Percepção de estigma na
epilepsia
Perception epilepsy'
stigma
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INTRODUÇÃO: Pessoas com
epilepsia frequentemente vivenciam o estigma, muitas vezes mais prejudicial que
a própria condição em si. De maneira geral, pode-se dizer que a epilepsia é uma
das condições que mais afeta o comportamento e a qualidade de vida, não só da
pessoa que tem epilepsia, mas também da família toda, especialmente devido ao
estigma existente. Por isso, dizemos que a epilepsia causa um impacto
bio-psicosocial na vida das pessoas. Porém, este aspecto do estigma na
epilepsia é pouco abordado, especialmente em países em desenvolvimento, como o
Brasil, onde superstições, atitudes negativas e falta de informação dificultam
a relação da comunidade com a epilepsia. OBJETIVO: Este artigo tem o objetivo
de discutir aspectos relevantes do estigma na epilepsia: conceituação e modelos
de estigma na área médica e social; estigma e qualidade de vida; fatores
operantes; aspectos neurobiológicos e estratégias para se lidar com o estigma
na epilepsia. CONCLUSÕES: Este artigo mostrou uma visão geral do estigma englobando
seus diferentes aspectos. Pelo fato de ser um conceito multifatorial, o combate
ao estigma requer também uma intervenção ampla, envolvendo as áreas médica,
psicológica e social. O entendimento do processo do estigma contribui para uma
mudança da interpretação social da epilepsia, rumo a construção de uma
sociedade mais justa e tolerante, na qual as diferenças sejam respeitadas.
estigma; qualidade de
vida; epilepsia
INTRODUCTION: People with
epilepsy often need to deal with the stigma, usually worse than the epilepsy
itself. In general, epilepsy is a condition that affects the behavior and the
quality of life, not only for the person with epilepsy, but also for the entire
family, especially because of stigma. For this reason, we can say that epilepsy
has an bio-psycho-social impact on the people's life. Paradoxically, this facet
of epilepsy is not often studied, especially in resource-poor countries, as
Brazil, where superstitions, negative attitudes and lack of knowledge impair
the relation between the community and people with epilepsy. PURPOSE: This
article has the objective to introduce important aspects of stigma in epilepsy:
conceptualization and models of stigma in the medical and social area; stigma
and quality of life; neurobiological aspects and strategies to deal with it.
CONCLUSIONS: This paper provides an overview of the stigma, including its
different aspects. Stigma is a multifactorial concept and for this reason, to
combat stigma it requires a broad intervention, involving medical,
psychological and social areas. The understanding of the process of stigma
contributes to a change of the social interpretation of the epilepsy, in a
direction of a construction of a society more tolerant, where the differences
are respected.
stigma; quality of life;
epilepsy
REVIEW ARTICLE
Percepção de estigma na
epilepsia
Perception epilepsy'
stigma
Paula Teixeira FernandesI;
Li Min LiII
IPsicóloga. Doutora em
Neurociências, Departamento de Neurologia da Faculdade de Ciencias Médicas da
UNICAMP. Presidente da ASPE
IIMédico. Doutor em
Neurociências pela McGill University (Canadá). Professor associado do
Departamento de Neurologia da FCM/UNICAMP. Presidente fundador da ASPE.
Departamento de Psicologia
Assistência à Saúde
de Pacientes com Epilepsia
www.aspebrasil.org
Endereço para
correspondência
RESUMO
INTRODUÇÃO: Pessoas com
epilepsia frequentemente vivenciam o estigma, muitas vezes mais prejudicial que
a própria condição em si. De maneira geral, pode-se dizer que a epilepsia é uma
das condições que mais afeta o comportamento e a qualidade de vida, não só da
pessoa que tem epilepsia, mas também da família toda, especialmente devido ao
estigma existente. Por isso, dizemos que a epilepsia causa um impacto
bio-psicosocial na vida das pessoas. Porém, este aspecto do estigma na
epilepsia é pouco abordado, especialmente em países em desenvolvimento, como o
Brasil, onde superstições, atitudes negativas e falta de informação dificultam
a relação da comunidade com a epilepsia.
OBJETIVO: Este artigo tem
o objetivo de discutir aspectos relevantes do estigma na epilepsia:
conceituação e modelos de estigma na área médica e social; estigma e qualidade
de vida; fatores operantes; aspectos neurobiológicos e estratégias para se
lidar com o estigma na epilepsia. CONCLUSÕES: Este artigo mostrou uma visão
geral do estigma englobando seus diferentes aspectos. Pelo fato de ser um
conceito multifatorial, o combate ao estigma requer também uma intervenção
ampla, envolvendo as áreas médica, psicológica e social. O entendimento do
processo do estigma contribui para uma mudança da interpretação social da
epilepsia, rumo a construção de uma sociedade mais justa e tolerante, na qual
as diferenças sejam respeitadas.
Unitermos: estigma,
qualidade de vida, epilepsia.
ABSTRACT
INTRODUCTION: People with
epilepsy often need to deal with the stigma, usually worse than the epilepsy
itself. In general, epilepsy is a condition that affects the behavior and the
quality of life, not only for the person with epilepsy, but also for the entire
family, especially because of stigma. For this reason, we can say that epilepsy
has an bio-psycho-social impact on the people's life. Paradoxically, this facet
of epilepsy is not often studied, especially in resource-poor countries, as
Brazil, where superstitions, negative attitudes and lack of knowledge impair
the relation between the community and people with epilepsy.
PURPOSE: This article has
the objective to introduce important aspects of stigma in epilepsy:
conceptualization and models of stigma in the medical and social area; stigma
and quality of life; neurobiological aspects and strategies to deal with it.
CONCLUSIONS: This paper
provides an overview of the stigma, including its different aspects. Stigma is
a multifactorial concept and for this reason, to combat stigma it requires a
broad intervention, involving medical, psychological and social areas. The
understanding of the process of stigma contributes to a change of the social
interpretation of the epilepsy, in a direction of a construction of a society
more tolerant, where the differences are respected.
Key words: stigma, quality
of life, epilepsy.
INTRODUÇÃO
Estigma é um conceito que
vem sendo estudado há muitos anos. Na literatura, o conceito de estigma vem
sendo aplicado em diferentes situações, como hanseníase(1), câncer(2) e doenças
mentais(3,4). Até hoje, o termo estigma é usado para definir uma característica
diferente do "normal" e é comumente associada a doenças e condições
médicas(5).
Muitas condições sofrem
com o estigma, pois além de ser necessário lidar com os sintomas da doença, é
preciso considerar as crenças e mitos que a cercam e que resultam na
perpetuação do estigma na sociedade(6).
Na neurologia e,
especialmente na epilepsia, o preconceito é muito grande e muitas vezes, é
considerado mais estressante e prejudicial do que a própria condição em
si(7,8). O rótulo de ser "epiléptico", muitas vezes associado à
"personalidade epiléptica" leva à atenção pública, que por sua vez,
conduz à atitudes de discriminação(9,10).
