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Friday, April 7, 2023

7 - Epilepsia e reliosidade - B

 


7 - Epilepsia e Religiosidade - B ( Descrição incompleta )

...testemunho do momento, poderiam eventualmente se transformar em protagonistas, quando a questão em pauta fosse a geração de arte por individuos com epilepsia.
      Um fator que potencialmente contribuiu para estigmatizar, de maneira certamente positiva, grandes personagens ou gênios das literaturas e das artes, é a definição de estados melancólicos associados à eles. Em outras palavras, o gênio sempre foi associado a estados taciturnos. Segundo Yacubian ( 2000 ), na renascença, a observação de que todos os homens excepcionais haviam sido melancólicos fez com que florescece a idéia de que grandes homens seriam particularmente propensos à epilepsia. Se a definição de doença mental não estava estabelecida nestas épocas, óbvios nexos foram traçados ( nem sempre mensuráveis ) entre doença mental e genialidade ( Andreasen, 1987 )
      Relatos mais recentes confirmam estes perfis ao demonstrarem como as grandes produções de ícones da literatura universal estavam associados à ciclotimia, depreção ou euforia dos mesmos. Jamison ( 1995 ), por exemplo, falando sobre doença maniaco-depressiva e criatividade, mostra como temperamento e estilo cognitivo especifico associados às desordens do humor podem de fato aumentar a criatividade em alguns indivíduos. Comenta este autor que, da mesma maneira que a taxa de suicidios é bem aumentada entre individuos deprimidos que se destacaram pela sua produção artística, os ciclos do humor a que eles estavam submetidos afetou também sua produtividade. Jamilson ( 1995 ) cita entre outros, o exemplo de Robert Schumann, cuja maioria das suas obras musicais foi composta na fase de hipomania, enquanto que a redução de sua produção ocorreu durante as fases de depressão.
      O quê falar então dos individuos portadores de epilepsias? Evidente que o fato de, por exemplo, o famoso pintor Holandês Van Gogh ( 1853 - 1890 ), ter apresentado um quadro compatível com crises epiléticas, embora discutido até hoje, junto com mais de 30 outras possibilidades diagnósticas, aguçou críticos, neurocientistas e historiadores, no sentido de estabelecer esta relação eventualmente causal entre epilepsia e genialidade. Sua história é a mais completa e a mais conhecida. Tentaremos usa-la como paradigma para as lições que esta relação pode nos ensinar.
      É notória a quantidade de estudos que tentam mostrar desde o diagnóstico da doença de Van Gogh, até a influência de seu estado clínico na sua produtividade. Gastalt ( 1956 ) confirmo os achados dos médicos que trataram Van Gogh, identificando uma epilepcia do lobo temporal precipitada pelo uso de absinto ( Bebida muito comun na França, entre todos os artistas da época ) na presença de antiga lesão límbica com sintomatologia de emocionalidade aumentada, viscosidade e hiposexualidade. Mais recentemente destaca-se entre essas obras o livro de Arnold ( 1992 ) onde de maneira bem detalhada, se discutem os aspectos que relacionam, além dos óbvios fatores associados à sua potencial epilepsia, tanto o impacto do uso de tintas, solventes e da bebida absinto no estado mental e neurológico e na criatividade do mestre. Na mesma linha, em rescente revisão,  Blumer ( 2002 ) relata como o quadro clínico de Van Gogh poderia estar relacionado de maneira multifatorial a estados de depressão pós-epilepsia, indusidas por efeitos pró-convulsivos do absinto. Não se destacaria uma lesão cerebral prévia possivelmente associada ao tipo de epilepsia temporal mesial. Blumer ( 2002 0 define as alterações comportamentais de Van Gogh como desordem disfórica interictal, sendo esta conjunto alternado e periódico de excitassão-depressão e episódios de fúria, que se associavam a atividade EEGráfica específica. Na realidade, Blumer ( 2002 ) resume como Van Gogh sofreu de dois episódios de depressão reativa, tendo apresentado sinais claros de doença bipolar. Além disso os dois episódios de depressão foram seguidos por períodos mantidos de energia extremamente alta e de entusiasmo, primeiro como evangelista, e depois como artista. Dos relatos de seu irmão Théo, e das cartas de Van Gogh a ele dirigidas, se conclui que, embora Van Gogh apresentasse comportamentos interictais compatíveis com alterações mentais pós-epilepsia, a sua maior produção foi feita em estado lúcido.
