Choro e ranger de dentes
Todas as crenças têm um lugar
reservado para as almas dos condenados sofrerem os tormentos mais pavorosos que
a mente humana é capaz de imaginar. Afinal, o que é o inferno, onde não há
esperança de salvação?
Rosa Ferreira
27 Junho 2013 — 16:18
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Lugar de dor e sofrimento, a
cheirar a enxofre, onde só se ouve choro e ranger de dentes e, no meio de fogo
e gelo, os diabos atormentam para sempre as almas dos condenados, o inferno não
é uma mera superstição de mentes vítimas do obscurantismo de tempos que já lá
vão. O atual Catecismo da Igreja Católica, aprovado em 1992 pelo papa João
Paulo II, tem escrito, no parágrafo 1035.º, o seguinte: «A doutrina da Igreja
afirma a existência do Inferno e a sua eternidade. As almas dos que morrem em
estado de pecado mortal descem imediatamente, após a morte, aos infernos, onde
sofrem as penas do Inferno, "o fogo eterno". A principal pena do
inferno consiste na separação eterna de Deus.» Este trabalho resultou de seis
anos de uma comissão internacional composta por teólogos prestigiados,
presidida pelo então cardeal Joseph Ratzinger - hoje Bento XVI, papa emérito.
O inferno nas diferentes religiões
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As igrejas ortodoxas, protestantes
e restantes denominações cristãs concordam no essencial com esta definição.
Todas as religiões dão destaque ao lugar onde os condenados expiam as suas
faltas padecendo as atrocidades mais pavorosas. O Alcorão, livro sagrado do
islão, descreve as penas de Jahannam (inferno) de acordo com a gravidade dos
pecados cometidos em vida: o fogo simples para os muçulmanos pecadores; o
braseiro, onde estão cristãos; Hutama (fogo atiçado), onde estão judeus; Saqar
(fogo intenso) para os feiticeiros e os adoradores dos astros; o fogo ardente
para os renegados, Satanás e os seus seguidores; a fornaça para os infiéis; e
por fim o Haawiyah (abismo) para os hipócritas que proclamam acreditar em Deus
e no profeta Maomé mas que, no íntimo, os renegam. Ao contrário do restante
Jahannam, que é de fogo, um dos poços do inferno islâmico, Zamhareer, é gelado.
No judaísmo, o mundo dos mortos,
desolado e silencioso, chama-se Sheol ou Seol - é o equivalente ao Hades dos
gregos. Já o lugar do castigo purificador da alma é o Gehinom ou Geena, que não
é eterno mas tem como objetivo preparar as almas para a entrada no paraíso (um
pouco à semelhança do purgatório para os católicos).
Embora o budismo defenda que todo
o ciclo de morte e renascimento (Samsara) é um fluxo incessante de sofrimento,
os níveis do sofrimento são diferentes consoante os reinos em que se reencarna.
Os piores desses reinos são os infernos (Naraka), uns quentes outros frios - e
o pior de todos é Avici, onde reencarnam os que praticaram crimes hediondos,
como matar o pai, a mãe ou um buda.
As conceções religiosas foram
influenciadas pelas mitologias. No Egito Antigo acreditava-se que, depois da
morte, a alma era pesada no Tribunal de Osíris, de acordo com os atos
praticados em vida. Se fosse condenada, era privada da vida eterna e lançada a um
devorador que lhe infligia sofrimentos horríveis até ser definitivamente
aniquilada. A descrição de alguns desses castigos sobreviveu nos textos coptas
e acabou refletida na ideia cristã de inferno.
Na Mesopotâmia, a Epopeia de
Gilgamesh refere a descida ao «mundo subterrâneo» ou «mundo inferior» - que na
mitologia grega recebeu o nome de Hades. Os gregos (e depois os romanos)
acreditavam que os mortos chegavam ali depois de atravessarem o rio Aqueronte
(rio das Dores) numa barca conduzida por Caronte, a quem tinham de pagar. É daí
que vem o antigo costume, em alguns países, de pôr moedas sobre os olhos dos
mortos (se não as levassem, Caronte não os transportava e eles ficavam na
margem, a vaguear, perturbando os vivos). Enquanto Hades era o lugar genérico
para onde iam todas as almas, as que mereciam ser punidas ficavam aprisionadas
num sítio específico: o Tártaro.