O QUE É ESTIGMA?
Em muitas situações, a
definição de estigma é parecida com a existente nos dicionários ou com aspectos
relacionados a estereótipos negativos ou rejeição(3). Na língua portuguesa,
segundo o dicionário Aurélio(11), a palavra estigma é definida como "cicatriz,
sinal". Com o passar dos anos e o desenvolvimento dos estudos, a palavra
estigma começou a ser relacionada com degradação e muitos pesquisadores
começaram a estudá-la.
Nas doenças mentais, o
estigma provém do medo do desconhecido e de falsas crenças que originam a falta
de conhecimento e a não compreensão da situação. O estigma nestes casos isola o
indivíduo em relação aos outros, como se fosse uma pessoa marcada por antigas
crenças da doença. Por causa desta discriminação, quando em contato com novas
oportunidades de relacionamentos ou de emprego, a pessoa que tem ou teve uma
doença mental se esconde atrás de um "disfarce", de modo a manter sua
identidade secreta. Este disfarce é resultado do medo de ser rejeitado ou
desvalorizado devido a uma doença, como se esta fosse um mal(12,13). Além das
doenças mentais, a homossexualidade e o câncer eram vistas também como
condições extremamente estigmatizantes(14).
Na antiguidade clássica,
os gregos criaram o termo estigma para fazer referência a sinais corporais
extraordinários e ruins. A presença do estigma era característica de uma pessoa
marcada, ritualmente poluída e que devia ser evitada. Na era Cristã, o estigma
foi dividido em dois níveis: um de natureza sagrada, sendo que o estigma era
sinal corporal de graça divina e o outro, uma alusão médica de distúrbio
físico(15).
Goffman(15) foi quem
introduziu o conceito de estigma mais usado até hoje. Segundo ele, o estigma é
definido como referência a um atributo depreciativo, fraqueza ou desvantagem.
Em outras palavras, a pessoa estigmatizada é considerada como tendo uma característica
diferente da aceita pela sociedade e é tratada de maneira diferente pela
comunidade, que mostra conceitos errados e preconceituosos sobre o indivíduo.
Para Goffman(15), existem três tipos de estigma: 1. anormalidades do corpo
(deformidades físicas), 2. culpas de caráter individual (crenças falsas e
rígidas, alcoolismo, homossexualidade, desemprego, vícios), 3. estigmas tribais
de raça, nação e religião.
Becker(16) deu
continuidade a este conceito ressaltando que os grupos sociais criam normas,
cujas infrações constituem desvios e as pessoas que infringem estas normas são
rotuladas como diferentes das demais. De acordo com seu ponto de vista, o
estigma não é característica da atitude da pessoa, mas uma consequência da
aplicação de normas sociais.
Anos mais tarde, Jones e
colaboradores(17), a partir da observação do estudo de Goffman, falam que o
estigma é a relação existente entre o atributo e o estereótipo, ou seja, é uma
característica (atributo) que aproxima a pessoa de características indesejáveis
(estereótipo).
Pouco depois, Stafford e
Scott(18) definiram o estigma como sendo uma característica da pessoa contrária
à norma social. Crocker e colaboradores(19) sugeriram que a pessoa
estigmatizada possui, ou acredita que possui, um atributo que é desvalorizado
em contextos sociais particulares.
Tempos mais tarde,
Reingold(20) ampliou os tipos de estigma propostos por Goffman para cinco
grupos: 1. comportamentos (abuso de álcool e drogas, homossexualidade, abuso
sexual), 2. anormalidades estruturais (problemas faciais, pigmentação da pele vitiligo, problemas
corporais
obesidade), 3. anormalidades funcionais (físicas,
motoras, mentais, de linguagem, de audição
e outras
epilepsia), 4. doenças
contagiosas (AIDS, tuberculose, doenças
sexualmente transmissíveis),
5. outros (câncer).
Uma das razões pelo fato
do termo estigma possuir uma infinidade de definições é o uso em inúmeras
condições, sendo que cada definição diz respeito à características específicas
de cada situação ou condição em particular. Outro motivo da variabilidade de
conceitos sobre estigma pode residir no fato de que o estudo do estigma é
multidisciplinar, com contribuições de diferentes áreas, como psicologia,
sociologia, antropologia, entre outras. Desta maneira, os estudiosos do tema
dão suas definições de acordo com suas orientações teóricas, o que pode
resultar em diferentes visões sobre o mesmo tema(3).
Existem inúmeras
implicações para uma pessoa que se sente estigmatizada. Segundo Ryan et
al.(21), o estigma está no valor dado por outras pessoas perante uma situação e
para muitas delas, o estigma é um "companheiro diário"(14). Com isso,
são afetados vários aspectos pessoais do indivíduo, como auto-estima,
autoconfiança e qualidade de vida(14,22).
MODELOS DE ESTIGMA
Na literatura, existem
vários modelos para a explicação do estigma. Alguns dão ênfase à maneira de
perceber o estigma ou aos tipos existentes, outros enfatizam as etapas em um
processo de estigma. O mais importante é analisar estes modelos e aproveitar os
pontos positivos de cada um deles.
O primeiro deles,
desenvolvido por Goffman(15), distingue dois tipos de estigma: estigma visível
e estigma invisível. O visível é percebido ou sentido pelas pessoas que possuem
uma característica aparente e, por isso, a maior preocupação é centrada na maneira
de lidar com a tensão gerada na interação com a sociedade. O estigma invisível
só se torna real quando a característica é revelada, direta ou indiretamente.
Dessa forma, surge um outro problema: o controle da informação de sua própria
condição. Por isso, em muitas condições, as pessoas escondem sua doença por
vergonha ou medo de serem julgadas ou estigmatizadas(9,14,23,24).
Dois grupos de trabalho,
Link & Phelan(3) e Jones et al. (1984), formularam modelos alternativos
para o estigma que, apesar de possuírem passos diferentes, representam um mesmo
paradigma no processo do estigma.
Jones e colaboradores(17),
em seu modelo de estigma, propuseram seis dimensões: 1. o quanto a
característica estigmatizante é visível para a sociedade; 2. duração desta
característica; 3. o quanto interfere nas relações interpessoais do indivíduo;
4. reações subjetivas frente à característica estigmatizante; 5. a origem da
característica (acidente, doença, etc) e 6. o perigo que esta condição pode
causar para outras pessoas.
Para Link & Phelan(3),
o estigma envolve cinco processos sociais. No primeiro, as pessoas distinguem e
rotulam diferenças nas pessoas. Segundo, as crenças das culturas dominantes
relacionam as características indesejáveis à estereótipos negativos e as
pessoas começam a perceber que são "diferentes". No terceiro processo
social, as pessoas rotuladas são distribuídas em categorias distintas e
conseqüentemente, separadas das outras. No quarto processo, as pessoas
rotuladas vivenciam a perda de status social e a discriminação. E o quinto
processo é a força do estigma, como sendo a produção social do estigma.
