2 - Convulção - Convulcão
Epilepsia:
concepção histórica, aspectos conceituais, diagnóstico e tratamento
Epilepsy:
historical notion, conceptual aspects, diagnosis and treatment
Sebastião
Rogério Góis Moreira I,II, *
I
Universidade Presidente Antônio Carlos
IIInstituto
Superior de Educação Anísio Teixeira / Fundação Helena Antipoff
Endereço
para correspondência
RESUMO
Com
o presente artigo, pretende-se demonstrar como a trajetória da epilepsia é
inseparável da trajetória histórica e balizada por conceitos educacionais
relevantes, tanto no que se refere ao diagnóstico quanto ao tratamento. É de
fundamental importância considerar, também, as dimensões anatomofuncionais
dessa doença, sem desconsiderar, no entanto, o conteúdo simbólico e as
implicações místicas que sempre estiveram evidentes em torno de sua
representação social. O artigo busca demonstrar que a falta de esclarecimento
da população em relação à epilepsia causa atitudes discriminatórias a seu
portador, comprometendo a melhoria deste, sua inclusão social, e,
conseqüentemente, sua qualidade de vida.
Palavras-chave:
História da epilepsia, Formação, Conceitos, Diagnóstico, Tratamento
ABSTRACT
This
paper demonstrates how epilepsy trajectory is inseparable of its historical
path, delimited by relevant educational concepts that are related not only to
its diagnostic but also its treatment. Its also paramount to consider the
anatomofunctional dimensions of the disease, without downgrading, however, the
symbolic content and mystic implications that always surrounded its social
representation. This paper demonstrates how the population's lack of knowledge
regarding epilepsy motivates discriminatory behavior toward the patient,
putting at risk his/her recovery, social inclusion and quality of life.
Keywords:
Epilepsy history, Formation, Concepts, Diagnose, Treatment
Conceitos
nunca estão dissociados da conjuntura social, cultural e política. No entanto,
nota-se a evolução nos princípios que os definem, pois é a partir das mudanças
ocorridas no sistema conjuntural que os conceitos tendem a se transformar. A
evolução de um conceito está ligada a mudanças que ocorrem em dada sociedade,
sendo variável a intensidade de sua transformação.
Quanto
ao conceito específico de epilepsia, vários têm sido os apresentados pela
literatura médica. É notável que, mesmo não se tendo definição complementar
satisfatória sobre epilepsia, tanto na literatura médica nacional quanto
internacional, podem-se encontrar semelhanças entre os diferentes conceitos,
sendo importante ressaltar algumas definições já apresentadas pela literatura
médica em seu percurso histórico.
Segundo
Scliar (1987), as doenças não se traduzem apenas nas repercussões do
comprometimento anatômico e funcional do organismo. Desde épocas remotas,
verifica-se que as doenças têm um conteúdo simbólico importante. "Doenças
são também metáforas [...] a epilepsia se constituía, na Antigüidade Clássica,
em "doença sagrada (morbus sacer)".
O
mais velho relato detalhado de epilepsia está contido em um manuscrito no Museu
Britânico. É um capítulo de um livro-texto babilônico de medicina que resume 40
manuscritos, datados por volta de 2000 a.C. O manuscrito registra,
detalhadamente, diferentes tipos de ataques de epilepsia que são reconhecidos
hoje. Enfatiza a natureza sobrenatural da epilepsia com cada tipo de ataque,
associado com o nome de um espírito ou deus, normalmente do mal. O tratamento
era então um assunto espiritual (World Health Organization, 1997).
Mais
tarde, conceitos sobre a epilepsia apareceram na Grécia antiga, embora
Hipócrates, há 400 anos a.C., tenha sinalizado, por meio de monografia sobre o
tema em texto médico, escrito para leigos, que a epilepsia não era nem sagrada
nem divina, mas um distúrbio do cérebro, com suspeita de que sua origem fosse
hereditária. Ainda se acreditava que a doença estava relacionada a aspectos
místicos.