Na mitologia nórdica, o reino dos
mortos chama-se Hel e é governado pela deusa do mesmo nome, filha de Loki
(divindade maligna). A «guardiã das sepulturas» deu origem à palavra inglesa
para inferno (hell).
Um problema de tradução
A tradução de palavras diferentes
em grego e hebraico pelo mesmo termo em latim - infernus ou inferus - deu
origem à conceção bíblica de inferno que chegou à atualidade. A palavra
hebraica sheol (túmulo, cova, abismo), no Antigo Testamento, e a grega hades,
no Novo Testamento, designam o mundo inferior, debaixo da terra; em sentido
figurado, o mundo dos mortos. Todos os mortos, sem distinção, não
necessariamente os condenados.
Já o termo hebraico hinom (no
Antigo Testamento) e a sua versão helenizada geena (no Novo Testamento)
referem-se ao lugar do castigo pelo fogo eterno. Esse lugar tem uma geografia
concreta: Hinom (hoje Uadi er-Rababi) é um vale a sudoeste das muralhas da
Cidade Antiga de Jerusalém onde, antes da conquista pelos judeus, os amonitas
faziam sacrifícios de crianças ao deus Moloch. Acabada essa prática, tornou-se
o local onde era deitado o lixo e também cadáveres de animais e de criminosos
considerados indignos de sepultura. Tudo isso era incinerado num fogo mantido
sempre aceso com enxofre.
Várias passagens da Bíblia referem
o inferno como a «fornalha acesa», lugar de «choro e ranger de dentes».
(Mateus, 13: 42). Ali, «todos os cobardes, os infiéis, os depravados, os
assassinos, os desonestos, os feiticeiros, os idólatras e todos os mentirosos
terão o seu lugar no lago de enxofre ardente, que é a segunda morte.»
(Apocalipse, 21: 8).
O evangelho de Lucas sublinha o
contraste entre o inferno e o paraíso, em que a moral da história é uma visão
bíblica da luta de classes... Conta que um rico levava uma vida de luxo e
ostentação e um pobre chamado Lázaro, coberto de chagas, costumava ir para a
porta do rico para tentar comer as migalhas que caíam da sua mesa farta. «O
pobre morreu e foi levado pelos anjos de Deus para junto de Abraão. O rico
também morreu e foi enterrado. No lugar de sofrimento onde se encontrava,
levantou os olhos e viu lá longe [no paraíso] Abraão e Lázaro com ele. Disse
então em voz alta: "Pai Abraão! Tem pena de mim e manda Lázaro molhar na
água a ponta do dedo e vir refrescar-me a língua, porque sofro horrivelmente
neste fogo!" Mas Abraão disse-lhe: "Lembra-te, meu filho, que em toda
a tua vida só tiveste coisas boas, enquanto Lázaro só teve males. Agora ele é
consolado e tu atormentado. Além disso, há um grande abismo entre nós e vocês,
de modo que nem os de cá podem passar para lá, nem os daí passar para
aqui."» (Lucas, 16: 22-27).
Embora a referência ao inferno
esteja arredada das orações atuais, na versão do Credo chamada «Credo antigo»
ou «Símbolo dos Apóstolos», que era rezado a par do «Credo moderno» (designado
oficialmente Credo Niceno-Constantinopolitano, por ter sido aprovado nos
concílios de Niceia e de Constantinopla) e só caiu em desuso a partir do
Concílio Vaticano II (1962-1965), há um verso segundo o qual Jesus «desceu à
mansão dos mortos» ou «desceu aos infernos» - em latim descendit ad inferos ou
descendit ad inferna. Ao ressuscitar, Jesus expiou o pecado original, triunfou
do inferno e redimiu a humanidade.
A questão é polémica desde o
século ii: para alguns dos Padres da Igreja, responsáveis pela definição da
doutrina cristã (como São Justino Mártir, São Clemente de Alexandria,
Tertuliano ou São Cipriano), o inferno é um lugar de castigo pelo fogo; para
outros (Orígenes ou São Gregório de Nissa), é um lugar de sofrimento
espiritual, provocado pela separação de Deus. Santo Agostinho (354-430)
estabeleceu o conceito que passou a ser aceite daí em diante: o inferno é um lugar
de sofrimento eterno, tanto físico como espiritual.
