos. Não é preciso pagar nada", conta o estudante, que faz os agendamentos por e-mail. "Em geral, uma vez por mês eu recebo visitas, a maioria de pessoas de fora [do País]. Já veio gente da Itália, inclusive."

 

Borges afirma que aproveita tais oportunidades para explicar "a verdadeira história por trás de tudo o que aconteceu". "Minha porta está aberta para qualquer um que queira trocar conhecimentos e experiências", garante.


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Livro do menino do Acre: quais os ensinamentos de Bruno Borges em 'TAC: Teoria da Absorção do Conhecimento'?

Jovem desapareceu em março e deixou manuscritos que começaram a ser publicados. Obra chegou ao ranking das mais vendidas do Brasil; G1 lista 10 'lições' do 1º volume.

Por Cauê Muraro, G1

 

08/08/2017 10h46  Atualizado há 5 anos

 

Capa do livro 'TAC: Teoria da Absorção do Conhecimento', de Bruno Borges, o 'menino do Acre' — Foto: Divulgação

Capa do livro 'TAC: Teoria da Absorção do Conhecimento', de Bruno Borges, o 'menino do Acre' — Foto: Divulgação

 

 

Ele tem aversão a sexo, gula e crase. Faz zero questão de parecer modesto (cita a si mesmo, inclusive). Gosta de usar termos associados a quem escreve difícil ("não obstante", "antemão", "entrementes", "outrossim", "amiúde"), mas não liga se a frase sai do nada e chega a lugar nenhum. Fiel ao "espírito do tempo", arrisca até uma mesóclise eventual. Humor? Só do tipo involuntário, e vamos encerrar a discussão a esse respeito recorrendo ao trecho em que ele define o verbete "ciência" – começa assim: "De acordo com a Wikipédia...".

 

Assinado por Bruno "o menino do Acre" Borges, o livro "TAC: Teoria da Absorção do Conhecimento" (Arte e Vida) tem 191 páginas nas quais o autor (desaparecido desde março) faz grande esforço para explicar sua criação. A obra, que saiu no final de junho, acaba de entrar no ranking das mais vendidas do país.

 

 

Faz quatro meses que Borges está desaparecido. Antes de sair da casa onde morava, em Rio Branco, o rapaz deixou 14 livros escritos à mão e criptografados (ou seja, usando um código com símbolos no lugar de letras, para cifrar a mensagem). Parte do material estava registrada nas paredes, no teto e no chão do quarto. A polícia trabalha com a hipótese de que o sumiço é, na verdade, marketing para promover a obra.

 

Livro de Bruno Borges está na lista dos mais vendidos

Pelo que se vê neste volume inicial, houve alguma dificuldade na hora de "traduzir" o texto para a língua portuguesa. Exemplos: "tão pouco" no lugar de "tampouco"; "a" no lugar de "há"; e “atoa” no lugar de “à toa”.

 

Mas a ambição do autor está mais no conteúdo do que na forma. Quer compartilhar conosco suas técnicas – ele chama de "porta para a inteligência" e "totalmente original". Como o conceito de conhecimento é mesmo bastante vasto, vale recorrer a Platão, Aristóteles e Augusto Cury, todos mencionados pelo nome.

 

Com evento fechado, família lança livro no Acre

Já no começo, Borges avisa não estar "com a tentativa de fazer ciência, até porque nem cientista eu sou". "Eu apenas quero mostrar, (...) essa é uma teoria pela qual eu coloquei em prática durante anos suas funcionalidades e pude perceber que dava certo, uma vez que foi dela que saiu tantas ideias totalmente originais partidas de mim mesmo”.

 Após 4 horas de leitura, os 10 'conhecimentos' que o G1 absorveu de 'TAC':

1. Mire-se no exemplo dos 'sábios' (cadê 'aquelas mulheres'?)

 

Bruno Borges não gosta de deixar dúvidas: escreve que o título de "TAC" é formado pelas iniciais de "Teoria da Absorção do Conhecimento" – só para o caso de algum leitor menos perspicaz e impossivelmente distraído não ter notado, nunca se sabe. Mas o que ele propõe, afinal?

 

Em síntese, temos de absorver e acumular conhecimento. E que façamos isso a partir de pessoas (só homens, nada de mulheres na lista) que ele chama de "sábios".

 

E que, com esse conhecimento, criemos algo novo. E que deixemos esse algo novo às gerações futuras. Há até uma fórmula, ela é assim: AB1 + CAB = ABT. Traduzindo: AB1 significa Absorção de Conhecimento Novo; CAB significa Conjunto de Conhecimento Absorvido; e ABT significa Absorção Total.