      Entre os pontos importantes que poderiamos derivar da história surpreendente de Van Gogh, esta a não interferência de seu estado mental ou neurológico, no sentido negativo, no seu desempenho artístico. De outro lado, a sua geniaçlidade superou as eventuais barreiras que seu quadro clínico poderia ocasionar. Mas, o que poderiamos pensar do epilético que chamamos de comun? Há uma série de programas que tentam incorporar indivíduos epiléticos à sociedade, já que conhecemos que, embora o tratamento eficiente situe o epilético como um indivíduo normal, melhorar sua qualidade de vida e remover o estigma social sempre serão metal obrigatórias.. Desta maneira os grandes nomes das artes e das letras são postos como exemplos de capacidade e competência, reveladas de maneira surpreendente, a pesar das suas epilepsias. Como por exemplo, no sítio Aura são colocados, revisão de livros, galerias de arte, incluindo fotos, colagens, pinturas e desenhos de indivíduos epiléticos, além das definições, sugestões, comentários sobre indivíduos com epilepsia. Em muitas dessas produções aparecem sequencias, depoimentos ou vivências que externam de maneira estética, as vezes bem crua, as suas experiências de vida. Como referência externa, os indivíduos que apresentam sindrome de savant mostram como cérebros submetidos ao limíte da sua capacidade funcional apresentam um potencial ilimitado enquanto a performances artisticas. Muitos desses indivíduos são Autistas, e mesmo assim, a pesar das suas alterações psicomotoras, perspectivas e sensório-motoras, se expressam por meio de arte, de maneira magistral, sendo uma das mais famosas Nádia ( selfe, 1977 ) Humphrey ( 1999 ) sugere, em artigo polêmico, que a expressão artística de Nádia pode ter sido consequencia de sua inabilidade linguística, o que o autor considera análogo com as mestes dos habitantes das cavernas da era do gelo. De fato não temos nenhum registro de autismo e epilepsia, portanto esta relação é difícil de ser avaliada no contexto desse artigo.
      Fora dos conceitos medievais sobre epilepsia e considerados pela ciência como arcaicos, o que acontece no nosso mundo contemporânea Em trabalhos sobre como são ilustrados eventos epiléticos no cinema, Kerson e Cols ( 1999 ) concluem que a visão que se passam nos filmes continua a ser distorcida, sensacionalista e apresentada da maneira bem amedrontadora, Curiosamente, tratamentos não convencionais, não medicamentosos de indivíduos com epilepsia - Por exemplo, tratamentos neurocomportamentais multidisciplinares e de curto prazo ( Reiter e Andrews, 2000 ) têm se mostrado úteis, não só no controle das crises e na redução dos níveis de AEDs, mas também têm trazido benefícios adicionais tais como melhora no desempenho profissional, nas artes e na ciência da computação. Se pensarmos um pouco, tsambém no mundo de hoje poderemos ter situações surpreendentes. Ishida e Cols ( 1998 ) entre outros, reportaram recentemente os sintomas clínicos de pacietes que assistindo ao programa japonês Pocket monsters, apresentaram crises epiléticas fotoativadas. Os autores concluiram que as crises foram induzidas por mudanças rápidas nas cores, já que todos os pacientes estudados tiveram suas crises quando foram expostos por alguns segundos à luzes vermelhas escuras e flashes de azul brilhante, alterando uma frequência de 2 Hz. Hoje não é mais segredo que epilepsias fotomioclônicas e a fotosensibilidade são um fato cietífico e clínico.