Debaixo da terra ou uma ilha no
fim do mundo
A imagem que hoje temos do inferno
foi fixada por Dante na Divina Comédia (século XIV) e por Milton em Paraíso
Perdido (século XVII). Estes dois poetas maiores da literatura ocidental
desenvolveram a ideia expressa por Santo Agostinho na Cidade de Deus: «Mas essa
geena que também se chama lago de fogo e de enxofre (stagnum iris et sulphuris)
será um fogo corpóreo e atormentará os corpos dos condenados, quer dos homens
quer dos demónios.»
É difícil acreditar que Dante não
tivesse usado como fonte para o seu Inferno a Visão de São Paulo, um apócrifo
(escritura cuja autenticidade não é reconhecida pela Igreja) do século III.
Segundo este texto, chega-se ao inferno atravessando um rio de fogo, que corre
debaixo da terra. Lá, anjos caídos cortam os seios às mulheres pecadoras e os
padres e frades que não cumpriram as suas obrigações religiosas têm os
intestinos perfurados por instrumentos pontiagudos e os lábios cortados com
lâminas. A correr incessantemente num poço de alcatrão e enxofre estão homens
que «cometeram a iniquidade de Sodoma e Gomorra, homens com homens». Os
infanticidas são estrangulados no fogo, enquanto vermes e animais selvagens
desmembram os condenados numa pirâmide ardente. Os que negam a ressurreição de
Cristo são torturados por um verme de duas cabeças num recanto infernal onde
não há fogo mas gelo e frio intenso. Por intercessão de São Paulo, os pecadores
não são atormentados ao domingo.
Durante a Idade Média sucederam-se
as descrições do inferno em narrativas de viagens fantásticas. A Navegação de
São Brandão (século ix) refere a descoberta de ilhas demoníacas no mar do
Norte, onde aparece Judas. O rio de fogo e o combate entre anjos e demónios
pelo domínio das almas são mencionados nas visões de São Fursa, missionário
irlandês de meados do século vii. Alberico, monge da abadia de Monte Cassino
(Itália), e o irlandês Tnugdal, ambos do século xiii, distinguem os lugares dos
diversos castigos no inferno. Tnugdal descreve um vale coberto por uma tampa de
ferro gigantesca onde os homicidas são reduzidos ao estado líquido.
Ajuste de contas em nove círculos
Dante Alighieri (1265-1321)
participou na longa guerra civil que dividiu a cidade-estado italiana de
Florença nos séculos XIIIe XIVentre os guelfos (partidários do papa) e os
gibelinos (defensores da autoridade do imperador do Sacro-Império Romano Germânico,
vulgo império alemão). Exilado devido à sua atividade política do lado dos
guelfos, Dante morreu no exílio (onde acabou por aproximar-se dos
ex-adversários gibelinos). No Inferno, primeira parte do poema épico Divina
Comédia, o autor aproveita para «ajustar contas» com diversas figuras da vida
política, social e religiosa do seu tempo, a quem aplica a noção de
contrapasso: o castigo eterno deve corresponder à falta cometida em vida.
Não chegou até nós qualquer
manuscrito original da Divina Comédia. Os mais antigos são da década de 1330.
Calcula-se que o Inferno tenha sido redigido cerca de 1307-1308. O poema,
escrito na primeira pessoa, conta que Dante, andando perdido «na selva escura»
na Quinta-Feira Santa de 1300, encontra a sombra (alma) do poeta latino
Virgílio (autor da Eneida, poema épico que narra a fuga de Eneias de Troia e a
fundação de Roma) que se propõe, a pedido de Beatriz, a amada de Dante, que
morreu e foi para o paraíso, guiá-lo numa viagem ao outro mundo.
Ao passar a porta do inferno, o
poeta repara no aviso que termina no verso: «Deixai toda a esperança, vós que
entrais.» (Canto III, 9. Neste artigo segue-se a tradução de Vasco Graça Moura,
Bertrand, 1997). Logo a seguir, numa espécie de antecâmara, vê as almas «sem
infâmia e sem louvor» dos cobardes e indecisos, rejeitados tanto pelo céu como
pelo inferno, incluindo o que fez «a mor escusa» - o papa Celestino V, que
renunciou ao cargo em 1294.