 

2. Sexo? Não, obrigado

 

O que têm em comum Leonardo da Vinci, Jesus Cristo, Platão, Waldo Vieira, Chico Xavier, Heráclito de Éfeso, Isaac Newton, Nikola Tesla e Michael Jackson? Para Bruno Borges, o fato de serem "sábios assexuados". A qualificação é do próprio autor e é usada em sentido positivo.

 

O lance é que fazer sexo toma tempo – e um tempo precioso, que poderia ser aplicado precisamente na busca pelo conhecimento. Escreve ele: "Embora muitos não saibam, o tempo que perdemos pelas nossas impulsividades sexuais, impedindo-nos de absorver conhecimentos úteis a fim de criar coisas novas, é imenso. Ora, mas uma relação íntima por vezes não dura 30 minutos? Certo, mas aí é que entra o fator comportamento, em outras palavras, o fim justifica o meio".

 

E tem ainda um efeito colateral evidente: o bebê que resulta da reprodução – outra coisa que consome horas.

 

O negócio é o seguinte: quem faz sexo tem três preocupações – sobreviver, reproduzir e absorver conhecimentos; quem não faz sexo tem só duas preocupações – sobreviver e absorver conhecimento, segundo a teoria de Bruno Borges.

 

"Ele não necessitará dispor de uma quantia exorbitante do seu tempo para cuidar dos seus filhos, pois nem mesmo filhos terá." Sagaz.

 

3. Não cometerás o pecado da gula (nem da carne)

 

Michael Jackson, Leonardo da Vinci, Albert Einstein, Abraham Lincoln, Aristóteles, Darwin, Isaac Newton, Pitágoras, Platão, Sócrates, Thomas Edison, Voltaire, Gandhi, Buda, Van Gogh e Nikola Tesla... Todos "sábios vegetarianos/veganos/crudívoros" na definição do autor de “TAC”. Ah, mas e daí?

 

Daí que essa gente toda "evitaria de comer coisas que são fonte de prazer para muitos, e que é o maior responsável pelo vício, pela gula na comida: o apreço pela carne e seus derivados temperados, fazendo com que os assexuados veganos aumentem ainda sua taxa de absorção de conhecimento”.

 

Também chama de "idiotice" a teoria de que "a carne ou comida queimada foi à [crase do texto original] geradora de uma inteligência mais protuberante do homem".

Sim, o próprio Bruno Borges assegura que tem "uma alimentação e dieta totalmente frugívera". E acha certo fazer longos períodos de jejum absoluto, pois isso ajudaria na tarefa de ficar pensando melhor.

 

4. Sem anabolizantes nem ‘santa erva’

 

Bruno Borges é contra o uso de anabolizantes, maconha (que ele chama de "santa erva", naquele que talvez seja o único exemplo de ironia de toda a obra), remédios para déficit de atenção e cirurgias estéticas.

 

E ele consegue esclarecer isso num único parágrafo do livro, utilizando-se de um fluxo de pensamento e livre associação que são típicos de seu método.

 

A coisa é realmente inflamada, veja você mesmo: "(...) fumar a santa erva diariamente, impossibilitando de estudar ou trabalhar com rigor, pela dispersão do foco, o ajuda, em algures verão o absurdo de alguns obesos não conseguirem emagrecer, alegando que é predisposição ou problemas na tireóide, mas na verdade só não conseguem refrear a gula, e por isso pagam para um doutor pegar uma faca e cortar sua banha (...)".

 

5. Seja rebelde, mas com disciplina e durma pouco

 

Bruno Borges não só defende que adeptos da TAC sejam radicais como orgulha-se da invenção de um neologismo: "Nós, radicalistas e adeptos do radicalismo, determinamos que só se pode ser um membro da radicalidade (sim, este termo também criamos)".

 

O autor recomenda fortemente o "sono polifásico" (modalidade em que o sujeito não dorme as 8 horas regulamentares, mas sim tira cochilos breves), que seria praticado por vários de seus "sábios do coração", como Jesus e Napoleão.

E chegamos, então, a um outro conceito: disciplina, que sem ela ninguém alcança nada.

 

Rola até uma ameaça, num raro confronto menos educado com o leitor: “caso sinta-se distraído ou ache uma tarefa enfadonha estudá-las, o que obviamente não passa de 2 laudas, seria útil pedir-lhe somente mais um favor: cerre este livro de uma vez e senta-te sobre o gramado, escancare a tua boca cheia de dentes e espere a morte chegar. Talvez consigas, de praxe, observar um disco voador sobre o céu, se tiveres sorte, caso não, apenas permaneça como está”.

 

 

Disciplina e determinação. E o primeiro exemplo de quem sabia o que queria é Kurt Cobain, o líder do Nirvana. Depois vêm Martin Luther King, Freud e... Hitler.

