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Saturday, January 6, 2024

59 - História da epilepsia




HISTÓRIA DA MEDICINA – HISTÓRIA DA EPILEPSIA

HISTORY OF MEDICINE - HISTORY OF EPILEPSY

Alice Cabral Barbosa1

Arthur de Oliveira Arantes2

Jéssica de Almeida Sousa3

Maria Carolina Rios Fonseca4

Sarah Mitsue de Castro Matsuoka5

1 Médica residente em Clínica Médica do Complexo de Saúde São

João de Deus

2 Médico. Centro Universitário do Planalto Central Apparecido

dos Santos

3 Médico. Centro Universitário do Planalto Central Apparecido

dos Santos

4 Médica residente em Pediatria do Hospital Regional de Taguatinga

5 Médica residente Clínica Médica do Programa de Residência

Médica Integrada da Secretaria de Saúde do Distrito Federal

Resumo: O objetivo desse artigo

é abordar os principais marcos

históricos da epilepsia, doença

que atinge 50 milhões de pessoas no mundo, 40 milhões delas

em países em desenvolvimento.

Parte importante da população

doente não procura tratamento

embora seja um problema predominantemente controlável. Provavelmente, uma das principais

causas para isto seja o estigma

que atinge as pessoas com epilepsia.

Palavras chaves: epilepsia, história da medicina, neurologia,

convulsão

Abstract: The objective of this

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Vol. 02 - n 04 - ano 2022

Editora Acadêmica Periodicojs

article is to approach the main

historical milestones of epilepsy,

a disease that aff ects 50 million

people in the world, 40 million of

them in developing countries. An

important part of the sick population does not deal with treatment,

although it is a predominantly

controllable problem. Probably

one of the main causes for this

is the stigma that attends people

with epilepsy.

Keywords: epilepsy, history of

medicine, neurology, seizure

INTRODUÇÃO

O termo epilepsia é derivado do verbo grego epilambanein, e pode ser traduzido como

“possuir”, “apossar-se de” ou

“acometer”. Esse termo foi defi -

nido desse modo, pois os antigos

gregos acreditavam que os deuses

amaldiçoavam as pessoas e lhes

tiravam a consciência, fazendo

com que o corpo se agitasse.

Durante a História, foram defi nidas três causas principais para epilepsia. Uma teoria

defi nia que a epilepsia era causada por demônios ou espíritos.

Essa visão estava em voga na

época de Cristo, como pode ser

lido na Bíblia, no livro de Marcos, no qual retrata uma passagem em que Jesus expulsou um

espírito demoníaco de um jovem

garoto que sofria de ataques epilépticos desde a infância. Nessa

época, hebreus e romanos tinham

o habito de cuspir nas pessoas doentes, a fi m de que o espírito demoníaco fosse embora. Uma segunda teoria era de que a doença

era causada por corpos celestiais.

Acreditava-se que os ataques epilépticos ocorriam em tempos de

lua cheia, por isso a epilepsia foi

chamada também de “Doença da

Lua”. Por fi m, Hipócrates anun-

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ciou que o corpo era formado por

4 fl uidos diferentes: o sangue,

a bile negra, a bile amarela e o

fl euma. A terceira teoria, portanto, designava que a epilepsia era

resultado de uma acumulação de

fl euma nas artérias, por onde se

acreditava que passava apenas ar.

John Hughlings Jackson

(1835-1911) foi o primeiro a dar

a defi nição moderna de epilepsia, na segunda metade do século XIX, defi nindo-a como “uma

descarga ocasional, súbita, rápida

e localizada na substância cinzenta”. Essa concepção se perpetua até os dias atuais.

As crises epilépticas

precisam ser recorrentes e não

provocadas, e seus tipos dependem da localização da descarga

inicial, além da forma de como

irá se propagar. Há alguns fatores

que podem desencadear as crises como a febre, acidentes vasculares encefálicos, distúrbios

metabólicos, abuso do álcool ou

das drogas, traumatismo crânio-

-encefálico agudo e consumo de

substâncias epileptogênicas.