Atravessando o rio Aqueronte na
barca de Caronte chega-se então ao inferno, um cone invertido, no subsolo de
Jerusalém, composto por nove círculos, cada vez mais estreitos à medida que se
aproxima o centro da terra. Ali são castigados os pecados, por ordem crescente
de gravidade.
O primeiro círculo corresponde ao
limbo, onde estão as crianças que morreram antes de serem batizadas e «as boas
almas que não conheceram a fé». Só em 2007 o papa Bento XVI declarou que as
crianças e as almas que não cometeram pecados graves, mesmo não batizadas, vão
para o céu. Encontram-se ali figuras famosas da Grécia e de Roma: Horácio,
Homero, Ovídio. É lá que reside o próprio Virgílio. É também o lugar do Castelo
da Filosofia, onde estão Heitor, Eneias, César, Saladino, Sócrates, Platão,
Aristóteles, Demócrito, Séneca, Euclides, Ptolemeu, Hipócrates e outros sábios
da Antiguidade.
O sexo é castigado no vale dos
ventos. O facto de os luxuriosos serem colocados logo no segundo círculo do
inferno significa que, no tempo de Dante, o sexo ilícito era considerado o
menos grave dos pecados mortais. Estes pecadores são atormentados por um
furacão de ventos incessantes que os arrasta, tal como em vida foram arrastados
pelas paixões carnais. Cleópatra, Helena de Troia, Aquiles, Páris e Tristão
estão aqui.
O lago de lama é o terceiro
círculo, onde sofrem os gulosos, sacudidos por uma chuva tempestuosa de torrões
de água suja e dilacerados por Cérbero, o monstruoso cão de três cabeças. Dante
encontra aqui um político florentino seu conhecido.
Os gananciosos sofrem no monte
rochoso. Pródigos e avarentos empurram uns contra os outros fardos de moedas e
ouro, ao mesmo tempo que trocam injúrias.
A ira é castigada no pântano
Estige, de água lodosa. Os coléricos agridem-se à cabeçada e também com o peito
e aos pontapés; os rancorosos, presos nos limos, nem conseguem assomar à
superfície.
No sexto círculo fica a cidade de
Dite (ou Dis), onde é punida a heresia (Dante vê ao longe mesquitas). Mais de
mil diabos vigiam sobre as portas da cidade. Monstros mitológicos, como as
Fúrias e a Medusa, misturam-se com figuras históricas: o filósofo grego Epicuro
(séculos iv a.C.-iii a.C.), o imperador alemão Frederico II (1194-1250) e o
papa Anastácio II (século V).
Os violentos penam no sétimo
círculo, subdividido em três vales. No vale do Flegetonte, um rio de sangue,
onde estão os ladrões, os tiranos (como Alexandre o Grande e Dionísio de
Siracusa) e os assassinos (incluindo Átila e Pirro). No vale da floresta dos
suicidas, as harpias (monstros mitológicos com rosto de mulher e corpo de
pássaro) atormentam as almas dos suicidas, transformados em árvores de ramos
nodosos e retorcidos. De cada vez que uma harpia come uma folha ou arranca um
ramo, ouvem-se queixumes de dor e é derramado sangue escuro. No deserto de
areia, sob uma chuva de fogo, são punidos os violentos contra Deus: os
blasfemos; os letrados que escrevem contra a religião; os sodomitas
(homossexuais), cujas práticas Dante classifica como violência contra a
natureza; e os usurários, condenados a arrastar sacos pendurados ao pescoço.
O oitavo círculo chama-se
Malebolge, todo de pedra e cor de ferro, onde estão os fraudulentos. É composto
por dez fossos onde sofrem dez categorias de pecadores: 1) Os rufiões e
sedutores, flagelados por demónios cornudos com chicotes. 2) Os aduladores, num
fosso de fezes, mergulhados na sujidade com que conspurcaram o mundo: «Vi gente
chafurdada em tal esterco/ (...) vi um cheio de merda até ao bordo/ da cabeça.»
