News nº115Setembro
2021(Visite a edição completa)
DO PASSADO AO PRESENTE
Tratamentos médicos
aplicados ao longo da História
Durante muitos séculos, na
cultura de vários povos, os conhecimentos médicos eram muito elementares e
estavam associados à religião e a práticas de magia.
A medicina era
fundamentalmente de ordem prática, eram experimentados remédios e as
recomendações médicas aconselhadas na maioria das vezes não levavam à cura mas
sim, à morte do paciente, sendo atualmente consideradas absurdas. No entanto,
alguns dos tratamentos utilizados eram considerados eficazes por várias
culturas, que acabaram por se tornarem em inspirações para algumas técnicas
utilizadas hoje em dia.
Na época, supunha-se que
as doenças manifestadas eram rotuladas como de castigos enviados pelos deuses
ou eram espíritos maus que se tinham introduzido no corpo do doente e que só o
podiam abandonar através de amuletos, feitiços e rituais.
Muitos dos conhecimentos
de então não chegaram aos nossos dias por se terem perdido no decorrer dos
tempos, devido a vários fatores como as intempéries, incêndios ou guerras, que
destruíam os locais onde se reunia o conhecimento, como aconteceu com o desaparecimento
da Biblioteca Real de Alexandria.
ilustração antiga de uma
biblioteca
Biblioteca Real da
Babilónia
Sabe-se que a fabulosa
cultura egípcia era muito avançada e que floresceu por mais de 3 mil anos a.C.
De acordo com o Papiro Ebers (datado aproximadamente de 1550 a.C.), um dos
tratados médicos mais antigos que chegou até aos nossos dias, menciona inúmeras
doenças como infeções e cáries dentárias, mas também receitas, bálsamos e
outros tratamentos onde eram incluídas frutas, mel, resinas, incenso e inúmeras
plantas, como documentam alguns dos antigos herbários encontrados em escavações
arqueológicas.
As próteses e restaurações
dentárias eram realizadas por algumas sociedades na antiguidade. Foi encontrado
no norte de Itália um dente humano, que remonta a cerca de 14 mil anos, com
indícios que tenha sido sujeito a tratamento.
Avicena (ca 980-1037)
recomendava para as cáries dentárias “queimar uma mistura feita de gordura de
cabra, meimendro e cebola em volta do paciente”, enquanto que Plínio, o Velho
(23-79) sugeria para a dor de dentes “capturar um sapo à meia-noite e cuspindo
na sua boca, pronunciando palavras "curativas".
Prótese egipcia de um dedo
do pé
Prótese egípcia
A cultura egípcia dava
grande importância à existência das próteses para os vivos, mas principalmente
para os mortos, pois supunham que depois da morte o corpo deveria alcançar o
Além de forma completa, inteiro e acompanhado de tudo o que fosse necessário
para a viagem.
A medicina egípcia era
muito desenvolvida, os seus praticantes tinham uma enorme noção acerca da
anatomia humana, devido à prática da mumificação. Durante a preparação dos
corpos tinham a oportunidade de analisá-los e, de acordo com a sua apresentação
faziam a associação com as doenças que as pessoas haviam sofrido em vida, o que
lhes fornecia conhecimentos suficientes para que praticassem a cirurgia, a
perfuração de crânios e a remoção de tumores.
De forma a tratar doenças
de cariz mental, convulsões epiléticas e enxaquecas, que supunham ter origem em
demónios e maus espíritos que se tinham incorporado no paciente, era comum a
realização da trepanação que consistia em perfurar o crânio do doente.