         Tanto a intenção do nosso cérebro com as cores como os ventos emocionais que podem ser modulados pela percepção das mesmas, certamente estão entre os fatores que podem ser considerados quando da relação entre artistas plásticos, genialidade e epilepsia. Sempre existe a pergunda de porque El greco distorcia suas imagens, ou porque Rembrandt pintava com aquele fundo escuro do qual eventualmente surgiam figuras extremamente iluminadas, e quais razões ópticas oftamológicas, técnicas ou filosóficas para o pontilhismo, ou para o impressionismo. Marmor e Ravin ( 1997 ) no seu maravilhoso trabalho The eye of the artist, ilustram de maneira bem clara como, em alguns casos, houve érios problemas de visão, associados à idade, à doenças degenerativas ou oculares, e em outros, foram escolhas técnicas e acadêmicas as que levaram esses artistas a executarem distorções ou decidirem por opçãoes estéticas específicas.
      Agora de que maneira nosso cérebro processa e contrasta informações simples, como a do flash, ou mesmo os padrões mais complexos de cores como aqueles contidos nos desenhos animados como acima mencionados? De uqe maneira o cérebro transforma esses sinais em indutores de hiperexscitabilidade e hipersincronismo ( epilepsia ), e como, na situação normal, de maneira coordenada, nos integra junto com outras modalidades sensoriais, por meios de processos de transdução e associativos, ao universo que nos rodeia? Obviamente este é o ponto que todos gostariamos de entender, e dele poderiamos derivar, mesmo que de maneira ainda precária, quais seriam os mecanismos do processo da informação estética, um elemento eventualmente emergencial e altamente subjetivo.
      No caso de Van Gogh, tanto arnoud ( 1992 ) quanto Blumer ( 2002 ) coincidem em que a maioria das melhores expressões artísticas deste grande mestre foram realizadas fora da esfera das intoxicações por absinto, fora dos quadros depressivos, e com uma lucidez extrema. Ao comentar justamente como o cérebro processa a informação estética, podemos nos encontrar com situações entre as quais aquelas dos indivíduos muito bem dotados ( gênios ) que extraem de objetos da natureza, assim como da própria sociedade humana, informação que às vezes não é perceptível ao comum das pessoas. Nesse campo entenderiamos a relação entre processamento cerebral e a nossa visão, digamos, convencional, a visão do dia-a-dia, ou eventualmente a diferença, se é que ela existe, entre visão dos mestres e a sua associação com genialidade. Um pouco dessa aventura de explicar como esses processos podem acontecer de maneira diferencial entre indivíduos comuns, observadores ou críticos de arte e artistas plásticos, tem sido tentada no recente e polêmico livro Inner vision: An exploretion of art and brain de Semir Zeki ( 1999 ) Nesse livro o autor comenta como as nossas percepções do valor estético, da cor, da luz-sombra e da perspectiva, contidas na obra de arte, dependem do funcionamento cerebral. Este autor salienta como a universalidade da percepção estética nos permite comunicarmos atravéz da arte sem precisar da palavra escrita ou falada. Numa tentativa semelhante,, a de expor uma teoria neurológica da experiência estética, Ramachandran e Hirstein ( 1999 ) Apresentam o que eles chamam das oito leis da experiência artística, a busca por universais, a busca pelo essencial. Nesse mesmo contexto é interessante mencionar o caso relatado por Finkelstein e cols ( 1998 ) de um joven de 27 anos que trabalhava com artesanato de mosaicos e até então não tinha mostrado nenhum interesse em desenho ou pintura. Foi a seguir admitido a um setor de neurologia com comportamento bizarro e desordens convulsivas. Durante algumas das crises o paciente impulsivamente iniciou desenhos, atividade esta quer estava EEGraficamente associada a paroxismos ictais feronto-temporais esquerdos, coincidindo com hipofluxo no SPECT na mesma região. Os autores sugerem se tratar de um fenômeno desinibitório, na medida que estes testes psicodiagnósticos mostraram hipofunção da região frontal esquerda, talvez induzida por depreção alastrante do hemisfério esquerdo, enquanto que funções do lobo direito permaneciam intactas. Parte da controvérsia sobre neurologia da função estética está retratada em Zeki ( 2001 ) e Ione ( 2000 )