3) Os religiosos que fazem negócio de coisas sagradas (simoníacos), enterrados
de cabeça para baixo em buracos que fazem lembrar as pias batismais, enquanto
as plantas dos pés são queimadas por velas. É o lugar de castigo do papa
Nicolau III (1216-1280), que enriqueceu a sua família à custa da igreja. 4) Os
adivinhos, cujo tormento é terem a cabeça voltada para trás, com o tronco
torcido pelos rins (castigo por reivindicarem saber o futuro). 5) Os corruptos,
mergulhados em alcatrão a ferver; sempre que tentam levantar a cabeça são
atingidos por setas disparadas pelos diabos. 6) Os hipócritas, vestidos com
capas brilhantes mas pesadas como chumbo - o castigo do brilho falso. Dante
reconhece aí alguns frades de Florença e vê crucificado o sumo sacerdote judeu
Caifás, padecendo as dores de Cristo. 7) Ladrões, mordidos por serpentes que se
enrolam aos seus corpos, que acabam por se metamorfosear em répteis. 8) Maus
conselheiros rodeados por chamas e um mar de lava, debaixo de uma trovoada
incessante. 9) Semeadores de escândalos e discórdia, divididos em causadores de
cismas religiosos (é ali que está Maomé); instigadores de lutas sociais; e
criadores da desunião nas famílias. São retalhados à espadeirada por diabos que
lhes cortam partes do corpo relacionadas com a discórdia que provocaram. 10)
Falsificadores castigados com lepra e sarna: «Cada um ali esfrega/ as unhas
sobre si, de raiva, a dar na/ comichão, e é socorro que não pega;/ e co as
unhas assim tiram a sarna.» Estão lá os alquimistas e os falsificadores de
moeda que, além dos outros castigos, passam uma sede insuportável; e ainda os
mentirosos, atacados por febres.
Por último, no círculo mais estreito
e mais profundo, que coincide com o centro da Terra, fica o lago de gelo
chamado Cocito, formado pelas lágrimas congeladas dos condenados e pelos rios
de sangue. É ali que estão mergulhados os traidores e é também a morada de
Lúcifer, o anjo que traiu Deus. Divide-se em quatro regiões: a Caína (de Caim,
que assassinou o seu irmão Abel), onde estão os traidores dos seus familiares,
só com o tronco e a cabeça fora do gelo; a Antenora (de Antenor, o troiano que
estava feito com os gregos), onde sofrem os traidores à pátria ou à sua fação,
submersos até ao pescoço; a Tolomeia (de Ptolemeu, que tanto pode ser o faraó
egípcio irmão de Cleópatra, que mandou a César a cabeça do seu hóspede Pompeu;
ou outro Ptolemeu, governador de Jericó, que matou à traição o cunhado, Simão
Macabeu), onde estão os que traem os hóspedes, só com a cara fora do gelo; e
por fim a Judeca (de Judas), a zona mais profunda, onde estão os traidores de
quem lhes fez bem, totalmente mergulhados no gelo.
Nesse lugar reside Lúcifer,
«imperador do reino em dor tamanho», preso no gelo até ao meio do peito peludo,
com asas de morcego e três faces para abocanhar, eternamente, três traidores.
«Com seis olhos chorava (...) / baba sangrenta e ranho gotejava./ De cada boca
esfacelava a dente/ um pecador, ripando-lhe a medula.» O da frente, «a alma que
tem a maior pena», é Judas. Os outros dois são traidores e assassinos de César:
Bruto e Cássio.
Aí termina a descida ao inferno,
quando Virgílio diz a Dante: «Hora se faz/ de partirmos, porquanto vimos tudo.»
Pandemónio
Três séculos depois, o inglês John
Milton (1608-1674) - autor de Areopagitica, uma obra de referência na luta
contra a censura e pela liberdade de imprensa - deu uma nova achega à noção de
inferno no poema Paraíso Perdido, publicado em 1667.
No início da história, Satanás (ou
Lúcifer) reúne em Pandemónio (a capital do inferno) os anjos caídos, entre eles
Mamon, Belzebu, Belial e Moloch, e convence-os a seguirem-no num novo combate
contra Deus. Procuram a desforra da guerra anterior, em que os anjos rebeldes
tinham sido expulsos do paraíso e lançados no inferno - o Caos, lugar da
escuridão absoluta -- onde ficaram jazendo num lago de fogo líquido, depois de
terem sido derrotados pelo Filho de Deus.