Trimble
(1991) apontou que os progressos no pensamento médico até a Renascença foram
poucos, identificando como causa a influência grega sobre os escolásticos
romanos. O autor assinalou que o centro de aprendizagem se deslocou, no século
IX, para o mundo árabe, sendo poucas as idéias novas acrescentadas ao diagnóstico
da epilepsia, pois o ambiente social da época, sob égide religiosa, sucumbia o
avanço dos estudos da epilepsia numa perspectiva médica.
Segundo
Dreifuss (1996, p.21), em 175 d.C., "Galeno não somente reconheceu que se
tratava de uma doença do cérebro, mas conseguiu inclusive separar as epilepsias
em dois tipos: as de causas desconhecidas e as que eram resultado de outras
doenças."
Na
Idade Média, muitas foram as perseguições àqueles considerados hereges. Mais
especificamente em 1484, no período da Santa Inquisição, essa perseguição
atingiu também os loucos e os portadores de crises epilépticas, os quais
passaram a ser candidatos às fogueiras pois, na ocasião, pregava-se que toda
doença de origem desconhecida devia ser considerada como causada por feitiçaria.
Entretanto, é de se considerar que a medicina, até aquela ocasião, não
apresentava ainda respostas pertinentes para a doença no que se referia tanto a
fatores causais como ao tratamento.
No
século XVIII, surgiram conceitos opostos às explicações sobrenaturais e
demoníacas para a epilepsia, que perseveraram no decorrer dos séculos, não
sendo ainda suficientes para a mudança de concepções, dado o forte estigma
ligado à possessão e à evidência da lua, que ainda influenciava corpos humanos
com doenças por ela produzidas.
O
século XIX foi marcado por muitos avanços nas ciências biológicas. Sob a marca
do positivismo, estudos eminentes no campo da filosofia e, conseqüentemente, da
neurofisiologia, foram consolidados, repercutindo nos estudos das patologias cerebrais,
a epilepsia dentre elas.
Entre
autores de relevância no século XIX, que enveredaram pelas investigações da
epilepsia, é de se considerar a importância do autor inglês Hughlings Jackson
(1835-1911). Segundo Trimble,
"Ele
tinha muito a dizer sobre a relação entre epilepsia e desordens mentais, e sua
filosofia de função cerebral e como ela era afetada na doença abrangia quatro
dogmas principais. Eram eles: a evolução das funções nervosas, a hierarquia
destas funções, os sintomas negativos e positivos de dissolução, e a distinção
entre dissolução local e uniforme. O cérebro era visto como se desenvolvendo no
espaço e no tempo e não era o órgão estático do laboratório patológico. E mais,
ele era hierarquicamente organizado, não uma simples coleção de reflexos. Com
qualquer lesão, havia dois efeitos: um devido à destruição de tecido,
resultando em sintomas negativos; o outro devido à liberação de atividade
subjacente de outras áreas sadias do cérebro, causando sintomas positivo."
(1997, p.7)
As
considerações feitas por Jackson a respeito da epilepsia são apresentadas em
concomitância com a doença mental pois, no século XIX, o crescimento do sistema
hospitalar psiquiátrico foi considerável. O estigma em relação ao epiléptico
era tão intenso, que Griesinger (1857, apud Trimble, 1991) registrou que os
asilos, ao considerarem negativos os prognósticos dos portadores de epilepsia,
os excluíam, fechando-lhes suas portas.
Neste
mesmo século, outros nomes foram expoentes no estudo médico da epilepsia e da
doença mental (Pinel, 1745-1826; Esquiroll, 1772-1840; Morel, 1809-1879;
Lombroso, 1836-1909, entre outros). Nesses estudos, atrelava-se a epilepsia à
insanidade, sendo que, ao mesmo tempo em que o desenvolvimento da ciência
médica era beneficiada pelos estudiosos citados, deixavam-se rastros que
sedimentavam o estigma da loucura ao portador de epilepsia no seu ambiente
social.