Além destes modelos,
Ablon(14) propôs cinco dimensões para se entender melhor o processo do estigma
nas condições de saúde: natureza da condição, fontes que criam e perpetuam o
estigma, natureza das populações estigmatizadas, tratamentos e estratégias de
enfrentamento. A natureza da condição refere-se à compreensão da condição em
si, ou seja, qual a história da mesma, quais suas características para o
estigma. As fontes que criam ou perpetuam o estigma envolvem atitudes e regras
familiares, escolares e sociais. A natureza da população estigmatizada enfoca o
tipo de sociedade em que vivem estas populações, pois pessoas privadas de
benefícios e serviços de saúde tendem a sentir maior estigma. Os tipos de
tratamento envolvem o entendimento dos que são realmente benéficos para o
paciente, na medida em que existem alguns tratamentos ilegais, que podem
aumentar os conflitos para o mesmo. E por último, as estratégias de
enfretamento dizem respeito à maneira pela qual os indivíduos estigmatizados
lidam com o estigma e com as dificuldades diárias.
ESTIGMA NA EPILEPSIA
Epilepsia é uma condição
associada com significativas conseqüências psico-sociais e o fator central é
sua natureza estigmatizante(25). É considerada por Ablon(14) uma das doenças
crônicas com maior nível de estigma, sendo que os pacientes relatam o estigma
como uma das grandes dificuldades que vivenciam com a epilepsia(26). O estigma
na epilepsia inicia-se já com a origem de seu nome, pois epilepsia é uma
palavra de origem grega que significa ser invadido, dominado ou possuído. Com
isso, podemos ter uma explicação mágica, sobrenatural, associada com possessão
por espíritos divinos ou malignos(27).
Registros da antiguidade
mostram que o estigma na epilepsia não é uma questão recente. Já nos anos 2000
a.C., as pedras babilônicas possuíam descrições de algumas manifestações
clínicas que hoje podem ser caracterizadas como crises epilépticas(28). Desde
aquela época, o preconceito existia: os escravos podiam ser devolvidos e
contrato rescindido se a pessoa apresentasse crises no prazo de um mês depois
de sua contratação29. Até 1970, em alguns países do mundo, como Reino Unido, as
pessoas com epilepsia eram proibidas de se casarem22.
Na Bíblia, também aparecem
passagens que falam da epilepsia. Em São Marcos, capítulo IX, versículos 13 a
28, aparece uma parábola onde Jesus expulsa o demônio do corpo de um menino,
que apresentava convulsões, com prece e orações(30).
Além disso, a epilepsia
também foi retratada em pinturas. Apesar de haver contestações, em uma obra do
Vaticano, há uma obra, chamada "Transfiguração de Rafael", que
retrata um menino em uma postura que representa uma crise epiléptica(27).
Historicamente, a
epilepsia tem sido conceituada como diferente e esta diferença envolve a
aplicação de normas e regras contra as pessoas rotuladas
"epilépticas"(31). O diagnóstico inicial da epilepsia traz dúvidas
sobre as crises, as drogas anti-epilépticas e o medo da reação dos outros. Além
disso, as pessoas possuem suas próprias crenças sobre a condição, o que pode
contribuir para as atitudes de estigma(32).
Na epilepsia, o estigma
tem sido considerado um dos mais significativos fatores que influenciam
negativamente a vida diária do paciente e sua família(31,33,34). Na epilepsia,
o estigma afeta as pessoas de diferentes maneiras, podendo influenciar as relações
sociais, as oportunidades escolares e de emprego e os aspectos
emocionais(32,35,36).
Alguns autores15 falam que
a epilepsia é uma condição estigmatizante, pois as pessoas não se adequam às
normas sociais devido às crises imprevisíveis, muitas vezes de natureza
dramática. Com isso, a sociedade tem medo de lidar com uma pessoa tendo crise epiléptica.
Em 1972, Bagley(37) dizia
que a persistência das teorias que consideram a epilepsia como maléfica e
estigmatizante são baseadas no "terror anônimo", no qual as pessoas
com crise fazem exatamente o que outras temem fazer: perder o controle e retroceder
a um estado mais primitivo de existência.
Anos mais tarde, Ablon(14)
complementa os achados de Goffman, dizendo que os sintomas da epilepsia afetam
os valores da sociedade, pois estes prezam o controle e a previsibilidade das
situações, o que não ocorre na epilepsia. Diiorio et al.(5) acrescentam que a
epilepsia é uma condição propensa ao estigma por causa do não controle das
crises, o que gera medo e inquietação.
Devido ao caráter
inesperado das crises, a epilepsia sempre possuiu um caráter místico,
dependente de interferências sobrenaturais, sendo conhecida como o "mal
sagrado". Por causa de sua incerteza clínica e do seu significado social,
o impacto da epilepsia da vida das pessoas é muito significativo(38).
Desde o diagnóstico da
epilepsia, aparecem mudanças mudança na percepção e no grau de controle da
pessoa. A partir dele, surgem dúvidas e questionamentos, que quando não
respondidos, elevam a ansiedade e o stress, propiciando medo e confusão.
Aparece o medo de ser diferente, a preocupação quanto ao futuro, acompanhados
da dificuldade para se inserir na comunidade, para conseguir um emprego ou
formar uma família, causando problemas no bem-estar e na autonomia da
pessoa(9,39).
De acordo com Hermann
& Whitman(40), existem três grupos de variáveis que influenciam este
impacto da epilepsia na vida do indivíduo: 1. variáveis da epilepsia (idade de
início, grau de controle das crises, duração e tipo da crise, etiologia); 2.
variáveis medicamentosas (tipo e dosagem da medicação anti-epiléptica, nível
sérico); 3. variáveis psico-sociais (medo das crises, estigma percebido e senso
de discriminação, grau de ajustamento ao diagnóstico, suporte social). Separar
estes três grupos é um pouco difícil, mas ter uma noção dos mesmos auxilia no
entendimento do impacto geral desta condição na vida diária da pessoa com
epilepsia(41).
Com isso, existe uma
percepção negativa da epilepsia que, junto com o estigma associado, é
legitimada pelas pessoas com epilepsia22,42. A epilepsia passa a significar
perdas em diferentes áreas, tais como: física, saúde, emprego, relações sociais
e familiares. Auto-estima e auto-confiança também são afetadas, contribuindo
para uma diminuição da qualidade de vida. Quando a pessoa se vê como
"epiléptica", um mundo de significados e crenças é ativado,
influenciando negativamente seu ajustamento psico-social. Como resultado, a não
aceitação ou a rejeição do diagnóstico de epilepsia passa a ser a maneira mais
simples e rápida encontrada pelos pacientes neste primeiro momento. O medo e a
vergonha passam a ser comuns na convivência diária com a epilepsia. Por causa
da percepção do preconceito, os pacientes com epilepsia, na tentativa de se
sentirem "normais", escondem seu diagnóstico e sua condição. Por
sentirem sua identidade ameaçada, encontram formas de controlar a informação
sobre sua condição: ou escondem o que tem ou usam termos mais suaves para a
descreverem. O segredo passa a ser peça fundamental na adaptação destas
pessoas, e o esforço que fazem para manter esta informação em segredo é
proporcional à intensidade do estigma percebido(24).