      Embora tenhamos nos atidos nesta série de comentarios aos artistas das artes visuais, uma grande quantidade de exemplos advindo de outras esferas das artes, devem ser listados. Muitos deles foram comentados no artigo da Dra. Yacubian, no presente volume, e outros tantos aparecem em farta literatura ao respeito ( Jamilson, 1995; Andreasen, 1987 ) Por exemplo, segundo Guerreiro ( 2000 ) Machado de Assis apresentava epilepsia sintomática localizada, com crises parciais complexas que generalizavam secundariamente. A consequencia mais negativa da epilepsia deste grande escritor Brasileiro foi o sofrimento psicológico devido a rejeição que sofreu em sua época. Guerreiro ( 2000 ) destaca que a pesar disto, Machado de Assis mostrou ser um grande gênio ainda atual e universal. Finalmente segundo Bazil ( 2001 ), Edgar Allan Poe, um dos mais celebrados escritores americanos sofreu também de sintomatologia compatível com um quadro epilético: episódios de perda da consciência, confusão e/ou paranóia. Embora esses sintomas tenham sido atribuidos a álcool ou abuso de drogas, eles também poderiam representar crises parciais complexas, estados pós-ictais prolongados ou psicose pós-ictal.
      Concluindo, arte e epilepsia se fundem tanto quanto arte e ciência. Os avanços da ciência não conseguem ainda explicar o significado final da arte como expressão fina e elaborada da função cerebral. Também não explicam como funciona o cérebro do artista, e as nuances que acompanham o desempenho artístico modulado por circunstâncias técnicas, por estados emocionais ou por questões orgânicas. Nenhuma dessas limitações nos impede de aceitar que, mesmo em indivíduos com lesões severas, como no caso dos savants, e em casos bem mais amenos, como os de individuos com epilepsia ( Excessão feitas são as epilepsías catastróficas e as várias formas de epilepsias farmacorresistentes ), a expressão das artes plásticas podem não estar prejudicadas ou eventualmente estar até aumentadas. Os critérios para definir estas interações depende de uma série enorme de fatores que quando considerados em conjunto são vinculados mais à nossa visão aberta e abrangente do universo e da sociedade em que vivemos, do que às restrições que acompanham o portador de epilepsia.
      O desenho de ictus, executado pelo autor em 1987 retrata a necessidade de visões inicialmente fenomenológicas ( semiologia, etologia ) das epilepsias, com toda carga emocional e clinica que a sua expressão possa acarretar ao indivíduo que tem epilepsia e mesmo ao seu observador ( familiar, médico ) Adicionalmente retrata a necessidade de entender através da pesquiza, os mecanismos celulares e moleculares que podem ser caracterizados para oferecer diagnóstico e terapêuticas, tanto farmacológicas quanto comportamentais e cirúrgicas. Dessa visão integrada depende a possibilidade da ciência oferecer bem estar e qualidade de vida, enquanto investigadora desses fenômenos. As expressões artísticas destes individuos são um caminho adicional para o entendimento da surpreendente esfera de fatores que caracterizam a função cerebral que tanto apelo têm, embora de conhecimento limitado, para o p´roprio homem.
      Um argumento interessante tomado de Zeki ( 1999 ) é de que o cérebro é um belíssimo órgão, uma das maiores aquisições da evolução. Segundo ele, o conhecimento da sua operação e de seus produtos, incluindo aqui as obras de arte que têm enriquecido nossas culturas e que todos nós admiramos, simplesmente aumenta nossa sensação de maravilhamento e beleza, já que como consequência começamos a admirar não só o produto, mas o órgão que é capaz de produzi-las.

Norberto Garcia-Cairasco é pesquisador do laboratório de Neurofisiologia e neuroetologia Experimental. Departamento de Fisiologia. Faculdade de medicina de Ribeirão preto. Universidade de São paulo.

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