Das
influências francesas e inglesas sobre o estudo da epilepsia no século XIX, a
proeminência médica nos estudos da doença deslocou-se para a Alemanha. As
perspectivas dos médicos alemães em relação à epilepsia não foram muito
diferentes das dos ingleses e dos franceses, pois os trabalhos realizados então
na Alemanha, apesar de acrescidos de estudos sobre o comportamento da pessoa
epiléptica, continuaram atrelando a epilepsia à insanidade.
Trimble
(1991) considerou que, entre os pesquisadores alemães que marcaram os estudos
sobre a epilepsia no século XIX, podem-se reconhecer os nomes de Grisinger
(1817-1868), Klapelin (1856-1925), Aschafferberg (1906), Samt (1875) e Savage
(1892), entre outros.
Encontram-se,
a seguir, algumas conceituações de epilepsia em cronologia histórica que
expressam o desenvolvimento conceitual da área.
Gareiso
& Escardó (1949, p.22) conceituaram a epilepsia da seguinte maneira:
"A
epilepsia é um quadro clínico produzido por uma descarga elétrica súbita,
anormal e desordenada dos neurônios. Essas descargas podem compreender uma,
várias ou todas as categorias e níveis do sistema nervoso, assim fala de
descargas psíquicas, descargas motoras, descargas sensitivas, descargas
sensoriais e descargas neurovegetativas, todas as quais são expressão de
epilepsia como conceito patogênico e constituem clinicamente as
epilepsias."
Gastaut
(1973) definiu epilepsia como:
"Uma
desordem crônica do cérebro por várias etiologias, caracterizada por crises
recorrentes devido à descarga de neurônios cerebrais [...]. Crises epilépticas
isoladas ou ocasionais, ocorrendo em doenças agudas, não devem ser
classificadas como epilepsia."
Outra
definição importante a ser citada é a classificação internacional de síndromes
epilépticas, aprovadas pela Liga Internacional Contra a Epilepsia, que foi
criada em 1985 e revisada em 1989. Gram (1990, p.17) afirmou que:
"Uma
síndrome epiléptica é definida como um distúrbio epiléptico caracterizado por
um conjunto de sinais e sintomas que ocorrem simultaneamente. Essas
características incluem tipo(s) de crise(s), etiologia, anatomia, fatores
precipitantes, idade de início, severidade, cronicidade, possível ciclismo
diurno e circadiano das crises e prognóstico."
Dreifuss
(1996) definiu a epilepsia como uma condição em que as recorrentes descargas
elétricas no cérebro provocam distúrbios no funcionamento normal do sistema
nervoso. O mesmo autor afirma que tais episódios de distúrbios são denominados
convulsões, as quais podem ocasionar perda temporária de consciência ou
mudanças de comportamento, sendo que as mudanças exatas dependem da área do
cérebro que está sendo estimulada pela descarga elétrica.
A
epilepsia tem sido, também, descrita por alguns autores mais como uma síndrome
do que como uma doença, sendo esta posição muito usada na literatura médica
atual para conceituar a epilepsia. Dentro desse conceito, pode-se citar autores
de relevância como Guerreiro (1993), que diz ser a epilepsia uma condição
crônica, ou um grupo de doenças que têm em comum crises epilépticas que
recorrem na ausência de doença tóxico-metabólica ou febril.
Sob
a mesma perspectiva conceitual, é notada a abordagem feita por Pupo (1971), ao
descrever a epilepsia como uma síndrome, isto é, um conjunto de manifestações
clínicas várias que se apresentam em conseqüências de processos mórbidos
cerebrais também vários, inteiramente diversos, considerando-se os grupos
etários dos pacientes.
Segundo
Dumas & Giordano (1993, p.13):
"Uma
crise epiléptica é um fenômeno ágil; em geral breve e transitório. É uma crise
cerebral que resulta numa descarga excessiva (como uma descarga elétrica) de um
grupo mais ou menos vasto de células nervosas chamadas neurônios. Esse fenômeno
é resultante de descargas síncrona, anormal e excessiva de uma população de
neurônios do sistema nervoso central (SNC)."