Além disso, para uma
pessoa sentir-se estigmatizada é necessário que ela acredite nas idéias
inadequadas da comunidade. Muitas pessoas não se sentem mais capazes para lidar
com esta situação, o que produz alterações comportamentais (vergonha,
insegurança, isolamento) e maiores dificuldades de ajustamento
psico-social(9,22,31,32,43). A partir daí, desenvolvem características
negativas, que acreditam ser reais e que, segundo Scambler & Hopkins(9),
reduzem as oportunidades. Tudo isso influencia negativamente sua qualidade de
vida e reforça o estigma existente, gerando possibilidades maiores de ansiedade
e depressão e baixos níveis de auto-estima e autoconfiança(41,44-46).
Além disso, ainda nos dias
de hoje, é comum encontrarmos lacunas no conhecimento sobre epilepsia. Alguns
pacientes ainda acreditam que as crises representam um tipo de maldição ou
aflição espiritual. Outros parecem ter sensações diferentes durante as crises
que ocultam para seus médicos e outros profissionais envolvidos, por causa do
receio de serem considerados "loucos"(47,48). Com estas informações
inadequadas, aparecem as atitudes negativas perante a epilepsia, que são tidas
como um fenômeno comum no mundo todo, sendo considerado o maior causador de
discriminação social contra as pessoas com epilepsia(14,14,49).
Devido ao preconceito e às
atitudes negativas, as pessoas com epilepsia tendem a enfrentar problemas
psico-sociais, como medo, vergonha, isolamento social, dificuldades nos
relacionamentos sociais, restrição de atividades, entre outros. A partir daí, o
paciente deixa de se inserir na sociedade, pois não consegue um emprego, não se
sente aceito e tem dificuldades para formar uma família. Por esta razão, além
de exigir uma adaptação a um novo estilo de vida, a epilepsia também exige uma
redefinição de identidade das pessoas. Porém, em cada fase da vida, a epilepsia
afeta diferentes aspectos.
Quando a epilepsia tem seu
início na infância, o estigma é desencadeado já na primeira crise. Com o
diagnóstico da epilepsia, na maioria das vezes, os pais apresentam sentimentos
de ansiedade, culpa e tristeza(50). Estes sentimentos fazem com que os pais se
comportem de maneira inapropriada, exibindo superproteção, permissividade
excessiva ou rejeição e baixa expectativa. Os pais parecem tratar as crianças
como doentes, achando que qualquer atividade pode precipitar uma crise(51). A
partir destas reações dos pais, as crianças consequentemente aprendem que há
algo de errado com elas e apresentam comportamentos de dependência,
insegurança, irritação e imaturidade. Dessa maneira, o estigma é perpetuado na
família, fazendo com que tenha menor qualidade de vida e mais restrições de
atividades e de comunicação(52). É importante ressaltar que a maneira com que
os pais reagem à epilepsia forma a base de como as crianças vão interpretar a
epilepsia e se relacionar com outras pessoas, influenciando a dinâmica familiar
e o ajustamento psico-social(53). A escola pode ser considerada também um outro
tipo de dificuldade para a criança, pois o início da vida escolar significa um
evento significativo, representado o primeiro contato com as interações
sociais, normas e valores. Entretanto, se a criança é tratada como diferente e
se sente como tal, podem aparecer os primeiros problemas nas relações
interpessoais ou até no desempenho acadêmico(14).
Na adolescência, por ser
uma fase de mudanças e questionamentos, as principais dificuldades parecem
estar relacionadas ao prognóstico da epilepsia, por existir o desejo de
independência e de autonomia dos jovens. A epilepsia começa a afetar diferentes
áreas: estudos, relacionamentos sociais, possibilidade de dirigir e de tomar
bebidas alcoólicas, sexualidade, restrições de lazer, entre outros(54). Além
disso, existe o receio da crise ocorrer em público por medo da consequente
exclusão social. A autonomia se contrapõe à imprevisibilidade das crises, o
desejo de agrupamento ao preconceito existente em nossa sociedade. Com todas
estas incertezas, o adolescente tem sua auto-estima e auto-confiança abaladas,
pois começa a se achar diferente de outras pessoas, o que limita suas
oportunidades de crescimento pessoal e profissional.
Quando adultas, as pessoas
estão mais estabilizadas em suas profissões e estilos de vida e, por isso, a
epilepsia desencadeia implicações negativas nas relações sociais e no emprego,
gerando conflitos familiares, sociais e econômicos(36). Altas taxas de desemprego
ou subemprego parecem contingentes às situações de discriminação. Baixos
índices de casamento podem ser explicados pelo limitado contato social,
associado ao medo da rejeição. A baixa auto-estima e a pobre qualidade de vida
dos adultos com epilepsia parece ser resultado da percepção do estigma e das
dificuldades no trabalho e nos relacionamentos(55). Além disso, quando as
pessoas com epilepsia já estão no papel de pais, muitas vezes se sentem
envergonhados e incapacitados em lidar com as crianças, por apresentarem crises
diante delas.
Diante do exposto, podemos
dizer que o estigma na epilepsia é alterado de acordo com a situação no qual
está inserido. Na área familiar, estão operando fatores relacionados à maneira
como cuidar da pessoa com epilepsia; na área médica, o tratamento é o diferencial,
sendo que não é esperado que exista falta de conhecimento; na área social, o
medo da crise em público chama atenção, especialmente devido ao desconhecimento
existente.
Um importante aspecto
merece destaque com relação ao estigma na epilepsia. Um estudo realizado em
Campinas(56) mostrou que existe uma diferença na percepção do estigma quando
utilizamos diferentes tipos de linguagem, no caso "pessoas com epilepsia"
e "epilépticos". As respostas mostram que a comunidade possui uma
percepção mais positiva com relação à epilepsia quando se fala em pessoas e não
em rótulos diretos. Com isso, podemos afirmar que a maneira como nos referimos
aos pacientes com epilepsia pode influenciar nossos comportamentos perante às
mesmas. O uso de rótulos sociais esconde a verdadeira identidade da pessoa e
contribui ainda mais para as dificuldades sociais e emocionais das pessoas com
epilepsia. Estudos realizados em diferentes locais do mundo mostram a
importância de fatores sociais no entendimento do estigma, em especial os
relacionamentos familiares e sociais, os aspectos emocionais, o trabalho e os
planos para o futuro(22,38,57).