Os sintomas da epilepsia variam de acordo com o lobo

cerebral em que a crise começa

e se propaga. Há dois tipos de

crises parciais: a crise parcial

simples no qual a pessoa pode

apresentar sensações de formigamento, desconforto gástrico e

contrações de um braço ou uma

perna, porém não perde a consciência, e a crise parcial complexa

que é caracterizada por confusão

mental e mastigação mecânica,

sem motivo aparente. Além dessas, há a crise tônico-clônica, que

envolve todo o cérebro. Esse tipo

de crise é mais reconhecido devido aos sintomas bem evidentes

como as contrações musculares

involuntárias, bruscas e muito

fortes, a difi culdade em engolir a

saliva, a mordedura da língua e

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a perda do controle esfi ncteriano.

MARCOS HISTÓRICOS

Pré-história

As primeiras evidências

de tentativa de se tratar a epilepsia surgiram provavelmente no

Período Neolítico, no qual que

se era comum a prática das trepanações, que se confi rmaram

através de crânios trepanados e

cicatrizados estudados por Lucas-Championnière (1843-1913),

e que se encontraram conservados no Museu do Homem, em

Paris. Tais trepanações tinham

por fi nalidade libertar os maus

espíritos ou demônios presos na

caixa craniana de alguns doentes,

entre os quais pessoas com epilepsia.

Na Antiguidade, os sinais de cicatrização, presentes

em alguns crânios, indicam que

nem todas as pessoas submetidas

à trepanação iam a óbito, e que

tal intervenção já era praticada

há aproximadamente 3000 anos.

Trepanação, já com sinal de cicatrização, em crânio pré-histórico

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Babilônia

Os babilônios consideravam as doenças como formas

de interferências de deuses e demônios no organismo humano,

de modo que a cura poderia ser

obtida por intermédio de orações

e exorcismo. Embora a religiosidade predominasse, eram utilizados medicamentos. Por meio

de adivinhações, era função do

sacerdote realizar o diagnóstico

e estabelecer o prognóstico, além

de realizar os exorcismos.

Os babilônios escreveram um tratado, intitulado “Tratado do Diagnóstico Médico e do

Prognóstico”. Ele é constituído

por quarenta pedras com escritas datadas de pelo menos 2000

a.C., sendo que em uma delas há

o registro de crises epilépticas,

descrevendo, principalmente, o

desvio da cabeça e dos olhos e

as alucinações auditivas, e associando cada tipo de crise a um

espírito ou a um deus.

No Código de Hamurabi, datado de aproximadamente

1700 a.C., há a descrição de uma

doença convulsiva, sendo ela,

após estudos, associada à epilepsia.

Egito

Para os egípcios, já havia certo conhecimento sobre a

doença. Era considerado como

causa, um espírito maligno que

se apossou do corpo do doente,

de modo a causar as crises. Como

tinha sua origem nos deuses e no

sobrenatural, sua cura se dava

através de sacrifícios, oferendas

e orações.

Através de seus hieróglifos, os egípcios identifi cavam

por meio de fi guras a entrada de

um demônio ou pessoa morta na

vitima, considerando assim, uma

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enfermidade que era misteriosa e sobrenatural.

Hieróglifo egípcio que representava a epilepsia

Não há comprovações

concretas sobre o fato, porém

acredita-se que o faraó Tutancâmon sofria da doença, assim

como seus familiares. A suspeita

da epilepsia vinha de um tipo da

doença que afetava a liberação de

hormônios e o desenvolvimento

sexual, e foi atribuída ao faraó

porque ele apresentava características femininas.

Grécia

Epilepsia, a doença sagrada

Os gregos foram os

primeiros a utilizar o termo epilepsia (epilhyia, que signifi ca

“surpresa”, “ser apanhado de

repente”), pois acreditavam que

apenas uma divindade ou um demônio poderia fazer a possessão

da pessoa, provocando-lhe queda

e convulsões. Além disso, há várias hipóteses sobre a origem da

denominação “doença sagrada”:

uma delas se baseia na de que

as pessoas afl igidas pelo mal pecaram contra Selene, a deusa da

lua; uma segunda designa que é

uma doença sagrada porque sua

cura não poderia se processar por

meios humanos, mas apenas pela

intervenção divina; outra expõe

que a doença pode ser considerada sagrada porque nos tempos

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antigos os deuses e os demônios

eram temidos, igualmente aos

epilépticos. Os portadores desta

doença eram colocados em templos e vistos como sacerdotes.