Gherpelli
& Manreza (1995, p.681) afirmaram que:
"Essa
atividade anormal determina uma disfunção de caráter transitório das atividades
cerebrais comandadas pela população neuronal acometida, podendo ela se
manifestar como um fenômeno positivo (abalos motores, posturas anormais, sensações
anormais), negativo (perda da consciência, hipotonia muscular, afasia) ou uma
combinação de ambos."
Devem,
no entanto, ser considerados os diferentes tipos de crises apresentadas pelos
portadores de epilepsia. As crises epilépticas podem ocorrer basicamente nas
seguintes situações, de acordo com Gherpelli & Manreza (1995, p.681):
"1)
como repercussão de doenças sistêmicas, como febre, distúrbios metabólicos ou
intoxicação exógena;
2)
associada a um distúrbio neurológico agudo, como infecção do sistema nervoso
central, traumatismo craniencefálico, anoxia ou acidentes vasculares cerebrais;
3)
espontaneamente, podendo ser sempre: a) única, quando ocorre isolada; e b)
recorrente, epilepsia idiopática sintomática criptogenética."
Nos
grupos 1 e 2, as crises costumam ser predominantemente do tipo convulsivo,
enquanto no grupo 3 podem ocorrer crises de qualquer tipo.
Para
Guerreiro (1993, p.11), "crises epilépticas são eventos clínicos que
refletem disfunção temporária de uma pequena parte do cérebro (crises focais)
ou de uma maneira mais extensa envolvendo os dois hemisférios cerebrais (crises
generalizadas)."
Entretanto,
observa-se a existência de numerosos tipos de epilepsia e acessos epilépticos,
bem como doenças que se assemelham à epilepsia. Estas podem, como os acessos
epilépticos, ser caracterizadas por sintomas episódicos e até mesmo
paroxísticos. Quando um novo encaminhamento é admitido para exame, ou mesmo ao
se rever um paciente que ainda tem acessos, apesar da medicação antiepiléptica,
várias possibilidades diagnósticas têm que ser consideradas.
Segundo
Bittencourt (1996), a neurocisticercose é identificada como uma das causas mais
comuns de epilepsia nos países tropicais. O autor destaca que a epilepsia é a
manifestação clínica mais comum da cisticercose, sendo ela ativa ou inativa,
nesses países.
Como
já foi relatado anteriormente, nem toda convulsão é sinônimo de epilepsia. No
entanto, é observado que procedimentos para se chegar ao diagnóstico avançam
cada vez mais, identificando-se os múltiplos fatores etiológicos das
epilepsias. É de se considerar que, sempre que há suspeita de epilepsia, um dos
primeiros exames ainda solicitados pelos médicos é o eletroencefalograma,
essencial na grande maioria das vezes.
Muitos
avanços no que se refere ao diagnóstico da epilepsia ocorreram no século XX. O
descobrimento do eletroencefalograma (EGG), em 1933, por Hans Berger,
certamente representou um marco significativo no conhecimento da fisiologia do
encéfalo humano e do sistema nervoso. A técnica possibilitou enorme volume de
pesquisas desde sua descoberta, algumas de valor inestimável para o diagnóstico
das epilepsias (Organização Pan-Americana de Saúde, 1984).
O
eletroencefalograma, como aponta Kirby (1996, p.60) é:
"[...]
um gráfico que registra a atividade elétrica do cérebro. A atividade elétrica
reflete o estado funcional em dado momento. [...] O EEG é uma ferramenta
utilizada no diagnóstico de epilepsia e nos episódios de não epilepsia. [...] O
EGG pode fornecer dados de comprovação, oferecendo pistas fundamentais quanto
ao tipo de convulsão ou convulsões que a criança apresenta."
Apesar
de se saber a importância do eletroencefalograma no diagnóstico da epilepsia, é
observada uma freqüente demanda nas mais diversas situações. Tanto adultos como
crianças, com sintomas de ordem emocional, intelectual e comportamental, têm
sido muito freqüentemente encaminhados aos serviços médicos para utilização da
técnica eletroencefalográfica.