Uma das maneiras de se
explicar as diferenças na percepção do estigma leva em conta o modelo de
estigma na epilepsia como um processo contínuo de elementos interligados(58).
Com base nos modelos já propostos por diferentes pesquisadores da área,
elaboramos um modelo próprio de estigma na epilepsia no qual o estigma
inicia-se com uma característica, que pode ser visível ou invisível. Com isso,
aparece a percepção subjetiva que cada pessoa tem da condição e da
característica estigmatizante, que depende de experiências pessoais e história
de vida. A partir desta percepção, as pessoas interagem com o ambiente,
percebendo se esta característica interfere nestas relações sociais. Quando a
pessoa se coloca no mundo, fica sujeita à discriminar ou à discriminação e com
isso, começa a reagir a partir de suas experiências pessoais e história de
vida. De maneira simples, podemos perceber neste modelo que o estigma na
epilepsia é um processo que envolve cinco passos distintos, mas interligados. A
partir da percepção da característica diferente, que é dependente das
experiências pessoais e de aprendizagem, a pessoa tem uma maneira específica de
perceber o estigma e de lidar com o mesmo.
A partir deste modelo, foi
feito um estudo sobre a percepção de estigma na epilepsia na cidade de
Campinas, como parte integrante do Projeto Demonstrativo Brasileiro da Campanha
Global "Epilepsia fora das Sombras"(59), executado pela ASPE (Assistência
à Saúde de Pacientes com Epilepsia). Neste estudo(58), realizamos uma pesquisa
epidemiológica na cidade de Campinas, SP (população aproximada: 1 milhão de
habitantes). O instrumento utilizado foi a Escala de Estigma na Epilepsia
(EEE)60,61 que contém 24 itens sobre a percepção do estigma na sociedade. Os
resultados deste estudo, envolvendo 1.850 sujeitos mostraram que a magnitude da
percepção do estigma na epilepsia varia de acordo com diferentes segmentos da
sociedade, enfatizando que aspectos sócio-culturais como sexo, religião e nível
de escolaridade são importantes fatores operantes de estigma.
ESTIGMA E QUALIDADE DE
VIDA NA EPILEPSIA
A epilepsia possui muitas
facetas que diferem de pessoa para pessoa e que acabam na maioria das vezes
comprometendo a qualidade de vida dos pacientes com epilepsia e suas
famílias(52,62-64).
Antigamente, os
profissionais da área da saúde não se preocupavam com os aspectos da qualidade
de vida de seus pacientes e sim, com os seus sintomas. Com o passar dos anos e
a evolução do conhecimento médico e social, passou a ser considerado também o
impacto da doença em todos os aspectos da vida do paciente, ou seja, a
qualidade de vida passou a ser um dos fatores influenciados pela doença(55,65).
Para se chegar a uma
definição mais satisfatória de qualidade de vida, algumas idéias foram
sugeridas para a uniformização e melhor definição do conceito, como estado
subjetivo de saúde e de estado funcional(66). Depois de vários estudos, a
Qualidade de Vida (QV) foi definida pela Organização Mundial de Saúde como
"a percepção do indivíduo de sua posição na vida, no contexto da cultura e
sistema de valores nos quais ele vive e em relação aos seus objetivos,
expectativas, padrões e preocupações"(67). Para contribuir para uma melhor
definição de qualidade de vida, Hornquist68 ressaltou a satisfação das
necessidades humanas como um dos principais fundamentos para a qualidade de
vida, sendo que a mesma poderia ser definida em termos de grau de satisfação
das necessidades física, psicológica, social, marital e estrutural. Calman(69)
acrescentou que a diferença entre as experiências reais e as expectativas da
pessoa define a qualidade de vida e Cramer(70) enfatizou o equilíbrio entre o
bem-estar percebido e o desejado.
Na área da saúde,
especialmente da epilepsia, a qualidade de vida refere-se à percepção
individual do bem-estar físico, psicológico e social do indivíduo. É um
conceito composto de três dimensões: física, mental e social. A dimensão física
diz respeito ao estado de saúde geral, considerando a freqüência e intensidade
das crises, os efeitos colaterais dos medicamentos e as tarefas de vida diária.
A dimensão referente aos aspectos mentais é caracterizada pela percepção do
estigma e do preconceito, condição emocional, auto-estima, transtornos
associados (depressão, ansiedade) e cognição. Os aspectos sociais da qualidade
de vida referem-se às atividades sociais no âmbito da família, do trabalho e
dos amigos(71).
Muito se tem falado sobre
os efeitos da qualidade de vida nas pessoas com epilepsia e suas
famílias(7,22). Apesar de ser um conceito utilizado há bastante tempo,
atualmente ganhou maior importância na prática clínica de condições
crônicas(71). Estudos têm mostrado que a epilepsia influencia a qualidade de
vida dos pacientes, pois estas pessoas possuem menores chances de casar e ter
filhos(72) e de conseguir ou manter um emprego(36).
Blummer & Herman(73)
citam os seguintes fatores que influenciam na qualidade de vida na epilepsia:
percepção do estigma e da discriminação, ajustamento à epilepsia, estado
ocupacional, medo das crises, preocupação financeira, mudanças de vida, apoio social
e lócus de controle. Além disso, vários estudos têm enfatizado a relação entre
estigma e qualidade de vida. Desde a década de 70 observa-se que o estigma tem
uma relação positiva com tristeza, depressão, ansiedade e sintomas somáticos e
uma relação negativa com auto-estima e qualidade de vida.
Schneider & Conrad(24)
e Scambler & Hopkins(26) identificaram o impacto da epilepsia nas
atividades de trabalho e escola, casamento e vida familiar. Anos mais tarde,
Jacoby(74) identificou que pacientes que se sentem estigmatizados possuem maior
preocupação sobre sua condição e seu futuro e baixos níveis de auto-estima e
autonomia, influenciando assim sua qualidade de vida. Anos depois, foram
evidenciadas algumas variáveis psicológicas que influenciam a qualidade de vida
da pessoa com epilepsia, as quais podemos destacar solidão, ajustamento
psico-social, estratégias de enfrentamento e percepção de estigma(7).
Recentemente, Morrell(32)
enfatizou a existência de uma relação negativa entre estigma e qualidade de
vida, ou seja, quanto maior o estigma existente, menor a qualidade de vida e
vice-versa. Segundo ela, os pacientes enfrentam problemas em algumas atividades,
como trabalhar e dirigir, que os legitimam socialmente e são essenciais para a
vida urbana. Por isso, é importante avaliar o impacto da epilepsia na qualidade
de vida destes pacientes para que as barreiras do preconceito e do estigma
sejam diminuídas.
Jacoby(22) ressaltou a
interferência da epilepsia na qualidade de vida das pessoas, uma vez que a
família toda sente o estigma, pois as dificuldades são espalhadas,
comprometendo a qualidade de vida não apenas do paciente, mas da família como
um todo. Além disso, ela salienta a relação entre estigma e qualidade de vida,
no sentido de que crenças e desinformação contribuem para a lacuna de
tratamento e conseqüentemente, para a diminuição da qualidade de vida e para o
aumento do estigma associado.