Paraíso Perdido descreve Satanás
como o mais belo dos anjos, antes de se revoltar contra Deus. A insubmissão
ficou a dever-se à arrogância dos anjos rebeldes, que negaram a autoridade do
Criador, acusando-o de ser um «tirano»: «Antes reinar no Inferno do que servir
no Céu» (Canto 1: 263). Curiosamente, este verso faz lembrar a frase atribuída
a D. Luísa de Gusmão, mulher do rei de Portugal D. João IV, aquando da
Restauração, em 1640 - «Antes morrer reinando do que acabar servindo» -, mas
Paraíso Perdido só foi publicado 27 anos mais tarde.
Em todo o caso, à distância de
seiscentos (Dante) ou de trezentos anos (Milton), estas visões do inferno não
andam longe da descrição feita, em pleno século XX, pela irmã Lúcia
(1907-2005), que nas suas Memórias contou a visão dos pastorinhos de Fátima, em
1917: «Um grande mar de fogo que parecia estar debaixo da terra. Mergulhados
nesse fogo, os demónios e as almas como se fossem brasas transparentes e negras
ou bronze com forma humana flutuavam no incêndio levadas pelas chamas...»
O inferno em frases
«De boas intenções está o inferno
cheio.» - provérbio que, com pequenas variantes, foi citado ou parafraseado por
São Bernardo (século xii), Samuel Johnson (século xviii), Walter Scott
(1771-1832) ou Karl Marx (1818-1883).
«O inferno é cá neste mundo: não
ter que comer, que beber, nem umas palhas em que deitar-se.» - Camilo Castelo
Branco (1825-1890), escritor português.
«O inferno é a lama.» - Le
Bochofage, jornal das trincheiras da Primeira Guerra Mundial, 25 de agosto de 1917.
«O inferno é já não amarmos.» -
Georges Bernanos (1888-1948), escritor francês.
«O inferno são os outros.» -
Jean-Paul Sartre (1905-1980), filósofo francês.
Dan Brown volta a atacar
O lançamento da edição portuguesa
de Inferno, o último romance de Dan Brown (edição Bertrand), está marcado para
o próximo dia 10 de julho. O livro tem tudo para ser mais um best seller
mundial (em Inglaterra vendeu 230 mil exemplares só na primeira semana),
repetindo a fórmula de sucesso (que alguns críticos chamam «truques») de O
Código da Vinci, Anjos e Demónios ou O Símbolo Perdido. Desta vez, o herói
Robert Langdon vive uma aventura que o leva a alguns dos mais famosos
monumentos de Florença, Veneza e Istambul, perseguido por uma perigosa
organização internacional, ao mesmo tempo que resolve enigmas e segue pistas
encontradas nos versos do Inferno de Dante e em obras-primas da arte europeia
inspiradas naquele poema. O fim está à altura do tema: uma ameaça de proporções
dantescas paira sobre a humanidade...
Dantesco!
A Divina Comédia não é só uma obra
genial da literatura europeia: a força das descrições do inferno imaginado por
Dante deu origem a um adjetivo usado em diferentes línguas para qualificar a
beleza atroz de uma cena grandiosa no seu horror, por exemplo o pavor de um
grande incêndio: dantesco.
Ao longo dos séculos, os versos do
poeta florentino impressionaram alguns dos maiores vultos da pintura mundial,
que lhes deram tradução plástica em obras-primas capazes de, ainda hoje,
emocionar quem as vê. É o caso do fresco de Domenico di Michelino A Divina
Comédia de Dante (1465), na Catedral de Florença; do Mapa do Inferno (1485), de
Botticelli, na Biblioteca do Vaticano; do Juízo Final (pintado entre 1537 e
1541), de Miguel Ângelo, na Capela Sistina, também no Vaticano; das gravuras de
Gustave Doré que desde 1861 ilustram algumas das melhores edições do Inferno;
ou das aguarelas alusivas aos diversos cantos do poema, pintadas por Salvador
Dalí em finais da década de 1950 e inícios da de 1960.
Mas nem só a pintura ficou marcada
por Dante. Já neste século foi recuperado o filme L"Inferno, realizado em
1911 pelo italiano Giuseppe de Liguoro, baseado no poema homónimo. Para compor
a banda sonora da versão restaurada foi convidada a banda alemã de rock progressivo
Tangerine Dream. O trabalho deu origem ao disco Inferno, lançado em 2002 - uma
música... dantesca!

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