A
criança, por intermédio da escola, tem sido alvo principal desses
encaminhamentos, pois, ao canalizar o problema para os aspectos físicos, a
escola se isenta do compromisso de refletir sua prática, subtraindo seu
desconforto em relação à sua impotência na resolução de problemas gerados na criança,
muitas vezes, pelo próprio ambiente escolar.
Camargo
(1993, p.124-125) chamou a atenção para outros dois novos recursos no auxílio
do diagnóstico da epilepsia:
"Chamado
SPECT cerebral (Single Photon Emission Computed Tomography) esse exame tem beneficiado
bastante o diagnóstico da epilepsia. Nos pacientes epilépticos, o estudo pode
ser feito na fase ictal, e o que se observa é um aumento focal ou regional da
concentração do radiotraçador na área responsável pelas crises convulsivas. Na
fase interectal esta mesma região mostrará hipoconcentração do material
radioativo [...] para detecção dos focos causadores das crises convulsivas,
variando com o tipo radioativo utilizado e com o tipo de equipamento."
Esse
mesmo autor apresentou outro recurso no auxílio do diagnóstico da epilepsia,
denominado PET (Positron Emission Tomography):
"Esse
exame é mais complexo do ponto de vista técnico. Para se fazer esse tipo de
estudo, é necessário que, além de uma câmera de cintilação PET mais complexa,
exista um cicloton no laboratório ou nas suas vizinhanças para a produção e uso
imediato de radioisótopos de meia vida física muito curta [...] Observa-se
concentração de glicose na área, na fase interictal. Modalidades anatômicas,
como a tomografia computadorizada e a ressonância nuclear magnética, geralmente
mostram imagens normais nessas áreas."
Completando
os avanços da neurociência no que diz respeito aos recursos diagnósticos, como
as técnicas acima descritas, pode-se mencionar a Ressonância Magnética. Segundo
Marie (1993, p.127):
"A
introdução do método de Ressonância Magnética (RM) em nosso meio, desde 1986,
tem permitido o estudo mais acurado das patologias do Sistema Nervoso Central.
RM é uma nova técnica de obtenção de imagens digitalizadas, que permite estudar
especialmente as partes moles com mais detalhes do que a tomografia
computadorizada (TC) e não utilizando radiação, evitando, portanto, os
artefatos por difração de raios-X nas estruturas próximas do osso."
Ao
descrever as técnicas hoje existentes para diagnóstico da epilepsia, fica
patente o avanço da neurociência nos últimos anos. O diagnóstico é um princípio
importante para que se possa melhorar e até caminhar para a cura total da
epilepsia. Mas é a partir da precisão dele que se pode nortear qual a melhor
adequação na terapêutica medicamentosa a ser ministrada no tratamento.
Entretanto, não se podem desconsiderar as ações preventivas. Como exemplo,
destacam-se as ações relatadas pela Divisão de Saúde Mental da Organização
Mundial da Saúde, que esclarecem quais cuidados com os epilépticos devem ser
parte integrante da estratégia dos serviços que se ocupam da saúde primária. A
Divisão de Saúde Mental afirma que os elementos fundamentais para um plano de
ação centrado nos problemas causados pela epilepsia são:
a)
formulação de uma política;
b)
introdução de medidas de prevenção e de tratamentos da epilepsia e da
readaptação de pacientes epilépticos;
c)
educação sanitária junto à comunidade;
d)
formação de profissionais de saúde em todos os níveis;
e)
controle e avaliação do progresso do programa.
Segundo
Dreyer (1971), a história das medicações anticonvulsivantes data do século
passado. Em 1857, Locock reconheceu a ação anticonvulsiva do bromo e, em 1912,
Hauptmann, a do fenobarbital. Mas foi somente em 1945 que Toman e Taylor
chegaram à conclusão de que, por múltiplas razões biológicas de caráter teórico
ou prático, não era possível desenvolver um antiepiléptico que controlasse
todas as formas de crises e que fosse útil para todos os epilépticos.
As
drogas anticonvulsivantes confiáveis são fundamentais no sucesso do tratamento
das epilepsias, sendo porém importante a educação dos pacientes e da família no
que diz respeito à participação dos mesmos na adequação do tratamento.