Todos estes dados fornecem
uma evidência da maneira pela qual o estigma influencia a vida das pessoas com
epilepsia e sugere possíveis correlações entre estigma e qualidade de vida.
Dessa maneira, considerar estes dois aspectos na vida do paciente com epilepsia
e da comunidade em que ele vive, reforça a necessidade de se ter uma visão
global do indivíduo, levando-se em consideração não apenas seus sintomas
físicos, mas também os aspectos psicológicos, incluindo o impacto da condição
na vida do paciente e da sociedade.
FATORES DESENCADEANTES E
OPERANTES DO ESTIGMA NA EPILEPSIA
Por ser um conceito
multifatorial, os fatores desencadeantes ou etiológicos do estigma também são
dependentes de múltiplos fatores. A falta de informação aliada à
imprevisibilidade das crises e sua incontrolabilidade, a incerteza quanto ao
prognóstico e o impacto social são importantes aspectos na determinação o
estigma na epilepsia(31,75). Além disso, características pessoais também podem
afetar, direta ou indiretamente, as respostas nas situações de
discriminação(24). Baker(76) e Morrel(32) sugerem que o estigma tem forte
relação com o aprendizado social e com o diagnóstico de epilepsia, além da
frequência e severidade das crises. Outros fatores importantes que conduzem ao
estigma na epilepsia: desconhecimento sobre a condição, pressão da mídia,
reação dos familiares (atitudes negativas) frente ao diagnóstico, generalização
das experiências de medo em outras situações(22).
A falta de
informação(14,22,31) está presente em grande parte das pessoas, especialmente
no que se refere à definição de epilepsia, suas causas, os tipos de tratamento
existentes e os procedimentos durante a crise. Por esta razão pode ser
considerada como um dos fatores operantes na perpetuação do estigma na
sociedade, como também observado por outros autores, em seus respectivos
países(22).
Esta desinformação da
população, ainda presente nos dias atuais é reforçada por idéias e crenças
inadequadas, provenientes do senso-comum, sem base científica. É comum ouvirmos
equívocos sobre a epilepsia, fazendo com que algumas pessoas sintam-se mais prejudicadas
com a consequência destas crenças do que com a própria condição em si(7). Estas
lacunas no conhecimento podem ser decorrentes de crenças relativas à epilepsia.
Isso pode gerar comportamentos inapropriados, como vimos neste estudo, trazendo
dificuldade nas relações sociais e aumentando os sentimentos de insegurança e
preocupação, que podem conduzir ao estigma(52). Geralmente, existe um alto
nível de ansiedade alimentado por crenças irracionais e pelo fato da epilepsia
vir associada a problemas de comportamento ou personalidade(51).
As principais crenças na
epilepsia referem-se a comportamentos durante a crise e consequências da
epilepsia. O medo do paciente engolir a língua, que aparece na maioria dos
sujeitos deste estudo, pode fazer com que muitas pessoas introduzam objetos
(caneta, dedos, pano) para evitar que a língua se enrole(77). Outra idéia comum
é o receio da epilepsia vir acompanhada de doença ou retardo mental77. Estas
idéias populares são errôneas, pouco empíricas e dificultam a obtenção das
metas da pessoa; por isso, são chamadas de crenças irracionais. Crenças deste
tipo, além de estarem baseadas na desinformação, podem interferir na qualidade
de vida das pessoas, aumentado o estigma existente e dificultando seu
ajustamento psicossocial(53).
Mas, é importante
ressaltar que este aspecto não é o único fator operante de estigma, pois além
da falta de conhecimento, existem comportamentos de discriminação (trabalho,
escola, relacionamentos sociais, atividades de lazer) e sentimentos negativos
(tristeza, fragilidade, inferioridade), que podem também estar relacionados à
origem e/ou à perpetuação do estigma na sociedade.
Um aspecto que deve ser
considerado é a relação do estigma com o trabalho, pois segundo vários autores,
o desemprego e o subemprego são identificados como sérios problemas na
epilepsia(36). O trabalho é considerado como um dos principais problemas que os
pacientes com epilepsia enfrentam no seu dia-a-dia(36,58). Muitas pessoas são
afastadas de seus cargos ou redirecionadas para outras áreas por causa da
epilepsia. Os que permanecem no trabalho vivem com a ansiedade e o medo de
perderem o emprego(36). Isso acontece por motivos que variam desde a
preocupação com a pessoa em crise e com os efeitos colaterais das medicações
anti-epilépticas, até o alto nível de preconceito existente em nossa sociedade.
Além disso, muito pacientes não conseguem emprego por terem tido menores
chances de se qualificarem na escola ou em trabalhos informais. Neste contexto,
é importante ressaltar que a formação escolar dos pacientes com epilepsia
parece ser um problema. Desde o início da vida escolar, que representa os
primeiros contatos com interações sociais e com futuras possibilidades de
trabalho, a pessoa com epilepsia enfrenta dificuldades(14). A crença de que
crianças com epilepsia vão apresentar algum comprometimento intelectual ou até
mesmo retardo mental parece colaborar com esta idéia(51).
Outro aspecto que merece
destaque refere-se aos relacionamentos interpessoais. Estudos14,22,75
demonstram que as pessoas com epilepsia têm maior dificuldade de estabelecer
contatos sociais e de formar uma família, o que é acentuado quando o estigma
aparece. Na nossa experiência(58), a grande maioria das pessoas com epilepsia,
independente de outros fatores, como região onde vive, sexo, religião, classe
social, diz que uma das principais dificuldades enfrentadas pelos pacientes
está relacionada à convivência social, amizades ou namoro.
As atividades de lazer
também são percebidas como problemas para as pessoas com epilepsia. Muitas
vezes, os pacientes deixam de frequentar lugares sociais pelo receio de terem
uma crise. Com isso, temos o chamado "estigma de cortesia"(15), através
do qual as pessoas que convivem com os pacientes sofrem, muitas vezes, as
mesmas privações dos mesmos. Neste sentido, percebemos o impacto socioeconômico
da epilepsia. Os responsáveis deixam de trabalhar para tomar conta dos
pacientes devido às crises ou às visitas regulares ao médico, interferindo
assim na sua rotina diária de trabalho e, conseqüentemente, na sua renda
familiar.
Familiares também evitam
participar das atividades sociais por vergonha ou por superproteção. A vergonha
ocorre pelo medo da reação de estigma dos outros e a superproteção, pelo
cuidado excessivo à estes pacientes. Como as crises são inesperadas e ocorrem
em freqüência imprevisível, a família geralmente utiliza comportamentos
inapropriados, como a superproteção, a permissividade excessiva, para compensar
a falta de controle que sente sobre as mesmas. Infelizmente, estas atitudes
contribuem para problemas de ajustamento e de estresse familiar, contribuindo
desfavoravelmente para o desenvolvimento adequado de toda a família(52).