A trepanação é considerada
a intervenção cirúrgica mais antiga, julga-se que já era praticada no período
Mesolítico (10.000 a.C.), de acordo com os restos humanos encontrados. Esta
prática foi utilizada em várias épocas desde a cultura da americana pré-hispânica
até ao período do Renascimento, no entanto não sabemos se alguns destes doentes
sobreviveram após esta prática.
parte de uma pintura onde
é feita uma trepanação
A Extração da Pedra da
Loucura, pintura de Bosch, demonstrando a execução de uma trepanação
(c.1488-1516)
Na época de Hipócrates
(460-370 a.C.) pensava-se que a epilepsia surgia por vontade de deus. Este
médico grego acreditava que esta enfermidade era provocada pelo frio, pelo sol
ou pelo vento. Na Idade Média sugeriam o tratamento desta doença com orações e
água benta.
Crânio sujeito a
Trepanação
Fig. 4 - Crânio sujeito a
Trepanação
Em meados do século XIX,
no tratamento das doenças mentais era utilizada a cadeira giratória combinada
com “chuveiradas geladas, laxantes, terapia de coma insulínico e lobotomia
frontal”. A cadeira girava até que os doentes desmaiassem. Era suposto que desta
forma o paciente curava a ”esquizofrenia e outras doenças mentais,
“embaralhando” o conteúdo do cérebro”.
Chegou até nós alguma
informação acerca de como os “médicos” na antiguidade anestesiavam os doentes
para a prática da cirurgia. Na Mesopotâmia era empregue o ópio e o álcool, no
antigo Egito a anestesia utilizada era produzida “a partir do extrato de frutos
da mandrágora”, enquanto na China e na India era utilizada a cannabis, o
olíbano e o acônito.
ilustração antiga da
planta Mandrágora
Fig. 5 - Mandrágora
Para que pudessem ser
praticadas as cirurgias para o alívio do sofrimento dos pacientes foram
igualmente utilizados, por alguns povos, vários procedimentos como o método do
“Estrangulamento parcial”, obtido por asfixia até à inconsciência, altura em
que o cirurgião intervinha, a “Concussão
cerebral” obtida golpeando a cabeça do doente com um pedaço de madeira e com a
força suficiente para quebrar uma amêndoa, mas sem provocar fratura do crânio;
compressão das carótidas e das jugulares, compressão de troncos e raízes
nervosas, o frio e congelação de regiões do corpo humano”.
Até à Idade Média era
ainda desconhecida a forma adequada de muitos dos tratamentos para curar muitas
das enfermidades, os fatores condicionantes das mesmas, sendo a cirurgia
somente realizada perante o perigo de morte do paciente, os instrumentos utilizados
eram muito elementares e não existia uma higiene adequada.
No tratamento da diabetes
eram aconselhados exercícios físicos e ervas curativas, mas rapidamente
verificaram que os pacientes não obtinham melhoras e acabavam por falecer.
Também as doenças de pele como a psoríase eram incuráveis, julgavam que eram
contagiosas. Neste caso as pessoas que sofriam desta doença “tinham de usar um
sino para avisar aos demais que estavam se aproximando”.
Desde os tempos mais
antigos que muitas doenças eram tratadas através da sangria, método que foi
utilizado durante muitos séculos.
ilustração antiga da
prática da sangria
Fig. 6 - Prática da
sangria
Este método consistia em
colocar sanguessugas em cima da pele para pudessem fazer uma “limpeza” das
impurezas.
Esta prática que segundo
se pensava “o sangue continha líquido maligno e que devia ser libertado para a
cura do doente” foi inicialmente realizada no Egito e na antiga Grécia. Este
método vulgarizado tanto na Índia como nos países árabes, foi muito utilizado
pelos barbeiros durante a Idade Média. George Washington (1732-1799) foi
submetido a este método para curar a pneumonia de que padecia, acabando por ser
a causa da sua morte.