É
de se considerar que o tratamento medicamentoso é o principal recurso
terapêutico para a maioria dos casos de epilepsia. Segundo Gherpelli &
Manreza (1995, p.684):
"Compreende
que a eficácia terapêutica dependerá da utilização da droga adequada ao tipo de
crise, da prescrição da dose para manter um nível adequado ao tipo de crise, da
prescrição da dose para manter um nível adequado no seu sítio de ação no SNC, e
na ingestão e retenção da mesma pelo paciente."
Não
se pode desconsiderar que, mesmo as drogas antiepilépticas (DAE) tendo
importância fundamental no tratamento das epilepsias e, mais especificamente,
no controle das convulsões, são freqüentes seus efeitos colaterais. Segundo
Bittencourt (1994, p.63), "drogas antiepilépticas têm vários efeitos
terapêuticos e indesejados no paciente epiléptico."
Nesse
sentido, Brodie (1990, p.59) ressalta que:
"Durante
a década passada, houve crescimento das informações sobre a relação
risco/benefício de cada um dos agentes antiepilépticos, influenciando, assim,
as estratégias terapêuticas. A concepção de que a politerapia farmacológica não
confere benefícios superiores aos da monoterapia em aproximadamente 90% dos
pacientes epilépticos, deve ser considerada como uma conquista conceitual.
Todas as drogas anticonvulsivantes podem afetar de forma adversa a função
psicomotora e cognitiva, e há evidências crescentes de que a redução da
politerapia pode, com freqüência, melhorar o bem-estar e a qualidade de vida,
sem causar deterioração no controle das crises."
No
que diz respeito à medicação anticonvulsivante, o fenobarbital é um dos
medicamentos mais consumidos no controle das convulsões epilépticas até nossos
dias, pelo seu baixo custo, alta disponibilidade e pela facilidade de uso. Vale
lembrar que o primeiro dos anticonvulsivantes data de 1912. Como aponta Gram
(1990), o principal obstáculo ao uso do fenobarbital são seus efeitos adversos
sobre as funções cognitivas e o comportamento, como fadiga e desatenção,
percebida mais freqüentemente em crianças com comportamentos hipercinéticos e
agressivos. Gram cita ainda alterações do humor, memória e aprendizado,
extensivos também aos pacientes idosos.
Segundo
Jallon (1996, p.8):
"A
evolução clínica da epilepsia, em países em via de desenvolvimento, é
particularmente interessante do ponto de vista epidemiológico; diante da
hipótese, em tais países, menos de 15% dos pacientes com epilepsia têm acesso à
terapia antiepilética e, quando têm, a terapia medicamentosa é baseada no
fenobarbital; outras medicações antiepilépticas (fenetoína, carbamazepina ou
ácido valpróico) são muito pouco utilizadas nesses países por motivos
econômicos."
O
fato de se ater ao fenobarbital não significa a exclusão de tantas outras
drogas antiepilépticas que circulam no mercado farmacêutico. Mas deve-se levar
em conta que, em nosso meio, a presença do fenobarbital é prevalente na maioria
da população epiléptica, tanto adulta como infantil.
Deve-se
registrar também que, ao se resgatar os avanços dos estudos da epilepsia do
ponto de vista médico, poucas são as considerações sobre a mudança dos
preconceitos em relação à doença. Mesmo sendo crescentes os avanços atingidos
pela neurociência, nota-se que a epilepsia - como uma doença bastante comum em
nosso meio, que atinge pessoas de diferentes faixas etárias, raças ou classe
social - ainda é marcada, infelizmente, por idéias controvertidas que acabam
interferindo na compreensão da doença, levando o epiléptico a sofrer rejeição
de vários segmentos da sociedade.
Aspectos
sociais, culturais e históricos são de importância fundamental no surgimento e
permanência de preconceitos. A epilepsia, mesmo cercada por tantos avanços no
que se refere aos aspectos médicos, é ainda refém de preconceitos que de há
muito vêm prejudicando a melhoria dos padrões de ajustamento da criança e do
adulto em seu ambiente social.