BASES NEUROBIOLÓGICAS DO
ESTIGMA
De acordo com os dados
apresentados, podemos dizer que o estigma na epilepsia possui como principais
fatores operantes as variáveis psicossociais. Porém, é difícil distinguir os
fatores psicossociais dos neurobiológicos, uma vez que quando comparamos respostas
de estigma na sociedade, percebemos uma ampla variedade de respostas que
envolvem diferentes processos cognitivos de percepção e julgamento de uma
característica considerada "anormal" pela sociedade. Neste contexto,
agora vamos falar sobre as diferenças neurobiológicas e das redes neurais como
um dos mais novos modelos para se explicar as diferentes percepções de estigma
na epilepsia.
Freqüentemente, as pessoas
julgam características e comportamentos dos outros. Este julgamento pode ser
feito por crenças morais e por processos cognitivos e de aprendizagem(78,79).
Além disso, o funcionamento de redes neurais é envolvido em processos de
percepção, como é o caso da percepção do estigma(80). Pesquisas recentes(80,81)
enfatizaram o papel dos processos cognitivos, emocionais e intuitivos nas
decisões humanas e na socialização. Com isso, podemos adicionar o contexto
cultural, o processo e aprendizagem e o conhecimento social no processo do
estigma.
Estudos com
neuroimagem(79,81) e evidências clínicas(82) enfatizaram as redes neurais
envolvidas em alguns processos cognitivos, como o julgamento moral e o
comportamento humano em geral. De maneira geral, os aspectos morais são
resultados da integração entre o conhecimento social (córtex pré-frontal),
conhecimento semântico (córtex temporal posterior) e estados motivacionais
(sistema límbico). Nas habilidades sociais estão envolvidos: córtex
órbito-frontal e amígdala(78). Um outro estudo(83) mostrou que o córtex
pré-frontal e o sulco temporal são áreas responsáveis pela emoção e cognição
social. Estes estudos mostram que existe uma associação entre regiões
específicas do cérebro e funções específicas(84), sendo esse achado válido
também para funções cognitivas complexas como o controle cognitivo das
emoções(85).
Estudos realizados na
última década mostram que a ressonância magnética funcional (RMf) tem sido
largamente utilizada na avaliação de funcionamento cerebral. Dentro das
diferentes possibilidades técnicas, a mais utilizada é o contraste BOLD (Blood
Oxygenation Level Dependent)(86), no qual, a atividade funcional do cérebro
identificada é determinada pela subtração dos dois conjuntos de imagens (em
atividade e em repouso) decorrente da diferença na concentração de
desoxi-hemoglobina, resultante do metabolismo e fluxo sanguíneo ao córtex
ativado(87). Embora os mecanismos de acoplamento neurovascular e metabolismo
sejam ainda objetos de pesquisa, aceita-se que o efeito BOLD tenha uma relação
direta com a atividade neuronal(86,88). Neste contexto, a RMf pode fornecer
bases para estes processos cognitivos e emocionais. A integração de avaliação
de aspectos psicossocial e neuroimagem permite explorar as bases neurais
envolvidas na percepção do estigma na epilepsia. Com isso, podemos avaliar o
mecanismo básico responsável pelo preconceito e estigma. Qual é o modelo básico
de estigma na epilepsia? Por que, durante uma crise epiléptica, as pessoas
sentem medo, dó ou tristeza? Qual é a o estímulo que desencadeia o processo do
estigma?
Em um estudo piloto(89)
utilizando RMf, uma voluntária assistiu a um filme de uma crise epiléptica
tônico-clônica e o resultado mostrou ativação em algumas áreas cerebrais, tais
como: lobo parietal, áreas de Broadmann 9 (frontal inferior), 19 (occipital),
32 (giro do cíngulo
lobo límbico) e 37 (lobo temporal), além do giro frontal superior. Estes
resultados apontam para algumas regiões
descritas no processamento de cenas de contexto emocional ou no controle
cognitivo. Estudos deste tipo, que integram os aspectos psicossociais com a
interpretação neurobiológica, proporcionam um entendimento mais amplo de
processos emocionais e cognitivos na percepção do estigma na epilepsia. Porém,
ações práticas devem ser direcionadas para que a epilepsia seja vista sob uma
nova perspectiva. As estratégias podem abordar as diferentes fases do processo
de estigma, desde a informação adequada até mudanças comportamentais, para
combater seus efeitos negativos.
ESTRATÉGIAS PARA SE
REDUZIR O ESTIGMA NA EPILEPSIA
De maneira prática,
existem três principais formas de se trabalhar para conseguir a redução do
estigma na epilepsia: 1. campanhas na mídia; 2. trabalho bio-psicossocial com
pacientes e famílias; 3. programas de educação continuada.
1. Campanhas na mídia
São as chamadas campanhas
de desestigmatização ou de combate ao estigma.
Sabemos que informações
sobre epilepsia são ferramentas fundamentais para reduzir o impacto do estigma
na vida diária do paciente e seus familiares. Estudos sugerem que a informação
correta é um importante fator na melhora das habilidades para lidar adequadamente
com a epilepsia, através da diminuição do seu impacto social e psicológico e
oferecendo o potencial para melhores relações sociais(90). Porém, é importante
ressaltar que apenas informações não bastam. É preciso direcionar as
informações para alvos específicos(91).
É preciso que campanhas na
mídia de desestigmatização sejam feitas para mudar conhecimento e
comportamentos sociais na epilepsia, pois algumas percepções e atitudes
negativas podem ter sido induzidas por falsas crenças sobre epilepsia. Porém, o
ideal é que estas campanhas sejam direcionadas para públicos específicos, para
determinados segmentos da sociedade, considerando as diferenças de sexo,
religião, escolaridade e conhecimento prévio sobre o tema.
2. Trabalho
bio-psicossocial com pacientes e famílias
O trabalho
bio-psicossocial envolve o atendimento integral da pessoa com epilepsia e sua
família. Neste processo, é importante haver uma relação de troca entre as
variáveis bio-psicossociais para, junto com os aspectos relacionados ao estigma
na epilepsia, consigamos proporcionar uma atmosfera de entendimento, fazendo
com que as pessoas consigam se inserir adequadamente na sociedade. Este
trabalho consiste em: 1. atendimento médico adequado; 2. psicoterapia; 3.
grupos de apoio ou grupos educativos.
Atendimento médico adequado
O tratamento médico tem o
objetivo de controlar as crises e com isso, a qualidade de vida das pessoas com
epilepsia. Este tratamento deve considerar a prescrição adequada de medicação
antiepiléptica e o controle dos efeitos colaterais das mesmas. A partir do
momento em que o paciente passa a ter suas crises controladas, ele começa a se
sentir melhor e, com isso, passa a se inserir na sociedade de maneira mais
integral e plena.