Ainda no Período Clássico grego surgiu um manuscrito

feito por Hipócrates (460 a.C.-

370 a.C.), no tratado hipocrático,

dirigido a legisladores contestando o caráter sagrado da doença

e conceituando- a como um distúrbio cerebral. Nele também se

lia acerca da “doença sagrada”,

havendo a descrição de que olhos

reviravam e espuma saia pela

boca, pois as veias não recebiam

ar e tornavam-se túrgidas.

Hipócrates teoriza sobre

a incapacidade de um homem ser

invadido por um deus por não ser

puro, por acreditar que a epilepsia é a doença hereditária, e que

sua causa está localizada no cérebro, portanto precisa ser cientifi camente tratada com o uso de

drogas e dieta. Já nesse período,

ele citou a vida sedentária como

fator agravante e sugeriu mudança de clima, país e hábitos de

vida como controle das crises,

além de sugerir tratamentos físicos, chegando a fazer implicações prognósticas ao afi rmar que

se a doença se tornasse crônica,

seria incurável.

Hipócrates mencionou a

precocidade da doença e raridade de sua ocorrência após os 20

anos de idade. Evidenciou, também, as formas diferenciadas de

manifestação clínica durante as

crises, citando pessoas que gemiam e gritavam durante o sono,

pessoas que levantavam e deambulavam até despertarem saudáveis, porém pálidas e fracas após

as crises.

Epilepsia, a doença dos deuses

A lenda dos Doze Tra-

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balhos de Héracles (Hércules,

na mitologia romana) está diretamente associada aos distúrbios

epilépticos dos quais Héracles

era vítima. Ele era fi lho de Zeus e

Alcmena, uma amante mortal de

seu pai. Hera, a esposa de Zeus e

rainha dos deuses, declarou guerra a Héracles desde o seu nascimento: mandou duas serpentes

para matá-lo em seu berço, mas

a criança estrangulou-as com

as próprias mãos. Ainda assim,

Hera, por suas artes de deusa, o

subjugou ao poderes do rei Euristeu, que por inveja o submeteu

Héracles aos Doze Trabalhos,

acreditando que ele não sobreviveria.

Héracles era um homem

de estatura mediana, extraordinariamente forte, voraz, apreciador de bebidas alcoólicas, amoroso e gentil, porém sujeito a crises

brutais de raiva ocasionalmente.

Essa raiva era interpretada como

crises epilépticas, que muitos

acreditavam terem se agravado

pelos grandes desafi os enfrentados nos trabalhos que lhe foram

impostos.

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Representação de Héracles, o mais célebre herói da mitologia grega

Na obra “Problemas”,

Aristóteles enfatiza que o comportamento de Héracles se devia

à bile negra que causava as alterações mentais. Embora não tenha sido afi rmado que Héracles

apresentasse epilepsia, o autor

alista este distúrbio entre as doenças causadas pela bile negra,

referindo que os antigos autores

a teriam denominado “doença

sagrada” em referência ao semideus, o que fez com que os

renascentistas acreditassem que

os homens excepcionais fossem

melancólicos e automaticamente

propensos à epilepsia.

Roma

Em Roma, era atribuído

à medicina um caráter mágico e

sobrenatural. Para esse povo, a

doença era tida como enfermidade de pessoas impuras e que

poderia ser transmitida através

contato. Havia a crença sobre um

espírito demoníaco que levava a

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prática de cuspir no doente como

forma de combater o mal.

Era comum a crença de

que as crises epilépticas eram

presságios de desgraças. Os romanos acreditavam que os astros

celestes, como a lua, infl uenciavam na determinação de quem

desenvolveria ou não a epilepsia.

Chamavam, portanto, os epilépticos de lunáticos. Isso ocorreu

no mesmo período em que eles

mantinham os doentes em locais afastados como forma de

proteção da população em geral,

já que a doença era considerada

contagiosa.

Também foi relatado por

autores médicos religiosos que

em Roma havia o uso de sangue

de gladiadores para a cura da epilepsia. Mesmo após a proibição

de combates entre gladiadores,

por volta do ano de 325, a prática ainda perdurou, porém com o

sangue de criminosos executados. Não se sabe ao certo de onde

veio a crença, porém pode estar

ligado aos rituais fúnebres etruscos e se baseava no fato de que

a crises paravam após a pessoa

ingerir o sangue.