É
notável como os preconceitos em relação ao epiléptico foram delineados desde
tempos remotos, não estando excluídos nos dias atuais. A falta de
esclarecimento sobre a epilepsia é ainda hoje um dos fatores determinantes da
permanência de preconceito na sociedade contemporânea, persistindo em
determinadas regiões do mundo atitudes discriminatórias em relação ao
epiléptico, tal qual existiam no passado.
Como
aponta Dumas & Giordano (1993, p.10):
"Dentro
de numerosas regiões da África, o epiléptico é ainda hoje muito malvisto, a
epilepsia é considerada como uma doença contagiosa, e a pessoa não pode ser
tocada particularmente até que termine a crise. Como um leproso, ele é obrigado
a viver dentro de uma casa isolada, em uma cidade, permanentemente
solteiro."
Esse
exemplo não isenta outras sociedades do preconceito, em níveis e maneiras
diferentes em relação à epilepsia, doença que ainda se liga a diferentes formas
de rejeição, mesmo em sociedades mais evoluídas.
Em
pesquisa realizada por Guerreiro (1994) a respeito da qualidade de vida do
epiléptico na infância, descobriu-se que os aspectos sociais e escolares não se
alteraram significativamente após a criança ter se tornado epiléptica. Isso se
deu, segundo os pesquisadores, em conseqüência da natureza benigna da doença em
muitos indivíduos, da presente casuística e do bom relacionamento
médico-paciente estabelecido quando a atenção médica foi constante e as informações
foram fornecidas detalhadamente a seus pacientes.
Esse
exemplo vem reforçar a importância que deve ser dada ao aspecto informativo no
tratamento da doença, tanto ao paciente como aos seus familiares e à sociedade
em geral, contribuindo para que novas concepções desprovidas de preconceito se
instalem, o que melhora a qualidade de vida do epiléptico e deixa para trás
conceitos equivocados sobre a doença.
Román
& Senanayake (1993), investigando aspectos da epilepsia como um importante
problema de saúde pública da América Latina, identificam a falta de
reabilitação vocacional para a reintegração do paciente na sociedade. Acreditam
que o problema é gerado pelas atitudes da população pobre e pela ignorância.
Afirmam também que, mesmo nas regiões mais desenvolvidas do continente, a
epilepsia está associada ao preconceito, ao medo e ao estigma, sendo comum a
prevalência, nas zonas rurais, dos meios sobrenaturais como forma de
tratamento.
Quanto
aos problemas de ordem social que o epiléptico enfrenta, considera-se que o
início do preconceito se instala no próprio ambiente familiar, no qual são
muitas as fantasias em relação à doença, desencadeadas pelos seus membros que,
a partir de sentimentos emergentes de frustração, apreensão, vergonha,
ansiedade e desesperança, desencadeiam comportamentos ambíguos que vão da
rejeição explícita à superproteção.
Por
outro lado, pelo próprio medo de ser discriminado, o epiléptico tende a negar
sua doença até para pessoas mais próximas, numa tentativa de evitar ser
questionado sobre sua condição. Cavalheiro (1988), porém, acredita que só a
franqueza seria capaz de melhorar as condições dos que têm epilepsia. Afirma
ainda que, se figuras conhecidas socialmente assumissem em público sua condição
de portadores de epilepsia, demonstrariam que a epilepsia não as impediu de se
tornar o que são: atores, esportistas, intelectuais, políticos. Estariam
oferecendo precioso auxílio a todos os que sofrem discriminação.
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Endereço para correspondência
Sebastião
Rogério Góis Moreira
Praça
Presidente Antônio Carlos, 8 - São Sebastião
36202-336
Barbacena - MG
Tel:
+55-32-3693-8923
E-mail:
moreira@bhnet.com.br
Recebido
em 17/09/2004
*
Psicólogo, doutor em Psicologia pela PUC-Campinas. Coordenador do mestrado em
Educação e Sociedade da UNIPAC, é também professor titular do Instituto
Superior de Educação Anísio Teixeira / Fundação Helena Antipoff.
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Pró-Reitoria
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