Psicoterapia
É um processo no qual a
pessoa amplia a autoconsciência, aprendendo com seus sintomas e se
desenvolvendo como pessoa. Na epilepsia, a psicoterapia visa a aceitação de si
mesmo, a melhora da auto-estima e da autoconfiança, contribuindo assim para a
melhora da qualidade de vida e redução do estigma associado.
Grupos de apoio ou grupos educativos
São realizados com o
objetivo de propiciar a inserção social da pessoa com epilepsia. Estes grupos
podem ser realizados com profissionais da área da saúde e psicossocial,
professores, comunidades, pacientes, familiares e pessoas em geral que se
interessem por saber mais sobre epilepsia. Têm o objetivo de disseminar
conhecimentos adequados sobre epilepsia, através da troca de experiências,
permitindo às pessoas adquirir maior confiança no manejo da epilepsia,
diminuindo assim o estigma associado(92).
Com profissionais, o
objetivo do trabalho em grupo é debater com os mesmos o que é epilepsia, quais
são suas implicações práticas, suas causas e conseqüências, para que o paciente
e sua família deixem de ser vítimas de preconceito e estigma na comunidade,
contribuindo para seu fortalecimento(92).
O grupo com familiares
consolida a participação da família no processo de atenção ao paciente, pois
ela está sofrendo os impactos secundários e generalizados da epilepsia. A
família tem um papel mediador que favorece a recuperação do paciente, sendo que
relações familiares saudáveis são ricas fontes de suporte social do paciente,
sendo que quando os pais, cônjuges ou responsáveis têm maior conhecimento sobre
a epilepsia e suas conseqüências, melhora a qualidade de vida da família como
um todo(92).
Os grupos de pacientes com
epilepsia podem ser considerados um encontro de pessoas que compartilham da
mesma problemática e, através dos mesmos, é criado um espaço que permite a
troca de experiências e vivências. Estes grupos auxiliam no conhecimento de informações,
na discussão de medos, ansiedade e confusões a respeito desta condição, sendo
considerados uma oportunidade para compartilhar idéias, expressar sentimentos e
trocar experiências. Além disso, as pessoas podem aumentar seus conhecimentos,
discutir mágoas e desconfortos relacionados à epilepsia. É importante que as
pessoas participem de grupos para obterem melhores informações sobre epilepsia
e, consequentemente, diminuam o preconceito associado.
3. Programas de Educação
Continuada
Estes programas visam a
diminuição do estigma através da capacitação e educação continuada de
profissionais da área da saúde(6). Estes cursos são breves e proporcionam
atitudes mais adequadas no manejo da epilepsia.
Em primeiro lugar, é
importante ressaltar que os pacientes com epilepsia relatam que sua principal
fonte de informação vem de profissionais da saúde e, muitos deles, falam que
não recebem informação adequada(93). Recentemente, alguns autores têm salientado
a importância do conhecimento dos profissionais da saúde com relação à
epilepsia(31,59). Quando estes profissionais não têm informação adequada sobre
determinada condição, há uma distorção na relação profissional-paciente, o que
influencia a adesão ao tratamento(94). E na epilepsia, isso é fundamental, pois
sabemos que aproximadamente 70% dos casos são controlados quando o paciente
segue o tratamento corretamente(95,96).
Os pacientes acreditam que
os profissionais da saúde são as pessoas mais competentes para fornecer
informação sobre qualquer condição clínica(94) e, por isso, querem
informações(97). Por isso, a importância do conhecimento adequado destes
profissionais no manejo integral aos pacientes com epilepsia.
Além disso, é necessário
que professores sejam inseridos em programas deste tipo. Apesar de muitos já
terem presenciado uma crise epiléptica, desinformação e mitos ainda persistem.
A maioria deles não tem informações suficientes sobre a condição e suas conseqüências.
Há também lacunas de conhecimento no que diz respeito à área educacional, como
quociente intelectual ou receio da epilepsia estar acompanhada de retardo ou
doença mental, já apontada por outras pesquisas(47,51). Estes programas se
fazem necessários uma vez que os professores são considerados modelos para as
crianças, sendo importantes no desenvolvimento de idéias e de consciência
crítica para seus alunos, exercendo uma importante influência sobre os mesmos.
Uma pesquisa feita com
crianças de 10 anos de idade reforça a existência destes dados(98), pois 56%
das mesmas acreditam que epilepsia é uma doença que engole a língua, que é
contagiosa ou que pode matar. Crianças nesta faixa etária possuem idéias consideradas
como um reflexo das crenças sociais e da consciência coletiva sobre o
preconceito na epilepsia, podendo conduzir à perpetuação do estigma(58). As
crianças entrevistadas na escola mostraram conhecimentos espontâneos, sem
censura, mas infelizmente inadequados. Dizer que a epilepsia é uma doença que
mata, que enrola a língua ou que é contagiosa reflete pelo menos em parte a
atitude da sociedade perante esta condição. Isso porque as crianças verbalizam
naturalmente o que aprendem, tanto na família, como na escola, mostrando que a
sociedade em geral não tem conhecimentos adequados sobre a epilepsia,
facilitando assim a perpetuação do estigma(23).
Para isso, é fundamental
haver uma política de saúde e educação que envolva capacitação, reciclagem e
cursos de educação continuada. Se conseguirmos que estes profissionais, da área
de saúde e educação, tenham maior informação sobre epilepsia, teremos melhor
qualidade de vida para as pessoas com epilepsia.
CONCLUSÃO
Neste artigo, nós demos
uma visão geral do estigma com seus diferentes aspectos. Pelo fato de ser um
conceito multifatorial, o combate ao estigma requer também uma intervenção
ampla, envolvendo as áreas médica, psicológica e social(5). A partir das mudanças
ocorridas na prática médica, com uma visão mais global no atendimento ao
paciente, são considerados os aspectos psicológicos, sociais, comportamentais e
familiares das doenças, além do aspecto físico. Com isso, conseguimos a
retomada do modelo bio-psicossocial de saúde, que existe desde a época de
Hipócrates. Este modelo considera, além dos sintomas biológicos da doença, o
impacto exercido pelo estilo de vida e por variações pessoais e sociais sobre a
saúde do indivíduo(65).
A contribuição conjunta
dos vários fatores na origem e na perpetuação do estigma na epilepsia é um
passo importante para a mudança da interpretação social da epilepsia. Desta
maneira, a sociedade pode mudar sua maneira de ver e de tratar as pessoas com epilepsia,
conseguindo melhoras nas oportunidades de participação social e,
conseqüentemente, na diminuição do impacto socio-econômico da epilepsia. Só
assim, conseguiremos diminuir o estigma, construindo uma sociedade mais justa e
tolerante, na qual as diferenças sejam respeitadas.
Received Aug 01, 2006;
accepted Oct 06, 2006.
Departamento de Neurologia
Faculdade de Ciências Médicas (UNICAMP)
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