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Júlio César (100 a.C.-44 a.C.), imperador romano que tinha epilepsia

Idade Média

Na Europa, durante a

Idade Média, a doença passou a

ser conhecida comumente como

doença das quedas, e era designada como morbus maior. Com

o crescimento da infl uência da

Igreja Católica, o povo passou a

depositar confi ança para a cura

em santos e relíquias, além de realizar sangrias, cauterização, utilizar sanguessugas e medicamentos que provocassem o vômito e a

evacuação.

Instrumento utilizado para a injeção de fluidos no ânus, a fim de promover a evacuação

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Entre essas medidas terapêuticas, a sangria foi uma das

mais utilizadas, pois se acreditava que a doença era causada por

excesso de um fl uido: a fl euma.

Ela desviava o material causador

da doença, de modo que o forçava a se deslocar de um órgão

para outro. Quando o sangue era

tirado do lado do corpo oposto ao

da doença, o epiléptico piorava;

mas quando era tirado do mesmo

lado, a dor aliviava. Havia descrições dos melhores dias e horas, veias e quantidade de sangue

para máximo aproveitamento da

técnica.

Também era utilizada

a aplicação de sanguessugas na

região onde se localiza o baço,

visando desviar o que estivesse

na cabeça para este órgão. Em

seguida, aplicavam-se fezes de

pombos e ovos de corvos, que

provocavam febre, de modo que

esta seria capaz de curar a doença.

Também era realizada

cauterização, com ferro em brasa, no occiptal ou na bregma,

devendo o cautério queimar desde o osso até as meninges. As

mães cauterizavam suas próprias

crianças, visando à remoção da

fl euma e de possíveis espíritos

demoníacos do cérebro.

A ascensão do Cristianismo introduziu o conceito de

que Deus é a única resposta, de

modo que o homem nada pode

fazer. Ocorreu, portanto, a inclusão de orações, jejum e peregrinações, a fi m de que Deus ouvisse o clamor e curasse o doente.

A epilepsia foi relacionada com a

doença mental, e ganhou caráter

de doença contagiante.

Renascimento

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“Cristo Exorcizando o Demônio” (1538/1539), de Hans Holbein

Durante o Renascimento a anatomia e a fi siologia humanas eram enriquecidas pelas

dissecações e por meio da contribuição de pintores e escultores. A epilepsia ainda estava sob

conotações religiosas, seguindo a

lógica de que quando ocorre uma

convulsão, um espírito ou um demônio entrou no corpo do epiléptico. Para a nobreza e a igreja, ela

não era uma doença em si, mas

uma manifestação de poderes

proféticos e grande inteligência.

A população em geral, entretanto, acreditava que era uma doença terrível e que a cura poderia

ser obtida por meio do contato

com relíquias sagradas e determinadas plantas.

 Os epilépticos

eram considerados profetas que

poderiam ver o passado, presente

ou futuro durante uma convulsão. O guia de caça às bruxas,

intitulado Malleus Mallifi carum,

designava a epilepsia como um

sinal de que bruxas estavam sen-

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do caçadas e muitos morriam em

virtude disso.

O médico suíço Paracelso (1493-1541) atuava como

alquimista, tratando a epilepsia

com um misto de religiosidade,

alquimia, mágica e astrologia.

Utilizava substâncias químicas

como ópio, ferro, cobre, óxido

de zinco, bismuto, mercúrio e

enxofre. Durante o século XVI,

a Igreja não aceitava as explicações sobrenaturais para as doenças, porém admitia as curas.

Juntamente com Tomas

Erasto (1523-1583), Paracelso

inferiu que a aura, já descrita

durante a Idade Média, indicava comprometimento de outros

órgãos, afetando indiretamente o

cérebro. Tal idéia foi contraposta

no século XVII.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A epilepsia é uma doença que foi atribuída a causas

místicas ao longo de sua história,

desde a Pré-história até os dias

atuais. Apesar de ser uma doença

milenar, ainda é alvo de preconceito por parte dos leigos, visto

que estes ainda atribuem a causa das crises epilépticas a fatos

sobrenaturais e disso deriva ser

imperial que a história da doença seja difundida entre médicos

e pacientes visando o esclarecimento científi co e a queda de

crenças populares.

Por ser uma doença de

origem neurológica, ainda há

uma grande difi culdade no aprimoramento dos estudos das suas

causas e seus efeitos. Houve, entretanto, um grande avanço em

seu tratamento, chegando inclusive ao tratamento cirúrgico em

casos extremos.

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