Na antiguidade, no campo
da obstetrícia a mulher optava por dar à luz de cócoras ou de pé. Na India já
se sabia virar o feto quando este se encontrava numa posição incorreta para se
realizar o parto. As tribos em África já realizavam cesarianas com instrumentos
muito rudimentares.
papiro do antigo Egipto
demonstrado a realização do parto
Fig. 7 - Realização do
parto
Ao longo da Idade Média
houve um acentuado retrocesso no conhecimento da obstetrícia devido não só por
terem desprezado as antigas informações obtidas durante os séculos anteriores,
mas também por não ter existido um desenvolvimento nesta área por influência da
Igreja, o que resultou num elevado número de mortes, tanto em recém-nascidos
como das mães durante o parto.
Anteriormente à invenção
dos antibióticos (a penicilina foi descoberta em 1928 por Alexandre Fleming), o
combate às infeções era efetuado através de remédios assentes em venenos
oriundos de algumas plantas e nas toxinas provenientes das cobras, que atualmente
alguns investigadores comprovaram que essas substâncias contém elementos que
“eliminavam bactérias ou tinham efeitos bactericidas”.
Na Idade Média foram
adicionados às fórmulas destes remédios, serpentes e escorpiões dissecados.
O desenvolvimento da
prática de curar teve como um dos seus inícios, os avançados conhecimentos em
medicina deixados por vários povos como os egípcios que bem conheciam a
anatomia humana, a utilização de plantas para a cura de enfermidades e os
romanos que também tiveram um papel muito importante na era clássica da
medicina, com a invenção de vários instrumentos utilizados em cirurgia como
bisturis, tesouras, pinças ou agulhas.
ilustração do homem da
antiga Grécia
Fig. 8 - Hipócrates
Também Hipócrates
considerado o maior crítico da Medicina Moderna discordava com o conceito, que
por essa altura se pensava, de que “apenas os deuses eram determinantes para
todas as causas das doenças”, dedicando-se a “estudar os sintomas de doenças e
a evolução delas em outros pacientes”. Galeno, autor de mais de 400 livros
entre os quais 70 títulos dedicados à Medicina, defendia o estudo e a
observação do meio ambiente, e a relação entre os seres humanos, como forma
para identificar as causas das enfermidades relacionadas a problemas físicos, o
que contribuiu também para a evolução e desenvolvimento da Medicina.
Apesar de na Idade das
Trevas terem desenvolvido alguns medicamentos, as doenças voltaram a ser
novamente atribuídas às forças divinas. Nessa época a evolução da medicina
baseou-se no conhecimento deixados pelos persas, árabes e judeus, que através
dos seus estudos dedicados na codificação da medicina grega e apoiados pelos
escritos egípcios e indianos, deram origem a algumas descobertas como a
“natureza contagiosa das doenças infeciosas; distinção entre a varíola e o
sarampo, sobre as reações alérgicas”.
imagem antiga de homem
Fig. 9 - William Harvey
A partir do Renascimento,
a mudança do pensamento (onde foi abandonada a ideia de que a causa das doenças
tinha origem divina) contribuiu para um enorme avanço do conhecimento médico
nos séculos seguintes. Verificou-se no séc. XVI o início da realização de
testes em laboratório muito mais aprofundados e uma evolução do conhecimento
tanto da anatomia como da cirurgia; no séc. XVII com a descoberta do sistema
circulatório do sangue por William Harvey que revolucionou os conceitos de
anatomia, trazendo outras ciências como a Farmácia ou a Biologia a apoiar a
Medicina, um mais vasto “conhecimento fisiológico que possibilitou que as
doenças fossem identificadas com mais precisão”.
Microscópio acromático
Fig. 10 - Microscópio
acromático
No séc. XIX a invenção do
microscópio acromático possibilitou a identificação das bactérias causadoras de
várias doenças e “a teoria dos germes desenvolvida por Pasteur”. A partir do
séc. XX surgiu um enorme desenvolvimento na Medicina devido ao avanço tecnológico
que contribuiu na criação de equipamentos para diagnosticar as enfermidades que
continuavam sem tratamento curável. Surgiu ainda nos finais do seculo XIX o
Raio-X sob a responsabilidade de um dos seus criadores, o físico alemão Wilhelm Conrad Roentgen. Esta
descoberta contribuiu especialmente para os tratamentos ortopédicos, auxiliando
“a examinar as estruturas anatómicas sem precisar fazer procedimentos invasivos
no paciente”.