 

6. Isole-se

 

Para a Polícia Civil do Acre, que investigou o desaparecimento de Bruno Borges, o sumiço do autor foi parte de um plano para garantir a divulgação da obra. A questão ainda não está fechada, mas "TAC" dá uma pista:

 

Ao longo da obra, há recorrentes lembranças de que "sábios" gostavam de praticar o isolamento. De novo, a turma aparece: Da Vinci, Tesla, Jesus, Newton, Einstein, Buda e... Michael Jordan (porque ele treinava sozinho). E Raul Seixas.

No final de maio, conversas encontradas no celular de dois amigos de Bruno Borges mostraram a intenção deles de ficarem ricos com a divulgação dos livros criptografados, informou o delegado responsável pela investigação. "O desaparecimento em si vem coroar a parte da publicidade", afirmou Alcino Júnior.

 

Dias depois, o delegado disse que a polícia não tinha "mais responsabilidade sobre o caso".

 

7. Hitler, o 'calamitoso'

 

Outro que se isolava, lembra Bruno Borges, era o Adolf Hitler. O líder nazista alemão aparece em duas passagens de "TAC", sendo chamado de "calamitoso" em ambas. O primeiro comentário é este: “E o calamitoso Hitler, conseguiria ele colocar em prática todos os seus sonhos incluídos em seu livro ‘Minha luta’, escrito quando preso, em isolamento, se ele não tivesse feito uso de praticamente todos os itens aqui neste estudo, pelo qual não coloquei seu nome em nenhuma categoria para não inflamar o ódio sobre leitores que não aceitariam que ele fosse visto como sábio”.

 

 

Borges cita uma passagem de “O carisma de Adolf Hitler”, de Laurence Rees, na qual "seus companheiros achavam estranho que ele nunca quisesse tomar uns tragos (veganismo, gula) ou fazer sexo com uma prostituta (assexuado), passando o tempo livre lendo ou desenhando (absorvendo conhecimento), ou eventualmente discursando para quem estivesse por perto sobre algum assunto de que gostasse, estranho que parecesse não ter amigos ou familiares e, consequentemente, fosse um homem decidido a ser só (isolamento)".

 

8. Usar a TAC pode ser perigoso

 

Alerta: a TAC não é só alegria, não. De acordo com o autor, "a história tem se encarregado de demonstrar que a grande maioria destes sofriam mais que qualquer outro ser humano na terra", não deixando de assegurar que "o sofrimento psíquico é muito pior do que o sofrimento físico". Ele pede "cuidado, muito cuidado" a quem tiver uma "ideia absurda" e quiser divulgar por aí.

 

Na hora de exemplificar com "praticantes da TAC" que se deram mal, recorre a casos de gravidade muitíssimo variada: tem Jesus (“crucificado”), Giordano Bruno (“queimado vivo”) e o coitado do Thomas Edison (“expulso do primário porque o professor disse que ele era muito burro e tinha a cabeça oca”).

 

9. 'Penso, logo crio'

 

 

"O ser humano é uma espécie curiosa", avisa Bruno Borges. Mas por quê? Porque, ao contrário dos outros animais, "se transvia da natureza animalesca" – muito embora muitas vezes não se dê "conta de que também é um animal nu e cru como os demais".

 

O fato é que o homem consegue efetivamente criar (teorias, livros etc.), que é "o real propósito da inteligência humana".

 

"Eu digo, diferentemente de Descartes ‘penso, logo crio’”, ousa Borges, dando cara nova ao famoso "penso, logo existo".

Mas o autor é meio radical aqui de novo: "preferiria eu ser qualquer outro primata a um ignorante humano", conclui, depois de citar que os primatas sabem "exatamente o que tem que fazer no mundo".

 

10. Nada contra a religião

 

A abordagem pode até soar mais “científica” e “ filosófica” do que religiosa. Mas Bruno Borges garante nada ter contra a religião. “De maneira alguma a TAC nega a importância do senso comum e da religião”, escreve. Reconhece, inclusive, que “Gandhi fazem jus das minhas palavras, quando tinha vinte anos, eu passei por um arrebatamento e uma experiência profundamente mística, isto não é segredo”.

 

O arremate: “Ora, sempre achei uma estupidez insaciável à rixa entre religiosos e ateus, e não posso entender como os extremistas de ambos os lados são tão péssimos contempladores. Pois a verdade é encontrada na natureza, ao nosso redor e na perfeição dos olhos, mira-se o universo”.

 

 

Sábio: “TAC: Teoria da Absorção do Conhecimento” está catalogado como: 1. Filosofia e Teoria da Religião 2. Religião 3. Relações Humanas.



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