No início do seculo XX,
Willem Einthoven inventou o aparelho de eletrocardiograma que permitiu o estudo
sobre o funcionamento do músculo cardíaco.
imagem antiga de um
aparelho de electrocardiograma, o primeiro
Fig. 11 - Primeiro
aparelho de electrocardiograma
Em 1972 foi criado o
tomógrafo por Allan Cormack e Godfrey Newbold Hounsfield, e em meados da mesma
década começaram a ser utilizados os aparelhos de ressonância magnética,
invenção de Edward Purcell e Felix Bloch, que permitiam a realização de exames
em humanos, dando a possibilidade de realizar os diagnósticos com mais precisão
de várias enfermidades.
Este importante aparelho
além de fornecer imagens internas do organismo com excelente resolução
espacial, não utiliza a radiação ionizante (potencialmente cancerígena) em
comparação com as radiografias e as tomografias.
Com a utilização da
telemedicina mediante os recursos das tecnologias da informação e comunicação,
é possível transmitir e partilhar informações, documentos, diagnósticos ou
exames médicos, entre profissionais de saúde que estejam em localidades
distantes.
As primeiras comunicações
foram realizadas no séc. XIX através do telégrafo e do telefone. Já no século
XX a telemedicina usufruindo da utilização da internet, revolucionou a
comunicação no universo médico. Atualmente é possível um médico avaliar um paciente
de onde ele quer que ele esteja, orientando-o e transmitindo-lhe indicações na
procura de que a doença não progrida.
Verificou-se na última
década do seculo XX, a introdução das mais recentes inovações tecnológicas
(impressão em 3D e a robótica) e de novos recursos digitais que proporcionaram
uma nova evolução da Medicina, destacando-se a cirurgia robótica que tem como
finalidade efetuar cirurgias à distância, mesmo em locais muito distantes. Por
outro lado, este recurso traz enormes vantagens visto que enquanto máquinas são
mais precisas e não são influenciadas por várias causas como o cansaço ou
tremores.
Sem todos estes grandes
avanços e inovações tecnológicas, que ocorreram neste último seculo, seria
muito difícil de compreender melhor o organismo humano, realizar estudos e
investigações com o objetivo de se criar novos tratamentos, medicamentos,
vacinas e outras soluções que nos possam responder às várias questões da saúde,
mas também na orientação para a prevenção das doenças, impedindo o risco de
morte, aumentando a longevidade e qualidade de vida dos seres humanos.
Bibliografia:
- 5 tratamentos bizarros
que a medicina antiga considerava como eficazes. Disponível em:
https://www.megacurioso.com.br/medicina-e-psicologia/69535-5-tratamentos-bizarros-que-a-medicina-antiga-considerava-como-eficazes.htm.
. [Acedido em 11-09-2021]
- Como se deu a evolução
da Medicina ao longo dos anos? Disponível em:
https://medicina.ucpel.edu.br/blog/evolucao-da-medicina/. [Acedido em
11-09-2021]
- Conheça a história da
medicina e sua evolução ao longo dos anos. Disponível em:
https://www.ceen.com.br/conheca-a-historia-da-medicina-e-sua-evolucao-ao-longo-dos-anos/.
[Acedido em 11-09-2021]
- As práticas médicas do
Egito Antigo que são usadas até hoje. Disponível em
https://www.bbc.com/portuguese/geral-40634202. [Acedido em 11-09-2021]
- 7 tratamentos médicos
estranhos que ficaram no passado. Disponível em:
https://incrivel.club/criatividade-saude/8-tratamentos-medicos-antigos-que-devem-ficar-no-passado-para-sempre-332610/.
[Acedido em 11-09-2021]

No comments:
Post a Comment